O neurologista gaúcho Pedro Schestatsky, que lança nesta segunda-feira (17), na Livraria da Travessa, em Porto Alegre, o livro Cérebros quebrados — uma epidemia invisível (leia os detalhes do lançamento no fim do texto), é o entrevistado da semana do Paralelas.
A obra (cujo valor da pré-venda foi destinado à Associação de Assistência à Criança Deficiente) fala sobre as causas — e não apenas os sintomas — do adoecimento cerebral.
Para o dr. Pedro, autor do best-seller Medicina do Amanhã (finalista do Prêmio Jabuti em 2022), esse quadro não é resultado do acaso, nem apenas de herança genética. É, na verdade, consequência do modo como o cérebro reage ao ambiente contemporâneo: alimentação ultraprocessada, sedentarismo, privação de sono e por aí vai.
Falamos de tudo isso (e mais um pouco) no programa. Você lê aqui apenas um pedacinho da entrevista, que você encontra na íntegra no YouTube de GZH e no Spotify (vai lá que vale a pena!). O Paralelas tem novos episódios no ar toda sexta-feira, no início da tarde.

Teu novo livro fala de uma epidemia invisível. Os cérebros estão falhando?
Hoje o Brasil lidera o ranking de ansiedade, depressão e declínio cognitivo, antes da hora. O cérebro está falhando muito antes dos outros 77 órgãos e ele se conecta com todos. A pergunta “por que estamos onde estamos” tem muito a ver com a maneira como estamos tratando nosso corpo. Isso acaba respingando no cérebro. Antes, se achava que era uma entidade separada: cérebro para cá, corpo para lá. Hoje, não, está tudo conectado. O cérebro está sendo espancado diariamente e chega uma hora que ele diz deu. Metade dos idosos em 2050 terão Alzheimer. Hoje, é um terço.
A expressão “morreu lúcido” está mesmo em extinção?
A gente escuta cada vez menos. As pessoas não estão mais morrendo lúcidas, já perderam a lucidez muito antes. Quando falo em lucidez, tem um pouco de neurologia e psiquiatria. Tem questões de humor ansiedade, depressão, toque, TDAH e tem as demências e doenças neurodegenerativas. Não são só questões psicológicas, mas também questões neurológicas ou neuropsiquiátricas que estão envolvidas nesse pioramento exponencial.
O que te levou a querer estudar o cérebro humano?
É uma história curiosa e não muito glamurosa. Quando acabei o curso de medicina, tinha de decidir qual seria minha especialidade. Fui muito racional. Escolhi o que as pessoas menos escolhiam. Ninguém queria saber da neurologia.
Por quê?
Porque, naquela época, a gente fazia diagnósticos maravilhosos com nomes difíceis, impronunciáveis, piores do que meu sobrenome (risos) e não se fazia nada, não tinha tratamento.
Era um grande mistério?
Mistério que me chamou a atenção. Escolhi a área para ter esse desafio de encontrar soluções, e o livro Cérebros Quebrados traz soluções, não é só mimimi e choradeira, só dizer que está tudo ruim. Não, não, não. Tem solução, não se preocupe. Você que tem algum transtorno mental, sempre há solução, porque nós vamos tratar causas, e não exatamente o nome do seu problema.
Como nasceu a ideia do livro?
De uma inquietude de não ficar de braços cruzados vendo tudo acontecer. Decidi pegar tudo que já escrevi e postei (@drpedroneuro tem 894 mil seguidores no Instagram) e materializar isso para facilitar o acesso às pessoas que querem criar saúde.
Tua visão da medicina não é uma visão tradicional, né?
Exato. A visão tradicional parte da doença. Aqui não, a ideia é criar saúde no cérebro e no corpo, que são uma coisa só, e botar a doença para fora do carro, ou seja, tornar o ambiente corporal hostil à doença, não convidativo.
E como se faz isso? É fácil?
Criei um programa que pode ser seguido por qualquer pessoa. O que acontece na prática, nos consultórios? 99% da consulta é falando sobre fármacos, e, na saída, na porta, quando o médico está se despedindo do paciente, ele diz: “Coma bem e movimente-se.”
O mais importante acaba sendo o menos importante?
Sim. Devia ser o contrário. Devia ser 99% da consulta falando sobre como melhorar o cérebro através do corpo, porque se tu melhoras o corpo, o cérebro vai na carona. No final da consulta, quem sabe, o médico sugira um medicamento.
Só para deixar claro: tu não és contra o uso de medicamentos, né? Tua batalha é para que se olhe para o todo, é isso?
Essa é a minha batalha. Enxergar o todo, porque realmente o cérebro depende do todo, e, quanto aos medicamentos, não sou contra. Só que eu encaro eles como um meio, não como um fim. E eu já cansei de ouvir neurologistas e psiquiatras sentenciando o paciente: "Isso aqui é para toda a vida." Claro, quando é uma enzima, quando é uma coisa que você não tem, não produz, tem de ser para toda a vida, mas não dá para causar o que a gente chama de efeito nocebo, que é o contrário do placebo, quando tu geras a doença no paciente.
Sobre o livro

O livro Cérebros quebrados — uma epidemia invisível (Editora Gente, 224 páginas), de Pedro Schestatsky, será lançado nesta segunda-feira (17), a partir das 19h, na Livraria da Travessa, no Shopping Iguatemi (piso 2), em Porto Alegre.
Ele estará à venda no local. Você também pode comprá-lo no site da editora (clicando aqui), entre outros locais.




