A jornalista Camila Bengo colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.

Que Rio Grande do Sul existirá daqui a 100 anos? É essa pergunta que a violinista, cantora, compositora e pesquisadora gaúcha Clarissa Ferreira leva ao palco em Sul-Realismo, espetáculo autoral que estreia em três noites no Teatro de Câmara Túlio Piva, em Porto Alegre, entre sexta-feira (4) e domingo (6).
No novo trabalho, a artista faz o exercício de olhar para o presente e para as transformações que já estão em curso para imaginar o futuro do Estado. O repertório aproxima milongas, chacareras, candombes e maracatus de linguagens contemporâneas, recusando uma visão única sobre a cultura gaúcha.
— É nos preocuparmos com como estamos sendo representados e não deixar na mão de alguns que representem a todos. É olhar para todas as coisas boas que temos aqui, valorizar os nossos artistas locais em toda a sua diversidade. E se dar conta de que o Rio Grande do Sul faz arte contemporânea há décadas, não apenas a arte representativa de uma tradição conservadora engessada — afirma.
Com forte dimensão também ambiental, Sul-Realismo ganhou forma a partir de reflexões da artista sobre como o agravamento da crise climática está modificando a relação dos gaúchos com o território. E como, ainda, a própria identidade coletiva do povo do Rio Grande do Sul, tão ligada à terra, é ressignificada após tragédias como as enchentes de 2024.
Contudo, em vez de projetar um cenário apocalíptico, o projeto aposta na imaginação como ferramenta para pensar possibilidades de um futuro mais sustentável, diverso e múltiplo para o Estado.
— A proposta que me fiz, e que agora faço também ao público, é de pensar nesse futuro de uma forma positiva, a partir da imagem. É o exercício de não imaginar as coisas todas como já dadas, mas pensar, a partir da criação, em um outro mundo possível — explica Clarissa.

A paisagem, nesse processo, ocupa o centro da discussão sobre identidade e tradição. Clarissa chama atenção para a supressão acelerada da vegetação nativa do Pampa, provocada pela exploração dos recursos naturais. E questiona: se a terra que ajudou a forjar a identidade gaúcha está se transformando, não é preciso também transformar a maneira como essa identidade se relaciona com ela?
É nesse ponto que Sul-Realismo tensiona a representação do gaúcho ainda muito ligada a um passado mítico, marcado por guerras e uma relação predatória com pessoas, animais e o meio ambiente.
Para Clarissa, ressignificar essa tradição passa justamente por reconhecer que ela não é estática — e que precisa acompanhar as transformações do território e da sociedade:
— A nossa terra está mudando, e o gauchismo também precisa mudar.
A proposta, no entanto, não é abandonar a cultura gaúcha. Em vez de eliminar referências conhecidas, Clarissa propõe repensá-las e recriá-las para que caibam nesse Rio Grande do Sul imaginado, mais plural e atento às diferenças e à preservação ambiental.
— Justamente para as tradições permanecerem, é preciso que as pensemos de uma outra forma — resume Clarissa.

A ideia de multiplicidade também orienta os convidados que participarão das três noites. Cada apresentação foi concebida como um ato diferente, com uma narrativa própria.
Na sexta-feira (4), Clarissa recebe a dançarina e performer Emily Borghetti. O encontro recupera a parceria e a amizade de longa data entre as duas artistas e coloca em primeiro plano a discussão sobre o lugar das mulheres em linguagens e tradições historicamente dominadas por homens.
No sábado (5), é a vez de Vitor Ramil, referência artística e intelectual para Clarissa, especialmente por transformar o território, a paisagem e o próprio Sul em matéria de criação e pensamento. Os ingressos para essa noite estão esgotados, mas a apresentação será transmitida ao vivo pela plataforma Viv Show, mediante aquisição de acesso pelo valor de R$ 50.
O encerramento, no domingo (6), aponta diretamente para o futuro imaginado por Clarissa. Rosa Nika e Musa, do projeto Luxo das Gaúchas, e Yasmin Love y Las Sudakas levam ao palco pop, música eletrônica, reggaeton, funk, vogue e danças urbanas.
É também nesse cruzamento entre passado e futuro que entram as projeções assinadas por Fábio Spolti, que imaginam visualmente o Pampa daqui a um século, além do figurino desenvolvido em parceria com criadores locais e de uma construção cênica que busca deslocar elementos da estética gaúcha.
Sul-Realismo
- Dias 4 e 5 de setembro, às 20h; e dia 6 de setembro, às 18h
- Teatro de Câmara Túlio Piva (Rua da República, 575, Cidade Baixa)
- Ingressos à venda pelo Sympla, com valores a partir de R$ 40. Para a transmissão de 5 de setembro, acesso à venda na Viv Show





