A jornalista Camila Bengo colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.

E se a raiva, a solidão e o despertencimento também forem formas de afeto? É a partir dessa provocação que 20 artistas visuais negros do Rio Grande do Sul apresentam trabalhos inéditos na exposição EU AFETO, que será inaugurada em 9 de setembro, no Museu de Arte do Paço Municipal, em Porto Alegre.
Com curadoria de Laila Garroni, a mostra reúne artistas de Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande e Santa Maria, que foram convidados a produzir uma obra exclusiva a partir das diferentes dimensões da experiência negra ligada ao sentir. Colagem, desenho, fotografia, instalação e pintura estão entre os suportes utilizados.
A proposta, segundo a curadora, é fugir da visão romantizada do afeto como sinônimo apenas de amor ou carinho e abrir espaço para sentimentos que também fazem parte da vivência cotidiana.
— O trabalho coletivo representa o que é ser uma pessoa negra no mundo, no RS, e quais são todos os afetos que nos permeiam. Afeto não é só o que tentam nos dizer que é — afirma Laila.
As obras são asssinadas por Afrokaliptico, Avel, CARCOR, Estêvão da Fontoura, Gustavo Assarian, Josemar Afrovulto, Kayla Calistro, Leandro Machado, Lia Braga, Marcos Porto, Marlon Laurencio, Mitti Mendonça, Pamela Zorn, Paulo Corrêa, Rusha, Thiago Madruga, Tintas Dener, Virgínia Di Lauro, Wagner Mello e Yasmim Lima.
O projeto começou a ser desenvolvido em 2024, a partir de conversas individuais entre a curadora e os artistas. O processo buscou provocar reflexões sobre como determinadas emoções são percebidas quando associadas à população negra.
— Quando eu levantava esses questionamentos, os artistas passavam por um processo de autoanálise, de entender: "mas por que realmente eu acho que a minha raiva não é afeto?" — lembra Laila.
— A gente discutia horas e horas sobre isso. Sobre como a raiva, principalmente relacionada ao povo negro, é usada para retirar a nossa humanidade — detalha.
A exposição é um desdobramento do documentário EU AFETO, dirigido por Laila e produzido pelo Mamangava Lab., com estreia marcada para 2027.
Após a abertura, a mostra poderá ser visitada gratuitamente até 9 de dezembro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. A programação também prevê atividades especiais durante a Semana da Consciência Negra.






