
Ao assistir ao filme Antártida no Festival de Cinema de Gramado, na noite da última sexta-feira (14), numa exibição hors-concours, uma pergunta recorrente passou na minha cabeça o tempo todo: como os homens da plateia lotada do Palácio dos Festivais estariam recebendo o filme?
É um balaço numa sociedade intrinsecamente machista, na qual a violência contra a mulher às vezes é sorrateira, às vezes, explícita. O machismo pode estar em qualquer um de nós, sem que a gente perceba. Inclusive nas mulheres.
Mas, na produção dirigida por Bruno Safardi e estrelada por um timaço de atrizes (como Andrea Beltrão, Marina Ruy Barbosa e Leandra Leal) e atores (destaque para Lázaro Ramos), todos os personagens masculinos são tratados como estupradores em potencial. A tentativa de dominar as mulheres vai desde falas aparentemente banais até um ataque sexual propriamente dito.

Senti um incômodo persistente rondando o público. Ao contrário do meu amigo e colunista Ticiano Osório, que escreveu uma crítica bem fundamentada do filme, não acho que foi porque as pessoas consideraram a obra ruim.
Penso que isso aconteceu pela exposição nua e crua (com linguagem atualíssima) das situações de violência de gênero: homens minimizando falas de mulheres (mesmo elas sendo cientistas), homens protegendo uns aos outros (mesmo reconhecendo que houve um crime), homens dizendo que a estuprada “mereceu, porque provocou” e homens agredindo física e psicologicamente mulheres. Isso aparece o tempo inteiro no roteiro de Claudia Jouvin, que aborda o tema de forma muito contemporânea.
Sim, há um didatismo talvez exagerado. Mas, para mim e para as mulheres à minha volta no cinema, fez sentido. Assim como fez sentido ver o apoio mútuo feminino nas cenas finais (incluindo o clichê - vá lá - das mãos dadas quando o estuprador é levado pelas autoridades).
O filme não foi, de fato, ovacionado quando terminou. Mas como aplaudir quando, na tela final, aparece um alerta dizendo que, a cada oito minutos, uma mulher é estuprada no Brasil? Não tem como.




