Há quase quatro décadas, Celso Gutfreind trabalha com duas ferramentas que, para ele, estão intimamente ligadas: escutar e escrever. Médico, psicanalista e autor de 58 livros, o gaúcho já venceu quatro vezes o Prêmio Açorianos e foi finalista do Prêmio Jabuti.
No Paralelas, a conversa com Ju Bublitz partiu da psicanálise para chegar a uma inquietação bem contemporânea: em um cotidiano que exige respostas cada vez mais rápidas, ainda sabemos ficar em silêncio, conviver com a dúvida e realmente estar com outra pessoa?
Para Gutfreind, boa parte do mal-estar atual nasce justamente da dificuldade de respeitar o tempo necessário para sentir.
Você lê aqui um trecho da entrevista, disponível na íntegra no YouTube de GZH e no Spotify. O Paralelas tem novos episódios toda sexta-feira, no início da tarde.

A psicanálise é basicamente uma conversa?
Basicamente, ela é a palavra. Foi definida lá no começo como talking cure, a cura pela palavra. Assim como a criança precisa brincar para se organizar e elaborar o que vive, depois nós vamos precisar dizer.
Eu acho que a pessoa que diz está salva, dentro do que é possível salvar-se do desespero humano. Mas muita coisa também acontece antes da palavra. Estamos aqui conversando, nos olhando, existe uma empatia. Tem muita coisa acontecendo antes de a palavra vir.
E quando rola um silêncio?
O silêncio faz parte. Muitas vezes é difícil, mas é necessário. A gente precisa suportar o silêncio.
Existe um paradoxo: ao mesmo tempo que a palavra é salvadora, às vezes a gente apressa a palavra para se livrar do sentimento. O silêncio é o momento em que convivemos com uma dor, com uma tristeza, até conseguir elaborar.
Só que parece cada vez mais difícil fazer isso hoje...
Esse é um dos pontos fundamentais do mal-estar da contemporaneidade. Essa necessidade de saber, de dizer, de postar nos tira o tempo de conviver com a gente mesmo.
Nós somos seres que precisam de tempo. Tempo para olhar, para pensar, para elaborar. Hoje há uma cobrança de resposta que nos faz correr como se pudéssemos dar conta. E não estamos dando.
As redes sociais pioram essa busca por uma vida perfeita?
Desde cedo, a gente idealiza. Nós próprios chegamos ao mundo idealizados pelos nossos pais, como aquela criança que vai ser genial, que vai fazer tudo aquilo que eles não fizeram.
Somos filhos de um ideal, e isso tem um poder depressivo enorme, porque aquilo que conseguimos fazer é muito pouco diante dele.
A rede social é a casa dos ideais. Ela oferece um mundo que não existe na realidade: todo mundo é feliz, todo mundo está bem. Só que não é assim na nossa pele, no nosso corpo, no nosso dia a dia. Isso cria um mal-estar enorme.
Apesar de estarmos tão conectados, estamos mais sozinhos?
Eu penso que sim. Minha filha tem 23 anos e, depois de algumas desilusões amorosas, começou a perguntar para a inteligência artificial. A IA dava palpites: esse aqui não é legal, esse aqui pode ser.
Fiz um poema sobre alguém que buscava respostas para suas questões amorosas na IA. O poema dizia que ela não poderia dar aquelas respostas porque seria necessária uma pessoa. Colocamos o próprio poema na IA, e ela respondeu que o poeta tinha razão. Disse que poderia dar respostas interessantes, mas não substituir alguém que estivesse junto para pensar aquela experiência.
Esse é o paradoxo. Estamos muito conectados, mas falta uma experiência mais viva. Nada substitui isso. Somos frutos de alguém que nos olhou, nos tocou, nos pegou, nos deu colo.
A máquina não dá colo.
Então a inteligência artificial é um risco?
É um risco e um benefício. Tudo depende de como vamos usar.
Se acharmos que ela pode substituir esses encontros que forjam quem somos, será catastrófico. E, se for usada sem ética ou cair em mãos tirânicas, pode ser uma das vias do fim da civilização.
Ao mesmo tempo, estamos discutindo isso. Então voltamos sempre ao mesmo caminho: o debate, a conversa, a palavra.
Depois de tantos anos no consultório, o que mais aprendeste com as pessoas?
Vou pelo primeiro que me vem à cabeça, e vem do Caetano Veloso: “De perto, ninguém é normal.”
Quando a gente chega perto do outro, percebe que essa anormalidade é humana. E isso me permitiu me relacionar muito melhor com a minha própria imperfeição — como ser humano, amigo, pai e escritor.
É bom buscar melhorar. Só precisamos aceitar que a perfeição nunca vai chegar.
Já aconteceu de tu não saber o que dizer para um paciente?
Todos os dias.
Quando encontramos alguém, essa pessoa nos traz uma página em branco. No primeiro momento, não sabemos o que dizer.
Há um conceito que vem do poeta John Keats, a “capacidade negativa”: a capacidade de conviver com aquilo que a gente não sabe. Preciso aguardar até que se construa alguma palavra.
A hora em que eu achar que sei e me precipitar para dizer, terminou o meu trabalho.
O que dirias para alguém que está passando por um momento muito difícil agora?
Que não desista de buscar o outro.
Nós nascemos dependendo de alguém e, de certa forma, esse outro continua nos salvando. Pode ser um amigo, um familiar ou algum serviço de atendimento.
A nossa vida é feita de altos e baixos. Às vezes a esperança se perde. É justamente nessa hora que precisamos procurar alguém para, quem sabe, conseguir nos relançar.
Colaborou: João Debiasi

