
Toda a potência da ancestralidade negra estará representada como jamais esteve na 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. Entre os dias 30 de outubro a 15 de novembro de 2026, o mais tradicional evento literário do Rio Grande do Sul terá como patrona a primeira mulher preta de sua história.
Heloisa Pires Lima teve o nome anunciado na manhã desta terça-feira (4), em coletiva de imprensa na Capital. Antes dela, Jeferson Tenório abriu caminho como o primeiro homem negro no patronato, em 2020.
A escolha de Heloisa merece mais do que aplausos: merece ser prestigiada e abraçada pelo público. Afinal, foram necessárias inacreditáveis sete décadas até que isso se tornasse possível. A Câmara Riograndense do Livro, responsável pelo feito, quita uma dívida histórica.
Porto-alegrense radicada em São Paulo, Heloisa tem currículo invejável. É formada em psicologia pela PUC-SP e em Ciências Sociais pela USP, onde também concluiu mestrado em Antropologia e doutorado em Antropologia Social. É, antes de tudo, uma educadora.
Como escritora, a sucessora de Martha Medeiros no patronato é autora de livros infantojuvenis como Histórias de Preta. Publicado em 1998 pela Companhia das Letrinhas, o trabalho tem o Guaíba ao fundo e aborda a construção da identidade de uma menina negra. Recebeu prêmios e distinções nacionais e internacionais e, inexplicavelmente, ainda é pouco conhecido entre nós.
Já era tempo de mudar isso.
Quem é a patrona
A escritora Heloisa Pires Lima tem a trajetória marcada pela literatura para crianças e jovens. Nascida em Porto Alegre, viveu até os nove anos entre os bairros Floresta e Passo d'Areia. Foi embora com lágrimas nos olhos (o pai trabalhava na Varig, e a família acabou transferida), mas nunca esqueceu as origens. Volta sempre que pode para ver os avós.
Com quase trinta obras publicadas, a nova patrona ganhou destaque nas escolas brasileiras com o livro Histórias de Preta, que recebeu os prêmios José Cabassa e Adolfo Aizen e foi selecionada para o Brazilian Book Magazine, publicação divulgada na Bologna Book Fair.
Mais recentemente, Heloisa lançou Livro tem língua?, pela Editora Passarinho, e Penteado, o meu e o do lado, pela PeraBook.
Além das produções literárias e acadêmicas, ela foi responsável pela criação do Selo Negro Edições, do Grupo Summus Editorial.
Diversidade também na programação
A 72ª Feira do Livro de Porto Alegre também revelou os primeiros nomes da programação.
Entre as presenças confirmadas está Eliane Potiguara, escritora, professora e ativista indígena brasileira, a primeira mulher indígena a publicar um livro no país e indicada ao projeto internacional Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz.
Outro destaque fica por conta de Bianca Santana, escritora, jornalista e ativista do movimento feminista de mulheres negras.
Também participam o sociólogo, escritor e ativista negro Jessé Souza, a escritora Aline Bei e Ana Maria Machado, ganhadora do prêmio Hans Christian Andersen o Nobel da Literatura infantil.
No âmbito internacional, estão a artista visual afegã Moshtari Hilal, o artista português Afonso Cruz e a romancista francesa Neige Sinno.
Ainda na agenda, foram oficializados a jornalista Milly Lacombe, o escritor Marcelino Freire e a escritora, dramaturga e ativista Cidinha da Silva, que participarão de encontros tanto na área adulta, com bate-papo e autógrafos, como com estudantes do Ensino Médio.




