Quem não se lembra dele nas novelas Vamp e Que Rei Sou Eu?. O ator gaúcho Marcos Breda (que também é diretor, dublador, locutor, astrólogo e pai do Jonas e do Daniel) é o convidado do Paralelas desta semana.
Falamos sobre os 45 anos de carreira dele, o acidente que quase tirou sua vida em 2022 e muito mais.
Marcos esteve em Porto Alegre para participar do projeto Jornada Caio Quintessencial – As Múltiplas Faces de Caio Fernando Abreu, que segue até 12 de setembro. O escritor morto há 30 anos foi amigo pessoal do ator.
A seguir, confirma um trechinho da entrevista, que você pode ver completa no YouTube de GZH e no Spotify. O programa tem novos episódios toda sexta-feira no início da tarde, Segue lá!

São mais de 30 anos vivendo no Rio, mas o RS não sai de ti?
Nasci em Porto Alegre em 1960 e morei aqui meus primeiros 25 anos. Aí me mudei para o Rio e estou lá há 39. Meus dois filhos, Jonas e Daniel, são cariocas. Mas, para mim, qualquer álibi é um bom álibi para voltar a Porto Alegre, porque gosto muito daqui. Tenho amigos, familiares e muitas referências aqui. Nunca consegui torcer para outro time que não fosse o Internacional. Assisto aos jogos e acompanho pela Rádio Gaúcha.
E tua carreira como ator começou em Porto Alegre.
Sim, trabalhei aqui até 1986. A Globo tinha vindo gravar O Tempo e o Vento em 1984, com direção do Paulo José, e eu fiz a parte da Ana Terra. Eu era o irmão da Glória Pires. Depois, me mudei para São Paulo, fiz o filme Feliz Ano Velho e fui para o Rio em 1987 para fazer uma novela.

Foi a partir de Feliz Ano Velho que tua carreira explodiu?
Foi um divisor de águas, uma mudança de rumo. Naquela época, a distância entre Porto Alegre e o eixo Rio-São Paulo era ainda maior do que é hoje. De repente, eu estava lá, fazendo um filme com pessoas como Eva Wilma e Marco Nanini, que eu só conhecia da TV. Foi maravilhoso. Depois, fui para o Rio fazer uma novela na Manchete e logo em seguida fiz Mandala, na Globo.
Um ícone da teledramaturgia brasileira, né?
E era uma época muito diferente, porque como não tinha internet nem TV a cabo. A única coisa que tinha era a televisão aberta, e a Globo era absoluta. Me lembro direitinho: comecei a gravar a novela das oito e, na noite em que meu personagem apareceu, entrei uma pessoa em casa e saí outra. Do nada, na rua, todo mundo passa a te reconhecer e você dá autógrafo. Eu falei “meu Deus, que coisa louca isso!”. Aí as coisas foram acontecendo. Que Rei Sou Eu? veio logo depois.
Outro grande sucesso. Como foi participar?
Foi muito louco e muito legal. Era uma novela de capa e espada, a primeira gravada no Projac. Não tinha estúdio, era só um matagal. Tinha o castelo e a vila de Avilã, onde se passava a trama. O Brasil parou na última semana da novela. Esses dias fui assistir um trecho no Globoplay com os meus filhos e eles disseram “pô, pai, tu era mó cabeludo!” (risos).

Sofreste um acidente muito grave em 2022. Como foi?
Quase morri. Estava gravando novela na Record e saí do estúdio. Era sexta-feira à noite. Saí de moto e peguei o caminho de casa. Naquele dia, tinham instalado um novo quebra-molas, que não estava sinalizado. No escuro e com os faróis dos carros na direção contrária, eu não vi. Dei um mortal. Caí, a moto caiu em cima, estilhaçou minha perna, arrebentou ligamento de clavícula, trincou costela. Tive sorte, porque um dos fragmentos de osso ficou a menos de um centímetro da artéria femoral.

O que passou na cabeça naquele momento?
Não cheguei a apagar, fiquei muito zonzo. A dor era lancinante. Fiquei uma hora deitado no asfalto, esperando chegar a ambulância (...) Lembro de uma coisa que me deixou intrigado. Quando veio aquela dor insuportável (no momento do socorro o médico teve de fazer um procedimento), tive a impressão de estar ouvindo minha própria voz sussurrando no meu ouvido: “Agora chega, né? Vamos embora, isso não é digno, não é humano”. Durou meio segundo, mas, dentro de mim, foi muito tempo. Logo depois, trinquei os dentes e pensei: “Nem a pau, tenho muita coisa para fazer ainda”. Aí fiz uma, duas, três cinco, sete, nove cirurgias. E ainda farei a décima. A vida recomeçou e nunca parei de trabalhar.
Tu estás com 65 anos. Sofre com etarismo?
O etarismo acontece na minha área como acontece em todas. Demonstra a estrutura de equívocos que a gente nutre enquanto sociedade. Velho é o jovem que sobreviveu, que deu certo. A Dercy Gonçalves dizia que fazer 80 era uma merda, mas a alternativa era péssima.


