Ela ganhou fama internacional ao estrelar o filme O Segredo dos Seus Olhos, vencedor do Oscar em 2010. Mas a atriz e cantora argentina Soledad Villamil tem uma carreira muito mais ampla e múltipla, e não só nas telonas: é destaque no teatro, no streaming (com a recente Cilada, fenômeno de audiência na Netflix) e também na música. Ela está em Porto Alegre como o grande nome do Festival de Inverno, evento cultural gratuito que retorna aos holofotes em sua 11ª edição, após um hiato de oito anos.
Na manhã desta terça-feira (21), tive a honra e a alegria de conduzir uma entrevista pública com Soledad. Foi um bate-papo descontraído (com direito a cantoria e tudo!) no auditório da Unimed Federação, uma das apoiadoras do evento promovido pela prefeitura. Soledad é uma mulher que vive da arte e pela arte e merece ser ouvida.
O festival segue até sábado no Centro Municipal de Cultura com uma série de atividades, todas com entrada franca (veja aqui). Soledad estará em mais um encontro, no Teatro Renascença, ao lado do professor Sergius Gonzaga, a partir das 19h30min desta terça-feira (21). É só chegar!
Leia a seguir alguns trechos da conversa.
Como é voltar ao Rio Grande do Sul?
Porto Alegre e o Rio Grande do Sul têm um imã que me traz sempre para cá. Vim várias vezes para o Porto Alegre em Cena, para o Festival de Inverno, para filmar com Paulo (o cineasta gaúcho Paulo Nascimento, no filme "Teu Mundo Não Cabe nos Meus Olhos", de 2018), vim a Gramado. Guardo o Kikito de Cristal em um lugar muito especial, assim como esse festival de cinema. O vínculo é muito forte. Há muita afinidade entre a cultura argentina e a gaúcha. Me sinto em casa.
Como está a situação na Argentina hoje?
Mal. Estamos em uma grande crise econômica, outra crise. A situação está muito difícil. O governo fez um ajuste muito grande sobre os salários e as pensões. É um governo que vinha prometendo muito, como sempre fazem os governos, e que depois não cumpriu. Prometeu honestidade e é super corrupto. Prometeu ordenar a economia sem que o ajuste recaísse sobre a população, mas fez o ajuste sobre o povo. E o que é mais angustiante, ao menos para mim, é o desprezo enorme pela cultura, pelo teatro, pelos livros. Agora mesmo querem derrubar uma lei que protege as pequenas livrarias de bairro, que são a essência da cultura literária argentina. É um momento péssimo.
Como a grande atriz que é, você poderia estar vivendo em qualquer lugar do mundo. Poderia estar nos Estados Unidos, na Europa... Por que você permanece na Argentina?
Porque eu gosto de sofrer (risos). É complexo. Eu tive a possibilidade de viver em Madri, estive trabalhando bastante tempo lá e havia essa possibilidade, mas eu nunca duvidei de que meu lugar era a Argentina. Eu adoro sair, fazer projetos fora, mas realmente me sinto em casa na Argentina, trabalhando com equipes argentinas, com autores argentinos. É algo que me estimula, que me dá felicidade. A série Atrapados (Cilada, grande sucesso na Netflix), nós gravamos em Bariloche, na Patagônia, com uma produção enorme. Foi um grande orgulho, que tem a ver com contar histórias locais. Isso continua me apaixonando.

Uma questão identidade.
Identidade, sim. O valor da identidade e da diversidade, porque quando você conta uma história do ponto de vista de um lugar, você injeta diversidade no mundo. Você põe o seu grão de diversidade. E assim deixamos de ser um mercado homogêneo, todo igual, todo plano. Acho que o mundo precisa de diversidade.
Humberto Eco certa vez disse que a internet e as redes sociais deram voz aos imbecis. Qual é a tua opinião?
É um tema muito complexo, não sou especialista, mas estou de acordo com Eco. O quanto de novo há na tecnologia, que tem essa imagem de futuro e de algo que desconhecemos? Quanto de novo há nisso e quanto de velho, no sentido de expor velhas maneiras de nos expressar? Velhas no sentido de torpes. Estamos todo o tempo dizendo coisas que não sentimos, em tormentas anímicas internas. Aí nos encontramos com o outro e ficamos mudos. Essa dificuldade e essa torpeza nos vínculos, com nossos filhos, com nossos parceiros, com nossos amigos, estão aí. Estamos nos hiper desenvolvendo tecnologicamente, mas, no mais básico da vida real, estamos no jardim de infância.
Você tem haters?
Sim, estou no Instagram (risos).
E como lida com eles? Eles te xingam?
Não, não chega a ser assim, mas sinto que as redes amplificam a torpeza de que falei antes. Todos queremos ter razão, nós estamos do lado do bem e o outro está do lado do mal. Não estamos conseguindo ver a nossa própria complexidade, as nossas próprias dificuldades. E, bem, acho que as redes não fazem mais do que amplificar isso, cada vez com maior eficiência.
A inteligência artificial te assusta?
Sim, mas eu tento trabalhar para que não, porque sinto que o susto é uma reação ao desconhecido. Somos como animaizinhos de repente assustados por uma nova situação que seguramente terá um desdobramento, ao qual iremos nos adaptando como seres humanos. Mas, sim, me assusta. Penso muito no que vai acontecer com os nossos trabalhos, com a nossa atividade. Acho que temos que nos tornar cada vez mais criativos e usar a inteligência artificial a nosso favor, com consciência humana. Não podemos nos deixar levar pela torrente tecnológica fria e desumanizada.
O que você gostaria de fazer na sua carreira que ainda não fez?
Dirigir é algo que tenho em vista. Dirigir teatro. E cada vez me envolvo mais nos projetos, pensando a partir deste lugar.
O que a arte significa para você?
Acredito que a arte e a criatividade são uma forma de estar no mundo, de observar o mundo e de se relacionar com ele e com a vida em geral. A arte é essa coisa intangível, que corre dentro da alma humana, a alma, o pensamento, como quisermos chamar, as emoções, e tem grande valor para mim, especialmente nestes tempos de "inutilidade", entre muitas aspas, porque em tempos tão materialistas, tão... Se não trouxer nenhum benefício, por que eu o faria? Ou por que estudaria isso e dedicaria tanto tempo a algo cujo impacto material desconheço? Qual o sentido? Precisamente, não faz sentido até que faça perfeito sentido, porque essa forma de se conectar com a realidade, com a vida, com o mundo é a criatividade, é imaginar além do que se vê, além do que é apresentado. É ser capaz de ter uma ideia antes de torná-la realidade. É ser capaz de imaginar outros mundos, outras vidas. Sempre sinto, depois de tantos anos trabalhando não só como atriz, mas também como cantora, em filmes e no teatro, que gosto de contar histórias.
És uma contadora de histórias.
Sou uma contadora de histórias de diferentes maneiras, porque acredito que é exatamente isso que a arte é: ser capaz de transcender a realidade cotidiana, muitas vezes cinzenta, triste e frustrante em que vivemos e acessar outros mundos. É uma definição simples, mas arte é uma palavra enorme. Acho que ela salvou minha vida. Me deu a possibilidade de me conectar com a vida de uma forma mais criativa, mais imaginativa, onde as possibilidades são múltiplas, onde sempre surgem perguntas, onde nunca há respostas definitivas.






