Baterista desde os três anos de idade, em Porto Alegre, Nicolly Demeneghe, a Nico, foi a primeira brasileira a tocar o instrumento no Coachella, um dos maiores e mais influentes festivais de música do mundo, na Califórnia (EUA). Ela subiu ao palco com outra gaúcha de respeito, Luísa Sonza, e fez história.
Nascida e criada na zona sul da capital gaúcha, Nico é um fenômeno das baquetas. Atualmente, ocupa o posto na banda da cantora Pitty, a quem define como "um exemplo".
Nico é a entrevistada do Paralelas desta semana.
O programa tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.

Como começou tua ligação com a música?
Eu estudava em uma Escola Municipal Monte Cristo, na zona sul de Porto Alegre, onde tinha aula de música. Minha primeira professora era a Maria Helenita. Ela ensinava a musicalização infantil e, toda vez que me via, dizia assim: "Guriazinha, tu tens de tocar", e eu falava que já tocava na igreja (Nico começou tocando na Igreja Quadrangular com o pai e o irmão), eu tocava de tudo, mas ela queria que eu aparecesse. Aí surgiu um edital para a Orquestra Jovem do RS, e ela me inscreveu. Eu tinha nove anos e entrei como pianista. Aprendi muito lá.
Como a Pitty te descobriu?
Confesso que às vezes nem eu sei (risos). Diz ela que foi uma coisa quase que sobrenatural, que ela estava em busca de um baterista e queria sair do óbvio. Alguém me indicou, e ela viu um vídeo meu. Realmente foi uma coisa surpreendente.
Ela te ligou? Como foi?
Eu estava no shopping, em São Paulo. Aí, recebo um Whats assim: “E aí, Nico, beleza? Aqui é a Pitty!” Comecei a rir e pensei: “Não é possível!” Aí ela mandou mais uma mensagem perguntando se eu tinha um tempinho para falar. Fiquei acocorada no chão, perto de um café, porque não tinha forças, não sabia se ria, se chorava, ninguém estava entendendo nada em volta.

Nessa época, ela já era um fenômeno do rock nacional?
Sim, com a turnê do álbum Admirável Chip Novo. Ela disse que estava precisando de uma baterista para encerrar a turnê e queria que fosse eu. Perguntei o que eu tinha de fazer, e ela falou assim: “Vamos tocar?” Foi muito louco, porque parecia que a gente já era amiga. E ela veio do hardcore, né? Isso é algo muito simbólico, porque também foi o meu começo. Às vezes, tinha só eu de mulher nos shows.
Única mulher nos shows?
Tinha muita mulher na plateia, mas não tinha nas bandas. E foi simbólico ouvir da Pitty que ela também começou nesse lugar. Ela me falou dos perrengues que passou, de ter de dizer “eu sou da banda, cara!”. Eu mesma tive de falar várias vezes que era baterista.
O que significa estar ao lado dessa mulher no palco? Alguém que abriu caminho para outras mulheres?
Essa pergunta sempre passa pela minha cabeça, e eu comecei a reconhecer que mereço, sabe? Eu mereço estar ali, ao lado de uma mulher que é muito importante para todas as gerações possíveis. Tem criança que vai ao show querendo ser igual a ela. É muito poderoso poder dividir palco com uma mulher que bateu no peito lá atrás e falou “Vai ser assim, eu vou cantar isso aqui”. Ah, mas a gravadora não quer. “Mas eu vou cantar, eu vou tocar, eu vou dançar desse jeito e não vai ter ninguém que vai me parar”.
Ela é poderosa.
Eu pego muito isso para mim também. Se a Pitty fez e continua inspirando uma galera, eu posso fazer igual. A gente não pode se deixar apagar pelos outros. “Ah, mas não te reconheço como baterista”. Cara, em algum momento tu vai me reconhecer. Eu não tenho que me diminuir ou me apagar por isso. Estar no palco com a Pitty me traz força.
E não foi fácil, né?
Não, não foi simples sair da igreja, onde comecei a tocar. Não foi simples entrar numa banda de hardcore. Eu também tive de ter muita coragem. Em vários shows, senti vergonha de estar naquele lugar, porque ficava pensando o que o cara ali iria achar.
Aí, além da Pitty, vem a Luísa Sonza e te chama. Como foi ser a primeira baterista brasileira a tocar no Coachella?
Foi incrível. A produtora da Luísa viu um vídeo meu tocando com a Pitty e fez contato. Ela disse que a Luísa tinha sido chamada para fazer uns shows, que estava procurando uma banda nova e que tinha gostado muito do meu trabalho. Só depois descobri que era para o Coachella.

Como foi tocar com a Luísa?
Ela estava muito emocionada porque foi a primeira vez que montou uma banda só de mulheres. Foi intenso. A gente ensaiou muito, porque era uma preparação internacional, né? Não era qualquer festival. É um festival com bandas de todos os países do mundo. Raramente tem brasileiros. Acho que as únicas brasileiras que tocaram lá foram Anitta, Ludmilla e a Pabllo Vittar.
E subir naquele palco?
Foi inesquecível e muito emocionante.




