A entrevistada da semana no Paralelas é a arquiteta Aline Fuhrmeister, de Porto Alegre.
Aline tem um mantra: levar a arquitetura aonde ela não chega.
Para isso, a porto-alegrense criou, há 10 anos, um projeto chamado DU99, que reforma lugares como escolas, locais públicos e instituições sociais em um dia, a partir de doações e trabalho voluntário. A turma já transformou, em oito horas, até mesmo uma delegacia de polícia e um espaço chamado Beco do Medo, em Porto Alegre.
O programa tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.

Como começou essa história de reformar lugares, de forma voluntária?
Em dado momento, comecei a me sentir muito incomodada com a destinação dos resíduos das obras. Muitas vezes, esses produtos são mal descartados. Além da questão ambiental, tem gente que passa uma vida inteira sem um banheiro, então essa conta não fechava.
Isso te angustiava?
Me dava angústia ver todo aquele material sendo descartado. Acontecia em todas as obras e, detalhe, continua acontecendo com quase todo mundo. Esse foi o começo da DU99. Eu sempre tive um pé no voluntariado. Sempre quis fazer alguma coisa para o lado social. E aí eu comecei assim, usando as sobras das obras dos meus clientes.
E como foi a primeira ação?
Sugeri para eles: “Vamos encontrar uma pessoa que precise. Eu faço um projeto sem custo. A gente pega o que sobrar da tua obra, leva lá e faz.” Começamos com uma reforma para uma funcionária de uma cliente. Era uma casinha bem simples, em Camaquã.
E depois?
Depois foi uma escola aqui em Porto Alegre, Escola a Famello, no 4º Distrito de Porto Alegre.. Eu botei nas minhas redes sociais assim: “Pessoal, juntei um material das minhas obras, vou pintar essa escola, Quando cheguei lá de manhã, tinha 50 pessoas que eu nunca tinha visto na vida me esperando para pintar junto.
Que incrível!
Eu olhei e disse: “Puxa, tem alguma coisa aqui.”
Tem mais gente com a mesma angústia?
Tem muita gente que quer fazer o bem e não sabe como. Essas coisas não são mostradas, né? Notícia ruim vai rápido, mas notícia boa não vende tanto, então é um esforço que a gente tem de fazer. Por outro lado, tem muita gente querendo fazer o bem e não sabe como, e o que a gente faz tem impacto imediato. Tu vê o fim. Quando tu doa R$ 100, tu não vê no que esse dinheiro foi investido. Quando tu participa de uma ação e tu vê o lugar transformado, tu vê o antes e o depois, em oito horas, isso é muito diferente, isso mobiliza mais as pessoas, dá confiabilidade, credibilidade. São elas que fazem a entrega acontecer.
Por que DU99?
Tenho origem alemã. Meu sobrenome é difícil, então meu escritório se chama Du Arquitetura Estratégica. Du é tu em alemão. Sempre pensei em fazer pelo outro, para o outro. A DU99 é o braço social do meu escritório, porque eu queria usar as sobras das obras. O 99 é de 99%. Vi uma pesquisa segundo a qual só 1% da população mundial tem acesso a um profissional da arquitetura. Decidi que meu propósito de vida seria levar a arquitetura para os 99% restantes.
Meta ousada...
É ousada. Aqui no Brasil, para você ter uma ideia, apenas 4% da população contrata um arquiteto.
Quem quiser participar das ações, como faz?
Se inscreve no nosso site, que é du99.com.br. Ali tem uma aba que diz “quero ser voluntário”. Entra ali, se inscreve e, na inscrição, tem um link para o nosso grupo de WhatsApp, que é apenas informativo, sem pânico (risos). Ali a gente informa as datas das próximas ações. Empresários e empresárias também podem fazer parte, doando produtos ou patrocinando ações.




