Presidente da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul (Cors), o tenor Flávio Leite completa 25 anos de carreira, com um currículo e tanto: 65 papéis encenados em oito idiomas, além de dezenas de espetáculos dirigidos e, é claro, da liderança à frente de um projeto que já virou patrimônio gaúcho.
Ao lado de um grupo de cantores e cantoras gaúchos, ele criou a Cors e o projeto Ópera e Formação, que tem o apoio da Secretaria de Estado da Cultura, contribuindo para a popularização do repertório operístico no sul do Brasil, com teatros lotados, 25 óperas montadas e mais de 1,5 mil postos de trabalho gerados.
Flávio é o entrevistado da semana do Paralelas. O programa tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.

Por que tem gente que tem “medo” de ópera?
A gente normalmente tem medo do desconhecido, né? Na verdade, ópera é uma expressão artística das mais humanas.
O que é a ópera?
É um espetáculo de teatro musicado, com canto, teatro, dança e música. Normalmente, é uma grande produção, com muitos e muitos profissionais. A orquestra fica no fosso, embaixo do palco. Em cima, os cantores líricos interpretam a história de uma partitura, que pode ser de um compositor histórico ou atual.
A Broadway vem da ópera?
Sim. Os primeiros musicais eram cantados por cantores líricos, sem microfonação. Isso é o que mais impressiona na ópera. O cantor está em cima de uma orquestra de 80 músicos, e ele é ouvido pelo teatro inteiro.
No gogó, sem microfone?
Exato. Isso exerce um fascínio muito grande sobre o público.
Como surgiu a ópera?
A ópera surgiu na Itália, em Florença, na Camerata Fiorentina. O que era isso? Era um grupo de músicos que resolveu fazer experimentações em 1597, lá no século 16, e voltar à forma artística do teatro grego, que era cantado. Isso foi ganhando proporção e virou essa forma de arte.

A ópera é elitista?
Não, absolutamente. A ópera foi elitista no passado, no século 19 e início do 20, quando as pessoas iam ao teatro para ver e ser vistas, arrumadas, os homens de smoking, as mulheres de longo, usando jóias. Hoje, a gente vai de bermuda e camiseta. O teatro é um lugar público. E é para o público que a gente trabalha. Os ingressos custam menos do que um show, do que uma sessão de cinema. Além disso, hoje todas as óperas são legendadas. Todos entendem. É como ver um filme, só que ao vivo.
Muita gente acha que cultura é item supérfluo, é "perfumaria". Qual é o impacto da ópera na economia?
Sabe quantos postos de trabalho foram criados pela Companhia de Ópera do RS só em 2025? Mais de 1,5 mil. Existe uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas e da Fundação Cultural Itaú que diz o seguinte: a cada R$ 1 investido em cultura, retornam ao mercado e aos cofres públicos R$ 7,50. A economia criativa movimenta um volume inacreditável de recursos.
Como nasceu a Companhia de Ópera do RS?
A Cors surgiu de uma reflexão que eu e a Eiko Senda, soprano japonesa que vive no Brasil e veio ao Estado, fizemos quando estávamos voltando de uma das edições do Festival Internacional Sesc de Música, de Pelotas. Tinha uma turma de cantores líricos extraordinária lá, eram alunos. Eles eram bárbaros, mas onde iriam trabalhar? Aí veio a ideia: por que a gente não faz uma companhia no RS, para movimentar o setor, criar mais espetáculos, gerar oportunidades?
E essa ideia maluca deu certo...
Depois da pandemia, alugamos o Theatro São Pedro, montamos um espetáculo e foi um sucesso monumental. Vendemos cadeiras extras! Quando a nossa mestre de cerimônias, a querida Laura de Souza, soprano gaúcha já falecida, anunciou a criação da companhia, o teatro veio abaixo como se fosse final da Copa do Mundo, e a gente ainda não tinha nem sequer cantado. O que isso nos fez perceber? Que existia uma demanda gigantesca por espetáculos líricos aqui. O público nos acolheu 100%.

Foram 25 espetáculos montados desde então, com a ousadia de fazer uma ópera sobre Jayme Caetano Braun, unindo o popular e o erudito. Foi uma forma de quebrar barreiras?
Exatamente. A ópera é uma forma de arte muito viva, ao contrário da fala infeliz do Chalamet (ator Timothée Chalamet, que causou polêmica ao dizer em entrevista que “ninguém mais liga para ópera e balé”). Não trata só de temas antigos. Eu queria muito que a gente fizesse uma ópera sobre uma figura do nosso regionalismo, da nossa música nativista, mas que não fosse algo caricato. Foi uma grande homenagem e uma reflexão contemporânea sobre essa nossa cultura.






