Já imaginou correr 90 minutos em um jogo de futebol, com três quilos a mais sobre o corpo? Era o que acontecia com os jogadores da Seleção Brasileira na época em que as camisetas oficiais eram feitas de algodão — tecido conhecido por absorver o suor.
Isso mudou. O manto oficial do time de Ancelotti na Copa do Mundo 2026 representa o que há de mais atual e tecnológico no mercado têxtil.
Professora do curso de Moda da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e doutora em Design e Tecnologia, Tatiana Laschuk estudou as transformações e vem postando vídeos didáticos nas redes sociais sobre o tema. Ela também é especialista em moda sustentável, criadora de conteúdo na Fratelli Ricci Brasil, coordenadora do projeto Artesanato de Fibra RS e consultora do Sebrae-RS.
A coluna foi atrás para saber mais.
O que mudou, em termos de tecnologia, nas camisetas oficiais da Seleção Brasileira?
Mudou bastante. No passado, as camisetas eram feitas de algodão, um tecido hidrófilo, altamente absorvente. Em média, um jogador corre 10 quilômetros por jogo e perde em torno de três litros de suor. As antigas camisas absorviam tudo. Era como se os jogadores corressem com três quilos a mais sobre o corpo. A camiseta não dissipava o suor. O poliéster , que seria a virada de chave, só apareceu no fim da década de 1990.
Mas, no início, o poliéster também não era como hoje, né?
Não, no início, as camisetas de poliéster pareciam sacos plásticos. Não absorviam o suor como o algodão, mas também tinham dificuldade de dissipá-lo, o que acabava abafando o corpo dos jogadores. Hoje é diferente.
Como é hoje?
A camisa de uma seleção é basicamente um laboratório vestível. O grande segredo é o "moisture wicking", uma tecnologia de transporte de umidade que trabalha a física e a química dos tecidos, com fibras hidrofóbicas, que não absorvem água, e que têm microcanais que ajudam a drenar o suor para fora da camiseta . É como se tivesse uma espécie de ar condicionado embutido . Também entraram inovações químicas para prevenir o aparecimento de bactérias e evitar o mau cheiro, entre outras coisas.

E em termos de sustentabilidade?
Em termos de sustentabilidade, o tecido também evoluiu bastante. Antes, as camisas vinham de garrafa PET, agora são feitas de resíduos, a partir da reciclagem de tecidos. E é interessante observar que, ao longo da história, eventos como a Copa e as Olimpíadas sempre trouxeram as principais inovações.
Esteticamente, melhorou ou piorou?
Neste ano, houve toda aquela polêmica do "Vai Brasa" (a expressão foi estampada no uniforme, mas gerou rejeição de torcedores, por alterar a identidade da camiseta, o que fez a CBF vetar o uso da frase). Acho que se preocuparam muito com essa questão da frase e não focaram na camisa em si. Vejo o atual modelo como bem resolvido e equilibrado. É o clássico, não tem muito como fugir disso. Quando se foge demais, como fez o Ricardo Almeida com os uniformes de viagem da Seleção (o estilista criou peças em tom acinzentado que foram comparadas pelos críticas a "pijamas"), corre-se o risco de perder essa identidade.
Apesar das novidades, muita gente ainda prefere torcer usando camisetas vintage, né? O que explica isso?
Acho que o principal motivo por trás disso são as boas lembranças. Faz 24 anos que a Seleção não vence uma Copa. Usar uma camiseta vintage remete aos antigos títulos e a um tempo em que as pessoas sentiam mais dedicação dos jogadores. É uma questão afetiva, de retorno a um futebol original.

