Duca Leindecker é craque em transformar poesia em música. Em 40 anos de carreira, ele foi muito além do rock gaúcho (com a banda Cidadão Quem) e segue fazendo canções que marcam gerações.
Inquieto e disposto a brigar contra os algoritmos e a lógica insana das redes sociais, Duca acaba de lançar um novo trabalho e prepara um showzaço no dia 12 de junho em Porto Alegre (leia mais no fim do texto).
Ele é o convidado da semana no Paralelas. Falamos sobre o show, mas também sobre histórias da carreira, tecnologia, amor, paternidade e muito mais.
O programa tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.

De onde vem tua inspiração?
Sempre gostei de construir coisas. Quando era criança, tinha uma madeireira no caminho de casa até a escola. Eu enchia nosso apartamento de madeira. Minha mãe ficava louca comigo. Hoje, trabalho com marcenaria também, e a música é um pouco isso: é construir coisas, construir histórias e melodias. A criação, para mim, sempre foi muito importante. Passei por coisas traumáticas. Meu pai morreu quando eu tinha 8 anos. Ele teve um câncer fulminante. Encontrei na música um caminho terapêutico e de sobrevivência.
Essa situação te fez amadurecer mais cedo?
A vida fez eu amadurecer mais cedo. A vida me deu esses desafios, que depois foram acontecendo de novo. Tenho uma história de muitas perdas. Na banda Cidadão Quem, o Cau (Hafner, baterista) morreu, o Luciano (irmão de Duca, baixista) morreu...
Como lidar com isso?
Acho que é uma coisa de cada um. Eu faço a escolha de transformar todas as coisas ruins, trágicas e tristes que acontecem em algo bom.
Talvez isso explique a conexão com o público, porque tu falas de temas universais, não?
Sou um cara otimista. Tenho uma visão otimista da vida, então, mesmo quando falo de coisas muito tristes, eu canto assim: “Minhas lágrimas não caem mais, eu já me transformei em pó, e os meus gritos não se escutam mais, estão na direção do sol.” Quer dizer, mesmo uma imagem muito triste de um cara que não tem mais lágrimas para chorar e que grita, o grito dele vai eternamente na direção de uma coisa luminosa. Eu sempre tento deixar uma ponta de esperança e de otimismo.
E o disco novo? Uma nova fase que se abre?
É importante renovar. Tento não me repetir, criar coisas novas. A dificuldade é que acabo tendo que competir comigo mesmo. Eu vejo nas plataformas que as pessoas, claro, estão acostumadas a escutar as músicas que já conhecem. Aí tu lanças um disco novo novo, e elas têm um pouco de preguiça.
O DVD dos 20 anos do acústico do Cidadão Quem tem mais de 30 milhões de reproduções, né?
As pessoas querem ouvir aquelas músicas, mas eu tento, nos shows, dar uma forçada (com as novas canções), só não demais, como fez o nosso amigo Fito Páez.
Como foi a polêmica com Fito?
Ele forçou a mão. Eu não gosto de fazer isso, porque sei que as pessoas que compram o ingresso para o meu show querem escutar Pinhal, Dia Especial... A música faz parte da vida delas. O Fito forçou a barra e fez o show na íntegra com o novo disco. O que aconteceu? As pessoas agora têm essa coisa: quando ficam um pouquinho entediadas, pegam o celular para matar o tédio. A imagem que viralizou é de milhares de pessoas no celular.
Muitos artistas estão criando músicas curtas para ir bem no TikTok. Você decidiu lançar uma de seis minutos. Está mesmo brigando com os algoritmos?
Tenho o privilégio de poder brigar, por estar com uma carreira consolidada. Tenho obrigação de brigar. Se eu não brigar, quem vai brigar? A arte não pode ser escrava dessas barreiras. O cara quer fazer música de 1m30s porque acredita nisso? Maravilha, mas não é meu caso. Eu tenho uma história para contar, que precisa desses seis minutos para ser contada. O mais importante na arte sempre foi a verdade, o compromisso verdadeiro com a obra. Eu tenho de ser fiel às coisas em que acredito, às coisas que eu vivo. A gurizada nova talvez já tenha a cabeça moldada nesses algoritmos, mas eu sou um cara velho na música.
Novo show

No dia 12 de junho, Dia dos Namorados, Duca Leindecker sobe no palco do Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, para apresentar a turnê Tudo que se Tem.
O novo trabalho chega sete anos após o último álbum de inéditas e foi gravado durante o período em que o artista viveu nos Estados Unidos.
As canções combinam a delicadeza do violão de nylon com a força do rock, mesclando guitarras, pianos, percussões, cordas e arranjos que ampliam a sonoridade. Entre as surpresas está a participação de seu filho Guilherme Leindecker, que estreia como baixista e compositor em “Fogo”, faixa na qual divide os vocais com o pai.
O disco também traz composições inéditas da parceria Gessinger & Leindecker, como “Calmo” e “De Volta pra Casa”. As gravações aconteceram no Mountainside Studio, em Charlottesville (VA), com a mixagem assinada pelo próprio Duca em seu novo estúdio, construído especialmente para a finalização deste trabalho.
O show começa às 21h do dia 12, e os ingressos (a partir de R$45) estão à venda no site uhuu.com, clianco aqui.






