
Há uma estirpe de pessoas com as quais escolhemos estar. Não temos esse poder em relação à família. Já nascemos filhos de alguém. Mas os amigos, ah, esses a gente pinça na multidão e traz para perto de si. Nós os escolhemos, eles nos escolhem. Via de mão dupla.
Às vezes, é só bater o olho. Noutras, o encanto não acontece de primeira. É amizade manhosa, que exige conversa, escuta e cortejo.
Tenho pensado nisso, porque voltei, em maio passado, de uma viagem de férias de 20 dias pela Europa com uma amiga da vida inteira. Nos conhecemos há 35 anos, desde os tempos de colégio. É uma das mulheres da minha vida (tenho orgulho de dizer isso).
Desde o romantismo do século 19, fomos levadas e levados a acreditar no ideal do amor romântico. Essa construção histórica e social nos fez crer que só seria feliz de verdade o(a) bem-aventurado(a) que encontrasse a “outra metade da laranja”.
Erramos desgraçadamente quando esquecemos que ter amigos é um outro jeito de amar, tão bonito e leve quanto único. E tão intenso quanto uma paixão carnal.
É curioso, mas muitas mulheres cresceram ouvindo a balela de que deveriam competir umas com as outras. Quanta bobagem. A amizade feminina é a descoberta do século.
Aos 47 anos recém-completos, posso afirmar sem pestanejar: feliz daquelas que têm amigas; sorte maior ainda das que as têm desde meninas. Vale o mesmo para você, meu caro leitor, que entende bem do que estou falando, tenho certeza.
Pois a minha amiga, aquela que mencionei ali de cima, um dia me disse:
— Vamos viajar de novo? Quando foi a última vez? Comprei a passagem, vem comigo. Vamos. Compra também.

Eu não tinha tempo, nem dinheiro sobrando, nem disposição. Tinha, isso sim, mil coisas para resolver. Pensei, pensei, pensei de novo. Quer saber? Fui.
Tempo é o ativo mais valioso desta era insana feita de vídeos curtos, áudios acelerados, músicas de 1m30s, comidas instantâneas e impaciência à flor da pele. Mas, quando a gente quer, a gente arranja minutos no relógio do celular. Eu precisava parar.
A viagem foi tudo, menos parada, no melhor sentido da coisa. Deixamos os maridos em casa (morrendo de inveja!) e caminhamos pelas ruas de Lyon, a cidade gastronômica da França. Provamos todas (ou quase todas!) as mostardas em Dijon, destino francês que o turismo de massa ainda não descobriu. Cruzamos a fronteira da Suíça, onde encontramos amigos e voamos as tranças nos Alpes e… dormimos juntas por 20 dias. Nem sei quando havíamos feito isso antes. Na adolescência, talvez?
O bom de ser amigo há tanto tempo é que você já sabe o que a pessoa está pensando, percebe quando ela acorda mal, intui o que ela quer fazer e adivinha onde gostaria de jantar.

Demos boas gargalhadas juntas, dividimos escargots, taças de vinho e poltronas de trens e provamos um mundaréu de coisas novas.
Amizade é isso: cumplicidade, honestidade e entrega. Com um amigo verdadeiro, você não precisa fingir ser quem não é. Não precisa fazer pose nem falar difícil, nem fazer de conta que conhece aquele livro do qual todo mundo está falando.
Você só precisa ser você, porque foi por isso mesmo que aquela pessoa tão importante (família por opção) te escolheu. E fim.




