A doutora Ana Maria Rossi dedica-se, há décadas, a estudar algo que a atormentou a vida inteira: o estresse.
À frente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), a psicóloga é a entrevistada da semana no Paralelas.
Falamos, claro, de estresse, ansiedade, burnout e outras aflições humanas, com dicas de como superar os problemas. O bate-papo também aborda o Congresso de Stress, que ocorre nesta terça (23) e quart-feira (24) no Plaza São Rafael, em Porto Alegre, com especialistas de diferentes partes do mundo (leia mais no fim da entrevista).
O programa tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.

Você começou a falar de estresse e burnout quando esses temas ainda não eram disseminados como hoje. Como foi isso?
Comecei em 1974, depois que me mudei para os EUA. Sempre fui uma pessoa muito estressada, muito ansiosa. Infelizmente, é parte do meu DNA Aprendi na dor a gerenciar meu estresse e a fazer com que a ansiedade trabalhasse a meu favor. Isso tem salvado a minha vida.
Teu estresse te levou a estudar o estresse?
Sim. Eu era jornalista numa época que não se podia escrever sobre nada. Então, me mudei para os EUA em 1972. Fui fazer mestrado em Comunicação de Massa na Florida State University, em Tallahassee. Lá, atingi o pico do estresse. Eu não conseguia dormir, tinha bruxismo. Era um horror. Fui consultar uma psiquiatra e ela me disse: “Vou te dar Valium.” Mas eu não queria tomar remédio. Ela falou: “Então sofre.” Aí, fiquei sabendo que a universidade estava começando um programa de gerenciamento de estresse com uso de biofeedback, com sensores que quantificam o nível de estresse da pessoa. Entrei como paciente, acabei trabalhando lá e me especializando na área. Então, quando um paciente me conta o que sente, eu sei o que é isso. Eu passei por isso. Hoje sei que o autocontrole é a coisa mais importante da minha vida.
Você não usa WhatsApp, evita as redes sociais... O que isso significa?
Temos duas opções, e eu resolvi ter o controle da minha vida. Por ser muito estressada, tenho alguns, digamos, rituais. Faço meditação, pratico yoga, sou caminhante...
E decidiu que não seria escrava do celular?
Exatamente.
O excesso de telas é uma das razões do estresse absurdo que a gente vive hoje?
Sim, mas não apenas isso. Atuo como psicóloga clínica e vejo meus pacientes se autocobrando muito. A autocobrança, mais do que as cobranças que recebemos, é devastadora, mas é possível aprender a gerenciar os pensamentos. Nós temos de praticar e aprender estratégias e técnicas que nos proporcionem ter um controle remoto mental. Esse pensamento está me devastando? Está me preocupando? Opa, hora de zapear. Se não conseguir tornar o pensamento positivo, então eu vou neutralizá-lo.
Como? Tem uma dica prática?
Começa focando na respiração. Mas não é no momento do sufoco que a gente pratica a respiração correta. As técnicas de gerenciamento do estresse não são band-aids. É preventivo. Às vezes, a pessoa diz “ah, mas eu estou super atarefado, não tenho tempo”. Não tem tempo para respirar?
Qual é a técnica?
É a respiração abdominal. É importante sentar com as costas retas e descruzar as pernas para ter apoio para os pés e as mãos. Aí, de preferência, inspira pelo nariz. Imagina que está enchendo um balão. O balão enche por baixo. Começa pelo abdômen, vai enchendo e depois solta.
É preciso fazer isso por quanto tempo, quantas vezes ao dia?
Sem relógio, sem pressão. Tu vais praticando até que, um dia, isso vai ser habitual.
Respirar dessa forma muda mesmo alguma coisa?
Totalmente. A respiração abdominal é a âncora de todas as estratégias de relaxamento, é autocontrole. Uma pessoa ansiosa, com a respiração curtinha, torácica, vai perpetuar a ansiedade. A pessoa não pode estar ansiosa e respirar com eficiência. São funções incompatíveis.
Congresso de Stress
Amanhã e quarta-feira, Porto Alegre recebe o 26º Congresso de Stress, promovido pela International Stress Management Association (Isma-BR), no Plaza São Rafael.
Haverá palestras, workshops, debates, minicursos e exposições. Um dos destaques é Marnie Dobson, diretora da Healthy Work Campaign (Campanha Trabalho Saudável).
As inscrições online já se encerraram, mas ainda é possível se inscrever no local. Mais informações no site ismabrasil.com.br.






