O jornalista Carlos Redel colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.
No Cais Mauá, Fernando Eiras ainda estava caracterizado como Mario Quintana enquanto contemplava o Guaíba, nitidamente emocionado. Esta cena ocorreu depois do segundo dia de filmagens de Minha Sombra Luminosa, longa-metragem que está sendo rodado em Porto Alegre.
A obra ficcionaliza a amizade entre o poeta e a fotógrafa Liane Neves, que na produção é vivida pela talentosa Klara Castanho. Na história, a jovem, aos 24 anos, foi incumbida de fotografar Quintana para uma homenagem aos seus 80. Só que ele não gostava de efemérides, o que dificultou — e muito — a missão da menina.
No total, serão 22 dias de filmagens na Capital, percorrendo diversos pontos que foram marcantes na vida de Quintana — incluindo, a Casa de Cultura (CCMQ), que hoje leva o seu nome, mas que foi o hotel em que o poeta viveu por vários anos.
Para o longa-metragem, que conta com uma equipe de 250 pessoas — entre trabalhadores diretos e indiretos —, vários pontos da cidade precisaram viajar no tempo, mais precisamente para 1986. Então, na CCMQ, por exemplo, carros antigos e figurantes com roupas da época estavam presentes.
E Eiras, que é 11 anos mais jovem que Quintana no período retratado, para encarnar o poeta, precisa passar por um longo processo de maquiagem:
— Chego no set duas horas antes de todo mundo. Primeiro, para fazer a barba. Depois, para raspar a cabeça, porque o cabelo cresce todo dia. E, então, tenho que colocar tudo isso (aponta para a maquiagem do rosto e a peruca). Essa pele não é minha, essa cabeça também não.
E quando questionado sobre como foi se ver no espelho pela primeira vez depois de caracterizado, Eiras conta:
— Eu não me vi. Parei de me ver. Comecei a vê-lo. Quando olhei para o espelho, vi o poeta. Mas isso deve, principalmente, ao trabalho dessa equipe de maquiagem maravilhosa, coordenada e criada por Johnny Left.
O ator carioca foi convidado pelo diretor e roteirista Tomás Fleck — também autor do livro Minha Sombra Luminosa — para viver Mario Quintana ainda em setembro do ano passado. E, desde então, Eiras, que tem uma carreira consolidada no teatro, considera que foi um "presente de primavera", mergulhando de cabeça na preparação para o personagem, que o fascina.
— O Mario escrevia sobre o mundo, um mundo invisível que o rodeava. Ele escrevia sobre o milagre da existência, sobre a capacidade que o ser humano tem de morrer um pouco a cada dia, mas de renascer, mesmo que fosse no escuro da noite mais sombria. Ele era um poeta — diz o artista.
A jovem amiga
O título do filme, Minha Sombra Luminosa, refere-se a como Quintana chamava a jovem fotógrafa Liane Neves, com quem fez uma improvável amizade. Klara Castanho, aos 25 anos, conta que, mesmo tendo nascido depois do falecimento do poeta, viu a sua influência em muitos lugares.
— Acho muito louco que, antes de me aprofundar no mundo do Mario Quintana, tinha muitas coisas do poeta que eu não sabia que eram dele. Então, ver isso ganhar um rosto, entender quem foi a persona Mario Quintana, tem um gosto diferente. E a gente poder passar essa história para essa geração, para as próximas e para as anteriores, é muito especial — diz a atriz.
Para entrar neste universo, Klara explica que teve muitas trocas com Liane e que toda a equipe se uniu em prol do projeto. Mesmo com as filmagens ainda no início, garante que todos já estão orgulhosos do longa-metragem. Mas, claro, existem desafios: e o sotaque gaúcho é um deles.
— Acho muito legal que vocês falam que não têm sotaque, mas vocês têm muitíssimo sotaque (risos). — brinca Klara, que é paulista. — Desde que eu tenho 16, sou desafiada com sotaques diferentes. Fiz curso de prosódia, que me deu a base para que eu conseguisse mudar e andar por entre os sotaques. Então, estou respeitando muito, fazendo uma leitura muito cuidadosa. Mas a gente também está neutralizando o sotaque de todo mundo, mas o cantadinho de vocês eu estou fazendo (risos).
Minha Sombra Luminosa está sendo rodado em meio às comemorações dos 120 anos do poeta. A previsão de estreia é para 2027.





