Músico, compositor, arranjador, pesquisador, jornalista e escritor, Arthur de Faria é conhecido no meio cultural gaúcho por circular com desenvoltura em diferentes meios – sempre com produções de altíssima qualidade. Agora, ele chegou à ópera, a primeira de sua carreira.
Dia 26 de maio, no Memorial do Judiciário, estreia o espetáculo Escritos sobre um Brasil - Cartas de Mrs. Kindersley. Com entrada franca (leia os detalhes no fim do texto), a montagem leva a assinatura de Arthur e tem a parceria da Companhia de Ópera do RS (Cors) no projeto Terça Lírica.
— Tem duas coisas que eu sempre quis fazer: um balé e uma ópera. Agora vai ficar faltando só o balé — brinca o multiartista, líder do grupo Tum Toin Foin e autor da biografia musical de Porto Alegre, entre outros títulos.
Com curadoria de Flávio Leite, direção cênica de Áurea Batista e uma equipe de primeira linha, a obra traz a mezzosoprano gaúcha Cristine Guse no papel da britânica Jemima Kinderslay (1741–1809).
"Ela é uma figuraça"
Embora seja uma personagem ainda pouco conhecida entre nós, Mrs. Kinderslay escreveu os primeiros registros femininos a respeito do Brasil do século 18. Foi a única mulher viajante da época a botar no papel impressões sobre a colônia portuguesa nos trópicos, na forma de cartas.
Os escritos começaram a ser musicados por Arthur em 2017, para o espetáculo Selvageria, do coletivo Ultralíricos, de São Paulo, dirigido por Felipe Hirsch.
— Foi ali que conheci Mrs. Kinderslay. Ela é uma figuraça, e as observações que faz sobre o Brasil naquele período são impressionantes. Fiquei fascinado — conta Arthur.
A viajante veio parar em terras tupiniquins em 1764, acompanhando o marido, o oficial de carreira Nathaniel Kindersley, que seguiria para a Índia. Numa das escalas da longa travessia por mar (com um bebê recém-nascido), a família passou cerca de um mês na Bahia.
A aventura foi registrada em correspondências enviadas a uma pessoa próxima (amiga ou parente), que mais tarde (1777) viraram no livro – Letters from the island of Teneriffe, Brazil, the Cape of Good Hope, and the East Indies (algo como Cartas da ilha de Tenerife, do Brasil, do Cabo da Boa Esperança e das Índias Orientais).
Em sete delas, Mrs. Kinderslay narra a burocracia de entrada no Brasil Colônia e a constante vigilância por parte de um soldado português, que não permitia a interação com as damas portuguesas. Ela descreveu, também, as belezas tropicais sobre as quais tantos viajantes tratariam ao longo da história, sem deixar de fora críticas à administração colonial e à chaga da escravização.
E como tudo isso vira ópera? Arthur fez a mágica de transformar em partitura e canção cinco das sete cartas. Elas serão interpretadas em inglês (idioma original), com legendas, para facilitar o entendimento.
Doutora em Música e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Cristine será acompanhada pela pianista Mel Souza, expoente da nova geração de instrumentistas do RS.
Vai por mim: é um programaço (e é de graça).
Serviço
- O quê: Terça Lírica - Ópera Escritos sobre um Brasil - Cartas de Mrs. Kinderslay, de Arthur de Faria
- Quando: 26 de maio, terça-feira, às 19h
- Onde: no Auditório Oswaldo Stefanello do Palácio da Justiça do RS (Praça Mal. Deodoro, 55 - Centro Histórico, Porto Alegre)
- Quanto: entrada gratuita
Ficha técnica
- Direção musical, textos e narração: Arthur de Faria
- Direção cênica: Áurea Baptista
- Mrs. Jemima Kinderslay: Cristine Guse, mezzo-soprano
- Pianista: Mel Souza
- Assistente de direção: Valquíria Cardoso
- Iluminação: João Fraga
- Cenografia e figurinos: Teatro Ateliê
- Curadoria: Flávio Leite
- Produção: Bonella Produções
Vem aí
Depois de lançar os dois primeiros volumes de Porto Alegre: Uma Biografia Musical (Arquipélago Editorial), Arthur de Faria prepara mais um título da série — dessa vez, sobre o rock gaúcho. É a obra de uma vida, com mais de 35 anos de pesquisas.



