
Nascido e criado em Uruguaiana, Pirisca Grecco fundou a carreira nos festivais, levantando calhandras na Califórnia da Canção e mostrando um outro lado da música regional, mais diverso e multicultural.
Vanguarda do nativismo, Pirisca inovou também ao interpretar Jayme Caetano Braun na ópera.
Ele é o convidado da semana no Paralelas. O programa tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.
Veja a íntegra
A seguir, leia trechos da entrevista:
Tu te chamas Afonso, né? De onde vem o nome Pirisca?
Pirisca vem de pequeno. Eu era uma criança muito agitada, muito “espiriquetada”, dizia minha mãe. Ela me chamava de pispirica, piriscuete, sabe? Vem daí. Quando fui cantar no meu primeiro festival, perguntaram como deveriam me chamar no palco, e eu fui consultar a banda. Os guris disseram: “Tchê, bota Pirisca aí, ou tu vai colocar Afonso, decerto?” (risos) Aí passaram-se 30 anos e cá estou. Descobri há pouco que “pirisca” em Portugal quer dizer a bituca. Então, de certa forma, sou tocaio do Milton Nascimento.

Como é a tua história com os festivais nativistas? Estás gravando um disco sobre 25 anos de participação. Os festivais foram e seguem sendo fundamentais para revelar novos artistas e dar espaço à criatividade?
A Califórnia (da Canção Nativa), enquanto tinha linhas, incluindo uma linha livre, dava asas à criatividade. Com o fim das linhas, a estética acabou ficando parecida. Compositores novos chegam copiando uma fórmula que dá certo. Então a gente tem uma quantidade de novos cantores que se parecem com o Marenco, com o Joca, com o Nilton Ferreira, sabe? Antes, a gente tinha mais a espontaneidade. A gente pendeu para uma linha campeira que está ditando a estética atual dos festivais. Eu lamento um pouco, porque a gente já teve uma colcha de retalhos bem colorida e hoje está mais para um xergão da mesma lã.
Como vês o gauchismo hoje?
Dentro do gauchismo, tem o tradicionalismo e o nativismo, ao qual eu pertenço. Procuro me incluir no nativismo, porque o tradicionalismo está mais arraigado nas coisas escritas, nas pesquisas, nos estudos, nesse movimento forte que criou os CTGs. O nativismo nasce com a Califórnia da Canção, de uma forma mais espontânea. Tentando poetizar um pouco, vejo um galpão e uma árvore. O galpão é tradicional, ele foi construído há anos pelos ancestrais, mas aquela árvore nasceu ali.

Te identificas com a árvore...
Sim. O nativo tem a missão de rebrotar. O tradicional tem a missão de ser preservado. Corremos um risco grande do nosso tradicionalismo, amanhã ou depois, não ser mais folclore, porque, para ser folclore, tem de ser do povo. A gente não pode se encerrar em quatro paredes e colocar uma bota de R$ 2 mil, um lenço de R$ 300, uma boina de R$ 500 e chamar isso de folclore. Costumo citar o exemplo da ginasta Rebeca Andrade. Quando ela representou o Brasil, tocou o baile de favela. Quando a gente teve a Daiane dos Santos no mesmo patamar, ela não dançou o pezinho, o maçarico, o balaio. Será por que a Daiane não teve a oportunidade de entrar (no CTG), com um vestido de prenda pomposo?
Talvez já não precisemos mais disso, né?
Exato. Essa é a questão. O nosso tradicionalismo, às vezes, não é tão acessível.
O que Barbosa Lessa e Paixão Cortes imaginaram lá atrás talvez não seja o que a gente tem hoje.
Não era uma coisa tão estanque, tão fechada. Eles fizeram um trabalho necessário. Catalogaram, criaram um estilo, deram uma identidade ao gaúcho. Isso se mantém até hoje, esse espírito. Mas eu cresci no CTG e a minha maior dificuldade para me estabelecer foi não fazer uma música que estava dentro dos padrões.
Tu falas uma língua meio diferente nesse meio tradicional?
Sou um divulgador e incentivador da espontaneidade, porque acho que a gente é tão criativo. O Rio Grande do Sul é tão diverso, com tantas paisagens maravilhosas e distintas, e, ao mesmo tempo, o tradicionalismo está fazendo todos os CTGs dançarem iguais. Acho que a música pode ser diferente e representar a questão local. Eu canto na velocidade do Rio Uruguai. Meu compasso taipeiro é inspirado na potência orizícola que é Uruguaiana. Sou apaixonado por isso.

Falando nessa tua característica de vanguarda, como foi o desafio de interpretar Jayme Caetano Brown na ópera, de unir o popular e o erudito?
Olha, está sendo, né? Eu te digo que está sendo, porque quem me encorajou muito foi o Vagner Cunha (autor da ópera Em Busca das Paisagens Perdidas). Eu não conhecia o Vagner. Ele me ligou contando a ideia e dizendo: "Tu é o meu Jayme". Cara, eu adorei isso, eu adoro quando as pessoas apostam em mim. Então, eu disse "tenho de honrar, quero fazer". Aí dei aquela consultada em casa...
E o que as gurias acharam (ele tem duas filhas)?
Foi ótimo, beleza, vamos lá, somos movidos a desafios artísticos, e o melhor de tudo é que não era para me transformar em um erudito em 30 dias, era para ser uma fusão mesmo. Isso trouxe um total encaixe, um total acolhimento dos eruditos, da orquestra, desses cantores líricos maravilhosos (da Companhia de Ópera do RS). Sou o único que atua com o microfone, para poder recitar os versos, para poder cantar uma música, colocar o timbre do cantor. Eu não tenho essa força para furar a orquestra, essa técnica que o erudito tem, então realmente é uma mistura.





