Na semana em que o Palácio Piratini, em Porto Alegre, completa 105 anos, o acervo da instituição ganha novas — e simbólicas — peças.
Duas esculturas que homenageiam as quitandeiras e os Lanceiros Negros, personagens importantes para a história e a formação cultural do Rio Grande do Sul, passam a integrar o conjunto artístico do prédio.
O lançamento oficial das obras será em junho, na sede do governo do Estado, com a presença do governador Eduardo Leite.
Concebidas pelo Ateliê Coletivo Vinicius Vieira, as criações foram selecionadas por edital. O certame foi lançado em outubro de 2025 pela Secretaria de Estado da Cultura, via Instituto Estadual de Artes Visuais, em parceria com o Piratini.
— A importância disso é gigantesca. A história da construção do palácio não se expressa apenas na arquitetura, mas também no campo simbólico, por meio das obras de arte. Desde a concepção do prédio, foram incorporadas narrativas que vão da Revolução Farroupilha à monumental contribuição do italiano Aldo Locatelli. Hoje, em um contexto em que o palácio é apresentado a cerca de 25 mil visitantes por ano, avançamos na história da arte deste espaço ao promover um diálogo mais justo e representativo sobre a formação etnográfica do Rio Grande — diz Mateus Gomes, diretor-executivo de gestão do Complexo Palácio Piratini.
As duas esculturas são um gesto simbólico de equiparação cultural, ao reconhecer a contribuição da população negra em um espaço institucional que, historicamente, não refletia isso na sua iconografia. A iniciativa, segundo Mateus, busca enfrentar a ausência de representações negras nos ambientes de poder, promovendo reconhecimento e diversidade na construção da memória coletiva.
Sobre as figuras representadas
As quitandeiras foram mulheres negras escravizadas, forras ou libertas que comercializavam alimentos nas cidades brasileiras até as primeiras décadas do século 20.
Elas são entendidas como figuras que, por meio do trabalho, da circulação e da autonomia, ocuparam o espaço público e contribuíram para as dinâmicas culturais e econômicas das cidades.
Já os Lanceiros Negros foram combatentes negros escravizados e libertos que lutaram na Revolução Farroupilha (1835–1845) e que protagonizaram um dos episódios mais emblemáticos (e tristes) da história gaúcha.
Sua trajetória simboliza coragem, resistência e luta por liberdade.
Sobre os artistas
As obras foram realizadas por um coletivo de seis artistas com trajetórias consolidadas nas artes visuais, reunidos no Ateliê Coletivo Vinicius Vieira, sediado em Porto Alegre.
O grupo é formado por Vinicius Vieira, Adriana Xaplin, Jeanice Dias Ramos, Paulo Corrêa, Rafael Nascimento e Sabrina Stephanou, profissionais com atuações complementares que abrangem escultura, artes visuais, museologia, fotografia, curadoria e produção cultural.
Com ampla experiência em arte pública e obras permanentes de grande porte, o coletivo já realizou mais de 80 trabalhos de visibilidade pública em diferentes cidades brasileiras.
A atuação conjunta se caracteriza pelo diálogo entre memória, patrimônio, narrativas afro-brasileiras e abordagens decoloniais, articulando rigor técnico, pesquisa histórica e compromisso com a reparação simbólica.




