Ruben Oliven, um dos maiores antropólogos do país e que vai, a partir de setembro, dar aulas de cultura brasileira em Harvard, é o convidado do Paralelas desta semana.
Professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), ele tem textos importantíssimos sobre cultura urbana e tradicionalismo.
No programa, Oliven se disse animado com as possibilidades de pesquisa que a universidade norte-americana oferece e explicou os temas que abordará.
Também discutiu identidade regional, relembrou seus trabalhos envolvendo a cultura gaúcha e as transformações pelas quais o mundo acadêmico passou nos seus mais de 50 anos de docência.
O Paralelas tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify. A seguir, leia trechos da entrevista:
Como recebeu esse convite para Harvard?
Isso é uma cátedra que cada ano eles convidam uma pessoa. Eu fui indicado pelo departamento de antropologia e tive a felicidade e surpresa de ver que me escolheram. Não é tão complicado chegar lá.
O senhor está sendo modesto. Ficou feliz com o convite?
Acho que sim, acho que vai ser uma experiência muito boa. Aquela região é muito interessante, a região de Boston. Harvard é uma universidade fantástica, tem as melhores bibliotecas do mundo, então, para trabalhar, para pesquisar, vai ser algo muito bom. Tem um ambiente acadêmico muito interessante. Acho que vai ser uma boa experiência, estou muito animado.
Vais falar sobre os seus estudos a respeito da identidade brasileira, certo?
O primeiro semestre eu escolhi um seminário que chama The Making of Modern Brazil e, no segundo semestre, vou dar uma disciplina chamada Cultura Brasileira e Identidade Transnacional. A ideia é um pouco de pensar o Brasil como um país que sempre esteve em contato com outros países. O Brasil, desde o seu chamado "descobrimento", tinha contato com a Europa, chegou aqui, tinha população indígena, teve escravidão durante muito tempo, teve imigrantes alemães, italianos, judeus, japoneses, etc.
O que é a identidade brasileira, quem somos nós, é difícil... Essa é uma definição complexa, né?
Essa é uma pergunta que não acaba nunca, os brasileiros estão sempre perguntando quem é que nós somos. Outra grande questão é por que a gente está sempre dizendo que agora vai dar certo, agora nós vamos atingir o progresso que está na nossa bandeira. É o eterno país do futuro. É uma questão obsessiva no Brasil.
Essa autocrítica toda não faz muito parte do universo gaúcho, porque gaúcho que é gaúcho se acha o melhor em tudo. O nosso gauchismo é ufanista também, né?
Os gaúchos se veem como brasileiros por opção. O gauchismo não nega que nós somos brasileiros, nós somos brasileiros, mas é um tipo especial. Os costumes são diferentes e o Rio Grande do Sul afirma com muito orgulho essa sua identidade própria. Houve uma época, durante a ditadura do Estado Novo, do Getúlio (Vargas), que não se podia afirmar as diferenças. A identidade gaúcha ficou submersa e reprimida por muito tempo e depois ela veio à tona. Em 1980, aconteceu uma coisa fantástica: começou a haver um ressurgimento do gauchismo fazendo referência ao campo, à figura do gaúcho, ao cavalo. Onde os gaúchos vão, se eles não levam o cavalo, eles levam pelo menos o gauchismo.

Tem também o lado negativo de achar que somos melhores que os outros.
Nacionalismo é como colesterol, não é uma definição muito científica, mas tem o colesterol bom e o colesterol ruim. Ter orgulho do seu país, da sua região, é bom. O problema é quando a gente começa a dizer, "o meu país, a minha região, não só é melhor que as outras, mas as outras não valem nada e têm que ser destruídas". É um pouco a história do mundo nos últimos 200, 300 anos.
Os nacionalismos e a xenofobia são apavorantes.
Se a gente olhar guerras e conflitos, a questão nacional e regional está sempre presente. Hoje em dia, com a internet, o mundo ficou muito pequeno. Eu posso, no meu computador, me comunicar com uma pessoa que está na China. Ler jornais de qualquer lugar do mundo, abrir uma conta bancária na Alemanha e movimentá-la daqui. Sob esse ponto de vista, houve uma globalização, mas do ponto de vista de sentimentos, eu acho que até a globalização acentuou a necessidade das pessoas olharem no mapa e dizer, a minha casa fica aqui.
O que é antropologia?
A antropologia é uma ciência que surgiu basicamente na Europa e depois foi para outros lugares. Ela procura entender as diferenças entre diferentes culturas. Em geral, para fazer uma explicação muito simples, ela se ocupa de cultura e das diferentes culturas, mas mostrando que todas têm coisas em comum, todas têm vestuário, alimentação, língua, religião, rituais, etc. Só que há uma enorme variação dessas coisas de um lugar para outro. Então, o tipo de religiosidade varia de um lugar para outro, as línguas variam enormemente, a culinária varia enormemente, e quando a gente vai comer uma coisa que não é a nossa culinária, a gente estranha, pode achar interessante, mas estranha.
E no teu caso, tu fizeste um mergulho nessa história do tradicionalismo.
Eu comecei minha carreira fazendo antropologia urbana, estudando cidades, foi uma coisa que sempre me fascinou. Eu estava na Inglaterra, em Londres, que é um lugar muito cosmopolita, mas isso acendeu o meu lado brasileiro. Então, comecei a me interessar pela questão da cultura brasileira. E eu até dei um curso sobre isso aos alunos de pós-graduação e tinha um aluno que era ligado ao tradicionalismo e disse: "Pô, professor, mas não tem nada sobre cultura gaúcha?".
Tu foste nas Califórnias da Canção.
Estive em vários festivais, entrevistei os fundadores do movimento tradicionalista gaúcho, Barbosa Lessa, Paixão Côrtes, alguns já falecidos, e fui acompanhando tudo isso e tentando explicar esse fenômeno. Quer dizer, como é que se explicava que no momento que o Rio Grande do Sul era essencialmente urbano, estava havendo um renascimento, uma cultura que sempre faz referência ao campo.
E que nasceu na cidade, né?
Exatamente. E isso acabou arredondando num livro que se chama A Parte do Todo. Um que eu tentava discutir por que a globalização faz ressurgir a ideia de nação e de região. Ao contrário do que se pensava, torna mais forte.
A tradição gaúcha é uma invenção?
Olha, a rigor, tudo é uma invenção. A gente pode usar a invenção no sentido pejorativo, assim, de uma coisa de falsificação, daquele livro famoso, Invenção das Tradições, do (Eric) Hobsbawm. A cultura gaúcha é inventada, mas não é uma falsificação. Tu só consegue inventar alguma coisa que faça sentido para as pessoas. No momento que aquilo repercute, aquilo faz sentido.
O que mudou na universidade nesses seus 50 anos de docência?
Ela se diversificou, abriu cursos que não tinha, e ao mesmo tempo, com as ações afirmativas, se abriu para um público que não tinha como ter acesso. Nossas universidades são públicas, são gratuitas, mas em boa parte elas eram usadas pela elite, que entrava nos melhores cursos, eram pessoas que, em geral, estudaram em escolas privadas, podiam pagar cursinhos, etc. Foram criadas as ações afirmativas com cotas. Isso, num primeiro momento, causou muita revolta. Mas raça é uma coisa que continua existindo. A polícia sabe muito bem quem ela pode parar e não pode parar. Quando a gente olha os censos brasileiros, tem dois brasis, o dos brancos e não brancos. E eles são totalmente diferentes em termos de renda, expectativa de vida, oportunidade infantil, etc.
Quer dizer, as cotas foram ou são uma decisão positiva, contribuíram para melhorar a universidade?
Acho que sim. Acho que foi uma coisa muito boa.
Você também está lançando um livro sobre samba e jazz, não é?
Eu sempre gostei de música e me criei numa casa em que minha mãe gostava de música erudita e o meu pai gostava de blues. Ele trabalhava em casa então sempre ficava ouvindo as duas coisas e os pais meio que competiam pra fazer aliança com os filhos, mas os dois gostavam de Música Popular Brasileira. O título em inglês é Samba, Blues and Jazz, que é a mesma tradução em português. Eu procuro fazer um paralelo entre o samba e o blues, e depois o jazz. Mostrando que, embora Estados Unidos e Brasil sejam países muito diferentes, têm similaridades.


