
Em parceria com colegas do Reino Unido, pesquisadores gaúchos criaram um novo modelo capaz de identificar o risco de depressão em adolescentes antes dos sintomas. É uma boa notícia.
Publicado na revista científica Molecular Psychiatry (do grupo Nature), uma das mais relevantes na área da saúde mental, o estudo aponta um caminho para a prevenção.
O “pulo do gato” é a combinação de fatores sociais (como a análise do contexto familiar e de experiências de vida) e marcadores biológicos específicos (obtidos a partir de exames de sangue e de ressonância magnética, por exemplo).
A pesquisa — que acompanhou adolescentes entre 14 e 16 anos por três anos em Porto Alegre — faz parte de um consórcio internacional chamado IDEA (Identifying Depression Early in Adolescence). O consórcio é liderado pelo psiquiatra Christian Kieling, referência na área. Ele atua como médico e pesquisador no Hospital Moinhos de Vento e é professor da UFRGS.
O objetivo? Tornar possível a adoção de medidas de cuidado antes que os sintomas apareçam e causem estragos. A depressão é uma das principais causas de incapacidade de jovens no mundo.
A depressão frequentemente começa na adolescência, mas ainda temos dificuldade em identificar quem está em maior risco antes que os sintomas apareçam. Nosso estudo mostra que combinar informações sobre o contexto de vida dos jovens com marcadores biológicos pode melhorar significativamente essa previsão.
CHRISTIAN KIELING
Psiquiatra gaúcho
Prevendo a depressão antes que ela apareça

O estudo acompanhou adolescentes entre 14 e 16 anos durante três anos. Inicialmente, mais de 7 mil jovens da rede pública estadual de Porto Alegre foram triados. Destes, 100 participantes foram selecionados com base em um escore de risco sociodemográfico chamado IDEA-RS (Identifying Depression Early in Adolescence Risk Score), que considera fatores como contexto familiar, experiências de vida e outros indicadores sociais.
Entre os 100 participantes acompanhados durante o período de três anos, 50 compunham o grupo de alto risco e 50 o de baixo risco para desenvolver depressão, segundo o IDEA-RS.
Além dessas informações sociais, os pesquisadores coletaram dados biológicos por meio de exames de sangue e de ressonância magnética funcional do cérebro. Entre os marcadores analisados estavam:
- proteínas inflamatórias associadas ao sistema imunológico;
- substâncias envolvidas em processos metabólicos associados à proteção ou vulnerabilidade do cérebro;
- atividade da amígdala, região cerebral envolvida no processamento de emoções negativas.
Biologia melhora a precisão das previsões
Os resultados mostraram que o modelo baseado apenas em fatores sociais já conseguia prever o risco de depressão com moderada precisão. Porém, quando os pesquisadores adicionaram os marcadores biológicos, a capacidade de previsão aumentou significativamente.
Com base nesses achados, os cientistas criaram um novo escore biológico, chamado IDEA-BIO-RS, que reúne oito marcadores neurobiológicos em um único indicador de risco.
Quando diferentes tipos de risco se combinam
Os resultados mais marcantes surgiram quando os dois escores (social e biológico) foram analisados juntos.
Entre os adolescentes classificados como de alto risco em ambos os escores, 44% desenvolveram depressão ao longo de três anos. Já entre aqueles classificados como de baixo risco nos dois indicadores, nenhum desenvolveu depressão durante o período de acompanhamento.
Caminho para prevenção em saúde mental
A depressão é uma das principais causas de incapacidade entre jovens em todo o mundo. Apesar disso, identificar quem está em maior risco ainda é um grande desafio.
Para os autores do estudo, o novo modelo, se replicado, representa um passo importante rumo a ferramentas de rastreamento mais precisas e aplicáveis em diferentes contextos.
A expectativa é que, no futuro, abordagens desse tipo permitam estratégias de prevenção direcionadas, ajudando a reduzir o impacto da depressão antes mesmo do aparecimento dos sintomas.





