
O músico Diego Dias, da banda Vera Loca, sobe ao palco do Sgt. Pepper’s, em Porto Alegre, no dia 16 de abril, para um show com gosto de celebração (leia os detalhes no fim do texto).
À frente do projeto The Beatles no Acordeon, o grupo comemora novo convite para tocar no The Cavern Club, em Liverpool, casa noturna que se tornou um dos endereços mais simbólicos da trajetória dos Beatles.
As apresentações no Reino Unido fazem parte da International Beatleweek, festival anual organizado pela Cavern City Tours que reúne bandas, tributos e fãs dos Beatles na cidade onde a história do grupo começou. Em 2026, a programação ocorre de 26 de agosto a 1º de setembro.
A Beatleweek tem no Cavern Club seu endereço mais emblemático. Aberto em 1957, o clube se tornou um dos lugares mais associados à ascensão dos Beatles. Segundo o próprio Cavern, o grupo fez 292 apresentações ali entre 1961 e 1963, período em que o local passou a ser visto como o palco “onde tudo começou”.
É esse peso histórico que dá outra dimensão ao show de abril em Porto Alegre. Diego diz que evita fazer apresentações sem motivo claro e quis usar a data para dividir com o público o momento vivido pelo projeto.
— Eu não gosto de fazer shows aleatórios, gosto de ter um motivo. Como a gente teve esse convite, eu pensei: “vamos fazer um show para comemorar isso com todas as pessoas que gostam do nosso trabalho”.
A história
A trajetória do Beatles no Acordeon começou muito longe de Liverpool e muito antes da Beatleweek entrar no horizonte.
Depois de consolidar a trajetória com a Vera Loca, Diego sentiu vontade de criar um trabalho em que pudesse aparecer mais como instrumentista. A experiência acumulada ao longo dos anos no rock gaúcho alimentava esse desejo de sair, em certos momentos, do papel de músico a serviço da canção para ocupar um espaço em que pudesse explorar mais o instrumento.
Foi nesse contexto que ele começou a experimentar melodias dos Beatles na gaita e percebeu que havia ali mais do que uma ideia curiosa.

A escolha pelo repertório não foi por acaso. Além da paixão pessoal, Diego enxergava nas composições do quarteto inglês uma riqueza rara para um projeto instrumental. As harmonias, as melodias e a variedade de referências que os próprios Beatles incorporaram à obra abriam possibilidades de releitura que ele não via com a mesma clareza em outros repertórios.
— Como o show é instrumental, o acordeon faz a parte da voz. Então precisava que as músicas fossem profundas, em termos harmônicos e instrumentais. E os Beatles tinham muitas possibilidades para isso.
Com o tempo, o projeto foi abrindo outras frestas. Embora siga ancorado nos quarteto inglês, Diego conta que o show já começou a apontar para outras possibilidades e hoje comporta, em torno desse núcleo, um repertório mais amplo.
— Hoje o show se chama, na verdade, The Beatles no acordeon e muito mais, porque eu me dei conta que posso tocar Queen no acordeon, posso tocar Elvis, muitas coisas. Mas a base sempre é Beatles.
A aposta ganhou força quando encontrou o público. Sem vocalista no palco, as canções seguiam sendo reconhecidas de imediato, e o acordeon passou a puxar melodias que pareciam já morar na memória coletiva de quem assistia. Diego percebeu cedo que o repertório funcionava mesmo antes de ter uma validação mais ampla: em casa, o filho pequeno reagia de forma diferente quando ouvia Beatles.
— Quando eu tocava Beatles, a reação dele era outra. Então isso também foi um combustível de que aquilo poderia funcionar. Porque, se uma criança já se desperta, então talvez pudesse dar certo com todo mundo.
No palco, essa resposta se repete de outra forma.
Como eu não canto, o público acaba cantando. É quase um karaokê dos Beatles. Aquelas melodias estão no subconsciente das pessoas
DIEGO DIAS
Líder do grupo
O projeto também carrega uma marca gaúcha que ajuda a explicar sua personalidade. Natural de Tupanciretã, Diego cresceu ouvindo música regional, começou dentro de um CTG e mais tarde levou essa formação para o universo do rock. No Beatles no Acordeon, essa bagagem não desaparece.
— Não tem como fugir do jeito que eu toco sem um pouco de música gaúcha.

Ao mesmo tempo, o projeto nunca foi visto como uma fuga da Vera Loca, mas como expansão de percurso. Diego conta que recebeu apoio imediato dos colegas de banda:
— Eu recebo muito apoio dos meus colegas da Vera Loca porque a gente é muito amigo. Desde o início foi muito bem recebido.
O episódio que mudaria o patamar do projeto aconteceu na serra gaúcha. São Francisco de Paula, onde é realizado um dos mais importantes eventos dedicados aos Beatles no Brasil – e, segundo Diego, um dos maiores do mundo –, acabou funcionando como ponte entre o interior do Rio Grande do Sul e Liverpool.
São Chico e a irmã de John
Ainda no início dessa trajetória, ele fazia um show em um pub da cidade quando foi observado por um dos articuladores do festival local. O homem filmou a apresentação e disse que enviaria aqueles registros a pessoas ligadas ao universo do Cavern Club. A princípio, a promessa pareceu improvável demais para Diego:
— Eu fiquei muito desconfiado. Será mesmo? O cara com sotaque carioca dizer que estava mandando para o pessoal lá de Liverpool?
O desdobramento veio logo depois. Convidado a tocar em uma edição do festival de São Chico, Diego quase recusou por conflito de agenda. Mudou de ideia quando soube que uma presença muito particular o aguardava na serra.
— Ele me disse: “Se eu fosse você, eu daria um jeito, porque a irmã do John Lennon vai estar aqui”. E eu falei: “Acabei de descobrir que eu posso” (risos).
Foi ali que entrou em cena Julia Baird, irmã de John Lennon. A partir daquele encontro, a história ganhou um contorno que Diego se recusa a tratar como banal.
— Até hoje eu não consigo agir de forma a naturalizar isso, e não quero. Quero que isso seja sempre muito especial na minha vida.
Meses depois, veio a confirmação formal. Segundo ele, chegou uma carta da Inglaterra explicando por que o grupo deveria tocar em Liverpool. O convite resultou na primeira apresentação no Cavern Club, em 2018, experiência que funcionou como validação artística e impulso profissional.

Diego diz que viver de música exige elasticidade, repertório de sobrevivência e capacidade de circular por frentes diferentes. Nesse sentido, o Beatles no Acordeon foi um rearranjo concreto de carreira. Ao lado da Vera Loca, passou a compor uma segunda frente de trabalho, com portas e circuitos próprios.
— Esse projeto deu uma virada na minha vida profissional — diz ele.
Mais do que escolher entre um caminho e outro, ele afirma ter aprendido a conviver com duas frentes igualmente importantes. De um lado, a Vera Loca, onde é um dos compositores e segue realizando um trabalho autoral. De outro, um projeto de releitura que ampliou sua presença no mercado e o levou a espaços onde a banda nem sempre entra.
— Às vezes, se a Vera Loca não está num momento bom, o Beatles no Acordeon me socorre de um outro lado. Abre um leque de possibilidades que às vezes a Vera Loca não entra, assim como a Vera Loca entra em lugares que o Beatles no acordeon não fecha também. Então é uma questão profissional, além de afetiva.
Da apreensão ao sucesso
Havia, claro, o temor da recepção. Tocar Beatles em Liverpool para um público profundamente familiarizado com aquele repertório não parecia tarefa simples. A apreensão, porém, durou pouco.
— Desde a primeira música eu me senti muito bem aceito, muito bem recebido. Se aqui já funciona, lá mais ainda, por ser algo novo para eles.
O sinal mais claro de que a apresentação tinha deixado marca veio depois, no retorno das pessoas ligadas ao festival e ao circuito Beatle inglês.
— Todo mundo perguntava quando é que o cara do acordeon voltaria — diz Diego.
Agora, esse retorno finalmente vai acontecer. Diego conta que representantes de Liverpool voltaram a reforçar recentemente o desejo de revê-lo na programação e que a avaliação foi a de que o projeto estava maduro para voltar. Mais seguro do próprio formato, ele acredita que a nova viagem encontrará um show mais pronto do que aquele que subiu ao palco inglês pela primeira vez.
— A tendência é ser melhor ainda, porque agora já quebrou o gelo e a gente está com o show mais experiente, com mais tranquilidade, sabendo que funciona em qualquer lugar do mundo.

Ao seu lado estarão os irmãos Diogo e Cassiano Farina, na guitarra e no baixo, e Robledo Rock, na bateria, parceiros desde o começo do projeto. Diego diz que a formação se consolidou cedo e que o grupo cresceu junto desde as primeiras experiências com esse repertório.
Antes da viagem, porém, o palco é Porto Alegre. E o show do dia 16 funciona como a reafirmação de um caminho que começou despretensioso, ganhou identidade própria no sul do Brasil e acabou encontrando lugar em um dos cenários mais reverenciados da história do rock.
Programe-se
- O quê: show The Beatles no Acordeon Rumo à Inglaterra
- Quando: 16 de abril, às 23h45min
- Onde: Sgt Peppers – Rua Quintino Bocaiúva, 256 Floresta, Porto Alegre, RS
- Quanto: R$ 60, à venda em sympla.com.br
*Sob supervisão da jornalista Juliana Bublitz



