
Gestado há 20 anos, o Banrisul Instituto Cultural e Social está finalmente saindo do papel – e com uma "bolada" de R$ 27 milhões para investir em arte, cultura e educação em 2026.
É uma boa notícia para o Rio Grande do Sul, que ganha uma nova instituição na área, com foco em quem não costuma ter acesso ao universo artístico.
Na largada, detalhada nesta quarta-feira (15) em coletiva de imprensa na sede do banco, em Porto Alegre, serão criados cinco programas de longa duração e três projetos pontuais.
Há de tudo um pouco: atividades artísticas e formativas para estudantes da rede pública, clube de leitura voltado ao público 60+, ônibus-palco que circulará por 15 municípios, bolsas de estudos no Brasil e no Exterior e reforço na luta contra os feminicídios, entre outras ações (leia mais no fim do texto).
É amplo, está bem amarrado para que se mantenha perene e vai muito além dos tradicionais patrocínios a shows, peças e projetos, que seguirão acontecendo em paralelo à novidade.
Só neste primeiro ano, a direção espera atingir 1 milhão de pessoas com ações em todo o RS, priorizando áreas de vulnerabilidade social e pessoas invisibilizadas, onde o Estado não chega.
Podíamos fazer um prédio cultural bonito, mas não é isso que queremos. Queremos chegar aos invisíveis.
FERNANDO LEMOS
Presidente do Banrisul e do Banrisul Cultural
Sonho de duas décadas

A história por trás do Banrisul Cultural começa quase 20 anos atrás. Foi na última passagem de Fernando Lemos pela presidência do Banrisul, em 2007, ainda no governo de Yeda Crusius.
— O banco estava crescendo muito depois da abertura de capital, e eu achei que tinha espaço para criar uma instituição cultural, a exemplo do que já existia em outros bancos. À época, por uma série de razões, acabou não acontecendo — recorda Lemos.
O tempo passou, e a proposta ficou adormecida. Até que veio a enchente de 2024.
— Eu recém havia voltado à presidência quando tudo aconteceu. Ali pensei: precisamos fazer alguma coisa, e lembrei daquele sonho antigo — conta ele, que frequenta e conhece o meio cultural.
Inicialmente, de forma emergencial, o Banrisul injetou R$ 25 milhões para ajudar a reerguer instituições (como o Museu de Arte do RS e a Casa de Cultura Mario Quintana) e para socorrer a classe artística com editais.
Enquanto a água baixava e o Estado se recuperava, a ideia do instituto amadureceu, mas ainda faltava o nome certo para tocar o projeto.
Quando soube que Beatriz Araújo, com 40 anos de experiência na área, deixaria o comando da Secretaria de Estado da Cultura, Lemos não perdeu tempo. Em uma conversa em sua sala, no quarto andar do prédio que sedia o Banrisul, na Rua Caldas Júnior, ele fez o convite. Bia disse "sim".
— Lembro como se fosse hoje. Ele falou: "Tem lugar para ti aqui", e eu quase caí para trás quando soube da proposta. Não esperava — relembra a atual diretora-presidente do Banrisul Cultural.
— Juntou a fome com a vontade de comer — brinca Lemos, que procurou o governador Eduardo Leite para compartilhar a ideia e pedir apoio.
Seria preciso, para garantir base legal e assegurar estabilidade, enviar um projeto à Assembleia Legislativa criando o instituto. Leite topou.
A cultura não é acessória, não é supérflua. A cultura é essencial, porque além de entregar valor e senso de pertencimento, emprega e mobiliza economicamente.
EDUARDO LEITE
Governador do RS
Em setembro de 2025, o projeto foi aprovado e, em novembro, o Banrisul Cultural teve a documentação assinada e formalizada.
Começou antes mesmo do trâmite burocrático, doando R$ 10 milhões para bibliotecas públicas afetadas pela inundação. Agora, entra em nova fase.
Estrutura enxuta
Com o aval de Lemos, Bia Araújo montou sua equipe e deu início à configuração da nova entidade.
Chamou dois antigos parceiros de trabalho, que passaram pela secretaria, para atuar ao seu lado: Gabriela Munhoz (ex-diretora artística do Theatro São Pedro) e Benhur Bortolotto (que dirigiu o Departamento de Livro, Leitura e Literatura e o Instituto Estadual do Livro e chegou a ser secretário-adjunto).
Gabriela é a responsável pelos programas e projetos culturais no Banrisul Cultural e Benhur, pela área de programas sociais da entidade. Além deles, há ainda um diretor administrativo, Ismael Dapont, selecionado dentro do próprio Banrisul, e sete servidores.
A estrutura é enxuta, porque um dos pilares do instituto é atuar em parceria com outras instituições, como Instituto Unimed, Fundação Bienal do Mercosul, Fundação Marcopolo, Central Única das Favelas (Cufa) e Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS).
— Vamos trabalhar com parcerias e fazer algo novo. Já existe muita coisa sendo feita via LIC (Lei Estadual de Incentivo à Cultura), Lei Rouanet (federal), PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) e FAC (Fundo de Apoio à Cultura), mas quem tem acesso a essas iniciativas é, em geral, sempre o mesmo público. Nosso objetivo é alcançar o "não público", as pessoas invisíveis, e isso é novo — diz Bia.
Os programas
Banrisul Entre Artes
Realizado em parceria com a Fundação Bienal do Mercosul, o programa propõe atividades extracurriculares de artes para mais de 4 mil estudantes da rede pública da Região Metropolitana, nas áreas de maior vulnerabilidade social. As oficinas, pedagogicamente orientadas, serão ministradas por artistas/professores durante todo o ano, com foco no desenvolvimento do senso crítico e da sensibilização artística. A seleção desses profissionais ocorrerá em agosto.
Clube do Livro Banrisul 60+
Desenvolvido com participação da Associação Acervo Literário Erico Verissimo (ALEV), o clube vai incentivar o convívio na maturidade e ampliar o acesso à literatura no Estado. A iniciativa atenderá 2 mil participantes com o envio mensal de livros e realizará encontros virtuais mais amplos, abertos a todos os públicos, conduzidos por importantes convidados da área literária, a partir de maio.
Cultura que Circula
Levará um ônibus-palco a municípios de pequeno porte, promovendo atividades de cultura, cidadania e educação financeira em praças públicas. Realizado em parceria com a Fundação Marcopolo, a atividade deve atingir, a partir de agosto, cerca de 30 mil pessoas em 15 cidades gaúchas com populações de até 50 mil habitantes.
Banrisul Mobilidade e Conexões
O instituto também investirá na mediação e no intercâmbio cultural por meio do programa Banrisul Mobilidade e Conexões. A iniciativa prevê a concessão de bolsas e a criação de uma rede de parcerias institucionais para ampliar o acesso de estudantes, artistas e profissionais da cultura atuantes no RS a oportunidades em outras regiões do Brasil e também no Exterior. O lançamento está previsto para junho.
Arquivo das Artes
Será uma plataforma digital voltada ao registro, à preservação e à difusão da produção artística gaúcha. O programa reunirá conteúdos multimídia que conectam a história cultural do Estado à produção contemporânea, disponíveis para pesquisa e fruição pública a partir de julho, devendo contemplar mais de 100 mil pessoas.
Projetos
O Banrisul Cultural integrará a campanha O RS diz não à violência contra a mulher e o feminicídio, da Central Única das Favelas (Cufa). Com atuação em periferias e comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, a ação prevê mais de 300 atividades em todo o Estado, a partir de maio, além da criação de uma rede de atendimento com 14 unidades regionais, impactando mais de 100 mil pessoas. Também estão previstas atividades de educação financeira, qualificação profissional e incentivo à empregabilidade.
Na frente de preservação e acesso à cultura, o projeto Bibliotecas Banrisul, desenvolvido com o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS), já está em execução e contempla a revitalização de 35 bibliotecas gaúchas. O projeto inclui restauração, modernização, acessibilidade, aquisição de mobiliário e acervo, além de ações de capacitação de pessoas.
Outro projeto realizado pelo instituto é o Fala Sério!, que circulará pela comunidade escolar pública e privada com conteúdos claros e objetivos sobre temas como direitos e protagonismo feminino, cuidado de si e saúde reprodutiva, disponibilizados em uma plataforma online. Depois, premiará alunos e professores por iniciativas desenvolvidas. O projeto, que contemplará mais de 845 mil pessoas, será lançado no dia 8 de setembro, por ocasião de um evento com a presença de Malala Yousafzai.
A ativista paquistanesa, que se tornou a pessoa mais jovem a ganhar o Prêmio Nobel da Paz por conta do seu engajamento para garantir o direito à educação a crianças e mulheres, estará em Porto Alegre em uma realização conjunta entre Banrisul Cultural e Instituto Unimed/RS.
Sede
E onde será o Banrisul Instituto Cultural e Social? A sede administrativa, por enquanto, fica no prédio do Banrisul, no Centro Histórico.
Nos próximos meses, diretores e servidores da entidade irão se instalar em salas do MuseCom, o Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, na esquina da Rua Caldas Júnior com a Rua dos Andradas. Mas será, de fato, apenas um espaço para receber os funcionários.
Diferentemente de outras instituições do tipo vinculadas a bancos (como o Farol Santander), o Banrisul Cultural não terá um prédio próprio, para exposições ou atividades culturais. A ideia é outra: descentralizar atividades e estar presente em diferentes regiões por meio dos programas, projetos e parcerias.





