Estreia nesta quinta-feira (9), no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre, a peça Medea, de Séneca, com sessões até sábado (11) (leia os detalhes no fim do texto).
Aclamada pelo público e pela crítica em São Paulo, onde ficou quase dois meses em cartaz, a montagem é dirigida pelo mineiro Gabriel Villela. É um dos diretores, cenógrafos e figurinistas mais experientes e premiados do país (incluindo mais de 10 prêmios Shell), que completa 50 anos de carreira em 2026.
Conversei com Gabriel com exclusividade nos camarins do Multipalco, na noite da última quarta-feira (6), enquanto os atores ensaiavam o espetáculo.
Falamos sobre a atualidade do texto de Séneca, o que o púbico gaúcho pode esperar do espetáculo e as ligações do diretor com o Rio Grande do Sul, incluindo sua paixão por Pelotas e pela saudosa Eva Sopher, eterna guardiã do Theatro São Pedro.
Por que encenar Medea em pleno século 21?
Eu nunca sei responder o porquê das coisas. É um pouco assim: você é levado por uma peça. Depois de fazer Hamlet, senti uma necessidade enorme de voltar aos estudos acadêmicos dos latinos, que foram fonte de inspiração de Shakespeare. Aí lembrei que na Escola de Comunicações e Artes da USP tínhamos feito dois estudos, no primeiro ou segundo ano, sobre o teatro de Sêneca. Peguei Medea e, quando li aquilo, me deu o estalo. A barbaridade que o mundo está vivendo, que o homem está vivendo, está posta no verbo da Medea, é esse o brado dela. "Não faça isso comigo, que eu sou bárbara, cuidado." É como se fosse um grito da natureza. E olha o que está acontecendo com a natureza hoje.
Um texto de 2 mil anos segue mais atual do que nunca...
Na minha adolescência, meu pai tinha uns livros de Confúcio (filósofo, educador e pensador chinês). Como a gente morava na fazenda, no mato, em Minas, papai sempre falava: “Cuidado com a natureza, quando você expulsa a natureza, ela volta a galope”. Era Confúcio. Imediatamente, quando reli Medea, me veio essa lembrança na cabeça.
Tua versão de Medea tem outros elementos bem atuais, né? A questão do etarismo, a coisa de descartar a mulher à medida que a idade avança...
E a gente está matando mulheres... A misoginia está em alta, e não é só na internet. É preciso pensar o que está acontecendo diante dessa investida contra as mulheres. Medea é um brado retumbante para pensar isso, porque ela fala: "Você está achando que só você é que mata? Pois eu vou te matar, matando os filhos, extirpando a prole, causando dor". A mulher é quem tem o dom da continuidade do homem na Terra, e eu acho que o homem, o "macho", está atacando isso.
O que o público gaúcho pode esperar da peça?
Espero que a plateia possa desfrutar da palavra, carregada de desejo, de bruxaria, de tudo que faz parte de uma mulher que vem de um reino selvagem, posto que, em Medea, só era civilizado quem era grego. Quero chamar a atenção também para as máscaras gregas, que são muito bem manipuladas pelo elenco. Existe uma dinâmica das máscaras, passando pelo espetáculo todo. Temos um coro reduzido, mas temos uma voz coletiva, e essas máscaras... Elas têm um poder de fala, sabe? O ator fala por ela, através delas. Espero que a gente consiga fazer aqui o que fez em São Paulo.
O que vocês fizeram lá?
A gente fez um espetáculo que causa apneia coletiva, um silêncio diante da palavra, um encantamento. Porque a palavra animada no teatro, ela tem uma expressão divina, que é ânimo. Ânimo, do grego, é sopro de Deus, a palavra iluminada por Deus.
Mesmo quem nunca leu nem ouviu falar de Medea pode assistir à peça? Vai compreender?
Sim, vale para qualquer peça de teatro. Não precisa que você seja culto, estudioso de teatro, para ver. E o mito é universal.
O que o Rio Grande do Sul representa na tua trajetória? Tem boas lembranças daqui?
Eita, tenho. Tenho boas lembranças, começando por Pelotas. Assisti a um espetáculo lindíssimo de lá, chamado Maragato. A Bia (Beatriz Araujo, ex-secretária estadual da Cultura) era diretora do Teatro Sete de Abril. Depois, dirigi a Regina Duarte em A Vida é Sonho. Daí eu falei: "Regina, pelo amor de Deus, se a gente vai a Porto Alegre, a gente precisa ir a Pelotas, porque Pelotas é um exemplo de educação, de esmero, de polidez, do ator polido, uma escola maravilhosa. Lá fomos nós. Ficamos uma semana, você acredita? Isso foi em 92, 93, 94. E, claro, aí aparece Dona Eva Sopher na nossa vida. E ela fazia assim com o dedinho dela e ia mudando a cabeça da gente, reorientando. Dona Eva Sopher me lembrava muito uma grande professora nossa de teatro de São Paulo chamada Miriam Muniz. Embora Dona Eva não fosse pedagoga de escola nenhuma, ela era a escola em si. Voltei aqui várias vezes. A última vez foi com Boca de Ouro. Dona Eva estava já construindo isso aqui (o Multipalco).
Serviço
- O quê: Medea, de Séneca
- Quando: dias 9, 10 e 11 de abril, quinta, sexta e sábado, às 20h
- Onde: Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre
- Ingressos: à venda no site do Theatro São Pedro, clicando aqui



