
Em entrevista para um seleto grupo de jornalistas brasileiros, incluindo esta colunista, o ministro do Turismo do Uruguai, Pablo Menoni, falou, na última semana, em Montevidéu, sobre uma decisão importante: incentivar, com dinheiro, a ampliação de voos a partir do Brasil. Entre os destinos almejados, está Porto Alegre.
Desde a enchente de 2024, a capital gaúcha carece de rotas aéreas diretas para o país vizinho. Hoje, para ir ao Uruguai, é preciso fazer conexão em São Paulo ou encarar uma viagem de quase 12 horas de ônibus até Montevidéu. Há negociações em andamento, mas ainda nada em definitivo. A intenção é sanar o problema.
Na sala de reuniões do ministério, em frente ao famoso Mercado del Puerto (onde as parrillas são as estrelas), Menoni revelou o plano de subsidiar companhias áreas (como já faz no setor audiovisual) para cada passageiro a mais levado ao território uruguaio, com uma política "cash rebate", já aprovada em lei.
A meta é iniciar os pagamentos ainda neste semestre e, com isso, estimular a retomada da conexão POA-Montevidéu até o fim deste ano, entre outros destinos.
Na entrevista de 35 minutos, o ministro também falou sobre o bom momento do país, que vive um boom turístico, sobre a decisão de apostar em destinos gastronômicos e em rotas rurais fora dos roteiros convencionais na costa e sobre o impacto de ser o primeiro cadeirante da história a liderar um ministério no Uruguai.
Como está o momento do turismo no Uruguai? O Uruguai é o país da moda hoje.
Sim, estamos com uma nova gestão que começou no ano passado. Queremos complementar a oferta turística tradicional do Uruguai, de sol e de praia, que é o carro-chefe, apostando mais no turismo gastronômico e no turismo rural.
Entendemos que temos oportunidades para posicionar a gastronomia uruguaia em nível internacional.
Um exemplo claro que queremos seguir é o do Peru. O Peru conseguiu, com produtos muito bons, posicionar sua gastronomia internacionalmente.
Outro espelho é Portugal. Portugal conseguiu, com dimensões territoriais parecidas, aumentar o peso do turismo de 6%, há mais de 20 anos, para 12%. E se nutre do turismo dos países próximos, como Espanha, Inglaterra e França. Nós, da mesma forma, nos nutrimos de Argentina e Brasil.
Falando especificamente do Brasil, estamos mirando desde a zona econômica de São Paulo para o Sul. São de 50 a 70 milhões de brasileiros, e recebemos apenas 450 mil por ano.
A ideia é ampliar o volume de brasileiros que chegam?
Sim, pelo menos dobrar.
Em quanto tempo?
Em um período de quatro anos. O que isso implica? Primeiro, melhorar a promoção. Temos que despertar o interesse desses brasileiros que ainda não estão vindo. Para isso, estamos fazendo segmentação da oferta, micro-segmentação.
Isso significa usar ferramentas de inteligência artificial das redes sociais para promover ofertas conforme os interesses de cada pessoa: turismo de aventura, gastronomia, turismo cultural. Estamos segmentando por interesse. É a primeira vez que fazemos isso. Vamos avaliar no final da temporada. Depois, podemos incorporar outras dimensões, como idade e nível socioeconômico.
Além de despertar o interesse, temos de facilitar a vinda: conectividade. Temos cerca de 50 voos semanais com o Brasil.
E não temos voo direto de Porto Alegre.
Ainda não tem para Porto Alegre.
Vai ter?
Acredito que sim.
O que vocês estão fazendo para isso?
Estamos buscando acordos com as companhias aéreas.
É possível ainda neste ano retomar os voos para Porto Alegre? Tínhamos um voo, mas desde a enchente, não temos mais.
Sim, nossa ambição é incentivar o setor privado. O que podemos fazer é incentivar.
E pressionar?
Incentivar. Se queremos duplicar a quantidade de brasileiros, precisamos dobrar os voos. Não tem mistério. Como vamos fazer? No ano passado, aprovamos o orçamento quinquenal, para os próximos cinco anos, e incluímos um artigo para incentivar companhias aéreas: para cada estrangeiro adicional trazido em relação ao ano anterior, haverá um “cash rebate”, uma devolução em dinheiro. O valor ainda será definido. Tanto o Estado quanto as concessionárias dos aeroportos, em partes iguais, farão uma devolução para cada passagem adicional. Isso vai se implementar a partir deste ano.
Então o governo vai pagar às companhias que ampliarem seus passageiros?
Exato. Por exemplo, se venderam mil passagens a estrangeiros no ano passado, a partir de 1.001 haverá devolução parcial. Suponhamos 20 dólares por passagem: 20 do Estado e 20 da concessionária.
Esperamos implementar isso ainda neste semestre.
Falta aprovar uma lei?
Já temos a lei aprovada, mas ainda falta o decreto para regulamentar a medida. Em princípio, não vamos priorizar origens. Será nossa primeira experiência. Não estamos inventando a roda, estamos copiando uma experiência que já existe com a indústria audiovisual do Uruguai, com incentivos.
Isso pode ajudar a retomar o voo entre POA e Montevidéu?
Sim, entre outros. Mas é bom lembrar que temos, em Rivera (na fronteira com Sant'Ana do Livramento, no Brasil), um voo direto a Montevidéu, duas vezes por semana. Foi inaugurado no fim do ano passado.
Falando no Rio Grande do Sul, qual a importância dos gaúchos para o Uruguai?
Muita. Compartilhamos idiossincrasias, o gosto pela carne, pelo futebol, pelo mate, pelo Carnaval.
A ideia é atrair mais gaúchos? O que eles representam?
Sim, claro. Temos uma identidade cultural muito forte. Em algum momento, fomos parte do mesmo país. De toda forma, acredito que ainda há uma barreira, por mais que façamos esforço para entender vocês, há uma barreira na linguagem. Eu gostaria que no Uruguai se falasse mais português. Temos que melhorar nossa habilidade. Somos muito amáveis, por certo, o que nos posicionou como o principal país da América do Sul em turismo receptivo per capita. Recebemos mais turistas do que o número de habitantes. Recebemos 3,6 milhões e somos menos de 3,5 milhões de habitantes, mas temos que aprender mais inglês e mais português.
Há planos de criar mais rotas turísticas no país?
Sim, estamos propondo também rotas culturais como a Rota dos Jesuítas, que abarca o sul do Brasil, o Paraguai, o Uruguai e o sul da Bolívia. E pensamos também em duas possíveis rotas a mais, que abarcariam o Uruguai e o sul do Brasil: uma rota afro, de toda a cultura afro, e rotas históricas ligadas às nossas guerras civis, com Aparício Saraiva sobretudo.
Tradicionalmente, promovemos os 600 quilômetros costa, mas é difícil competir com as praias brasileiras, por isso estamos olhando mais para o interior: minas de pedras semipreciosas em Artigas, Valle del Lunarejo, perto Rivera, o corredor termal no litoral.
Também temos turismo de compras, de cassinos e de vinhos, mas aí há dificuldade que estamos tratando de solucionar. Hoje os vinhos que se compra nas vinícolas uruguaias não podem ser levadas como bagagem de mão no avião. Estamos em diálogo com a polícia aeroviária para permitir que turistas possam fazer isso em voos internacionais.
E o turismo de luxo?
O turismo de luxo continuará existindo e será promovido, mas temos de ampliar a oferta para todos os bolsos. Temos turismo de luxo especialmente com Punta del Este.
Punta virou um polo de atratividade para investidores e pessoas com muito dinheiro, não?
Sim. O aeroporto de Punta del Este bateu recorde de voos privados no final do ano passado.
É a primeira vez que vejo um ministro de Turismo cadeirante. Como isso influencia o seu trabalho?
Sou o primeiro ministro cadeirante da história do Uruguai. A visibilidade que minha cadeira tem é muito importante para o coletivo. Quando vou a atos protocolares com o presidente, tem de haver acessibilidade, porque tenho de estar perto do presidente. Então é uma mudança de visão geral.
Como está a acessibilidade no Uruguai?
A acessibilidade é um desafio, porque o Uruguai tem uma infraestrutura antiga. O Uruguai é um país velho do ponto de vista da infraestrutura, então, exigir a um hotel velho que seja acessível é complexo. Não só porque às vezes não tem dinheiro, mas porque não tem espaço físico para isso. Andar de cadeira de rodas em uma rua de um bairro histórico de Colônia do Sacramento, por exemplo, é impossível. Há coisas que podemos e devemos fazer, e há coisas que não há o que fazer.
Há conversas para que trazer para cá o Guia Michelin de restaurantes?
Sim, mas é caro. É fundamental, porque facilita a seleção de lugares. É garantia de qualidade. Mas é caro e temos orçamento limitadíssimo. Há conversações. Não tenho dúvidas de que valeria, mas minha missão é, também, padronizar as ofertas. Temos restaurantes muito bons e outros nem tanto. Precisamos equalizar isso.



