Ele não tem nada a ver com o estereótipo do “roqueiro raivoso”. Ao contrário.
Entrevistado do Paralelas desta semana, Rafael Malenotti é chorão, “paizão” (apaixonado pelos filhos Fernanda, Isabela e Lito), louco por Roberto e Erasmo, casado há anos com a mesma mulher, Leticia Dutra Maraninchi, e gentil até a ponta dos fios do cabelo amarelo.
Ele anda mais emocionado do que nunca pelos 35 anos de sua banda, Acústicos & Valvulados, que fará show especial no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, no dia 10 de abril.
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Como é fazer 35 anos de Acústicos & Valvulados, essa banda tão importante do rock gaúcho?
A gente tá muito impressionado por chegar nessa marca e chegar de forma saudável. A convivência entre nós, da banda, realmente tem uma harmonia e uma paz que durante esse tempo todo foi o que prevaleceu. Isso foi determinante para que a gente pudesse resistir. São poucos artistas que conseguem superar esse desafio do tempo, e a Acústicos está aí, firme e forte. Vamos celebrar essa marca emblemática no palco, com essa bênção dada pelos deuses do rock.
Vocês começaram cantando músicas em inglês, mas teve a virada de chave para o português. Como foi?
Nos anos 1990, a gente foi fazer um festival no Rio de Janeiro, que era promovido pela Sony Music. A Sony queria projetar artistas da cena independente. Fomos lá e fizemos o show. Depois, nos falaram assim: "Olha, nós gostamos muito da banda, gostamos da energia, da música, da sonoridade, a gente só precisa que vocês cantem em português, porque a gente não vai apostar em banda cantando na língua que não é a do país." A gente tinha quatro anos de banda e não estava preparado. Foi um baque. Explicamos que só cantávamos e inglês e eles "ah, que pena, então, obrigado".
Sério? Vocês disseram "não" para a Sony?
A gente disse não pra Sony, a manchete é essa (risos). Aí a vida seguiu, veio a MTV e a gente caiu nas graças do Thunderbird. A relação foi ficando forte, até que veio um convite para a gente fazer um programa chamada Romance MTV para o Dia dos Namorados, só que tinha de ser música em português.
Aí vocês se renderam?
Daí a gente fez uma reunião, e eu falei assim "bah, olha só, galera, agora não dá mais, não dá pra dizer não". Aceitamos o convite.
Sem ter nenhuma música em português pronta?
A gente começou a ver nossos baús e as referências, porque nós não somos gringos, somos brasileiros, "vamos para o rock Brasil, ver o que tem": Mutantes, Raulzito, Rita Lee, enfim. Aí a irmã do Paulinho, que é o baterista e o compositor principal da banda, sugeriu Minha Fama de Mau, do Erasmo. Quando a gente tocou isso no especial da MTV, a gente subiu aquele degrau. Nosso show ainda era todo em inglês, mas, quando a gente tocava essa música, as pessoas só iam à loucura, porque era música que estava tocando nas rádios.
Chegaste a conhecer o Erasmo, né?
Em 2009, quando ele veio lançar o livro aqui, com um show e tal, o pessoal do Jornal do Almoço me convidou para fazer a entrevista com ele. Eu desidratei chorando.
E ele?
Ele me apelidou de cebola (risos). Eu estava muito emocionado mesmo. Depois, no privado, ele falou assim "bicho, estou brincando contigo, eu admiro pessoas que têm esse grau de sensibilidade e tu é uma dessas pessoas".
Que lição o Erasmo deixou na tua trajetória?
Basicamente, ele falava assim: "Cara, a gente não pode dar nenhuma abertura pra negatividade, a gente precisa fazer na nossa vida tudo com muito amor." Depois, quando fui fazer o show para celebrar os 80 anos dele, do Roberto Carlos, no Araújo Vianna, eu encontrei o Erasmo de novo, e aí ele escreveu um post dizendo que uma dia eu ainda ia fazer "oitentinha". Se o Erasmo decretou, está decretado.
E tu é um cara família, né?
Eu sou um cara família. O fato de eu ter perdido meus pais muito cedo faz com que eu tenha esse sentimento de apego. E eu tenho muitos amigos também, que considero da família, porque, quando tu perde uma mãe aos 13 anos, várias famílias de amigos teus te adotam.
E hoje, como pai, isso impacta na tua relação com os filhos?
Não tenha dúvidas. Por exemplo, agora em novembro, eu estava jogando futebol com o Lito, que é o meu filho mais novo, e rompi os ligamentos do joelho. Eu fiquei pensando: azar mesmo foi o do meu pai, que, quando eu tinha 5, 6 anos, se acidentou e ficou inválido numa cama hospitalar até os meus 20, então, ele não jogou futebol comigo. O que que fica disso? Fica a minha felicidade em estar rompendo o ligamento do joelho jogando futebol com o meu filho.
Tu não te encaixa nada no estereótipo do roqueiro malvado, né? Que briga, destrói quarto de hotel...
Nesse estereótipo não, mas eu tenho que ter a fama de mau, como o Erasmo (risos). Jamais quebrei qualquer coisa em hotel. Eu sei que os artistas às vezes estão alterados, é um combo muito complexo. Uma grande parte deles não teve infância saudável, aí eles colocam para fora as frustrações e revoltas, iras e tal. Acho que o baque na minha vida foi tão pesado que eu fiquei mais sereno. Perde a tua mãe com 13 anos e passa a adolescência como enfermeiro, cuidando de um pai idoso numa cama hospitalar para ver...
Mas tinha tudo para ser revoltado e pegou o outro caminho, né?
É, mas eu acho que daí é quando vem aquele clichêzão de vários artistas, assim, a música me salvou.
Salvou?
Claro que salvou. Se não fosse a música, a gente não estaria conversando aqui hoje, eu não poderia estar te contando histórias que para mim são tão importantes.
Sobre o show dos 35 anos
Será no dia 10 de abril, às 21h, no Auditório Araújo Vianna, que fica no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Os ingressos (entre R$ 70 e R$ 350) estão a venda neste link, é só clicar.


