
Um dos principais nomes da Antropologia no país, o gaúcho Ruben Oliven, referência no estudo da cultura brasileira, foi convidado a lecionar na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, a partir de setembro.
Professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Oliven será titular da cátedra Robert F. Kennedy, dedicada a nomes relevantes da pesquisa sobre América Latina e Caribe.
Hoje, a titular da disciplina é a professora de literatura da Argentina Alejandra Laera. Antes dela, passaram pela cátedra nomes como os brasileiros Roberto Schwarz e Fernando Limongi; o ex-ministro da Economia argentino Domingo Cavallo, e o ex-vice-presidente da Nicarágua Sergio Ramírez.
— Estou muito contente e muito animado com a notícia — diz o professor.
Durante a estada em Harvard, Oliven vai ministrar dois seminários, intitulados The Making of Modern Brazil: a Transnational Perspective e Brazilian Culture and National Identity.
No primeiro, o pesquisador abordará a construção do Brasil moderno e, no segundo, o assunto tratado será aquilo que o país reconhece como essencialmente daqui.
— Vamos falar sobre como o Brasil está sempre discutindo a identidade nacional. Isso passa pela cultura brasileira, por definir o que é exatamente a cultura brasileira e se tem mais a ver com coisas populares ou com coisas de elite — explica.
A passagem por Harvard não será a primeira de Oliven, experiente pesquisador, por centros universitários no Exterior. Ele já deu aulas em países como Estados Unidos, França, Espanha, Portugal, Argentina e México.
Além de pesquisar a cultura e a identidade brasileiras num contexto mais amplo, o professor é uma referência no estudo da cultura gaúcha.
Depois do doutorado em Londres, nos anos de 1980, Oliven decidiu pesquisar como grupos construíam suas identidades tomando parte da identidade brasileira, mas se diferenciando. Entre eles, estava o movimento tradicionalista e nativista no Rio Grande do Sul, que naquele momento ganhava o coração dos gaúchos.
O que ele observou foi que o tradicionalismo era um fenômeno essencialmente urbano, embora seu discurso fizesse referência a um passado rural e glorioso.
— Temos, em Porto Alegre, pessoas que moram em apartamentos e que, na Semana Farroupilha, vão acampar no parque — detalha.
Nos próximos meses, Oliven também planeja o lançamento de um livro que vai analisar as semelhanças entre o desenvolvimento do samba e do blues. A obra já está em edição e será publicada inicialmente em inglês, mas a ideia é que haja uma tradução.
Bagagem
A escolha de Ruben Oliven reflete não apenas o reconhecimento internacional de sua produção acadêmica, mas também a relevância de uma trajetória marcada pelo diálogo constante entre o Brasil e o mundo.
Ao longo das últimas décadas, o antropólogo consolidou-se como um dos principais intérpretes da cultura brasileira em perspectiva comparada. É especialista em articular temas como cultura popular, identidade nacional, modernidade e significados simbólicos do dinheiro.
A experiência como professor visitante em centros acadêmicos de excelência nos Estados Unidos — entre eles, a Universidade da California (Berkeley), Dartmouth College, Brown, Universidade de Illinois e Emory — contribuiu para ampliar o alcance das reflexões sobre cultura e modernidade no Brasil.
Na Europa, Oliven lecionou na Universidade de Paris, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na Universidade de Leiden, na Universitat Rovira i Virgili (Espanha) e no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.
Na América Latina, deu aulas na Argentina (Universidad de Misiones) e no México (Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social).
* Sob supervisão da colunista Juliana Bublitz



