Ela é jornalista, trabalhou para grandes veículos de comunicação, como ZH, Estadão e Marie Claire, e se tornou empresária, dona de uma das principais assessorias de comunicação do sul do Brasil.
Na pandemia, a gaúcha Fátima Torri se reinventou e, aos 68 anos, criou o portal Fala Feminina, que hoje impacta mais de 400 mil mulheres em todo Brasil.
Ela é a entrevistada da semana no “Paralelas com Ju Bublitz”.
O programa tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.

Como nasceu o Fala Feminina e como atingiu tantas mulheres?
O que aconteceu foi que, em 2019, entrevistamos quatro mulheres que foram as primeiras a fazer parte do blog Fala Feminina: Esther Grossi, Tânia Carvalho, Zoravia Bettiol e a Lya Luft. Aí veio a pandemia e parou tudo. Um dia, da Tânia me ligou e disse: “Tu viu que tem um negócio chamado live agora?” Eu não tinha ideia. Era uma mulher analógica.
E aí aconteceu?
Eu disse: “meu Deus, a gente pode falar com todo mundo!” Fiz a primeira live em 2021, com a Fernanda Zaffari (jornalista gaúcha), que vive em Londres, para falar de maternidade. Depois, surgiu o podcast e, quando fiz 70 anos, fui sozinha para a Itália. Foi bárbaro e muito amedrontador ao mesmo tempo, e os vídeos continuaram entrando no ar, até que um dia alguém me falou: “Tu viralizou!” Passei de 6 mil para 77 mil seguidores em uma semana (hoje são 417 mil).
Sobre o que tratava o primeiro vídeo que viralizou?
Sobre quanto custa o corpo de uma mulher. Quanto custa para a gente estar sentada aqui e não estar muito acima do peso, estar “assim” ou “assado”? Hoje, a gente deveria perguntar quanto vale o corpo da mulher. Porque vale cada vez menos.
A gente tá vivendo um momento muito complicado, né? O que acontece com os homens?
Olha, eu acho que todos nós nos perdemos, né? Virou o caos. O caos é aquele lugar do qual tu precisa sair, porque depois não tem mais nada. Nós vamos sair armados na rua, nos matando? Não. Já ouvi mulheres dizendo que a gente tem de fazer justiça, mas não é assim que se resolve (com violência ou tentando replicar a virilidade masculina). Ao contrário. Quando fomos ao mercado de trabalho, por exemplo, nos tornamos mulheres muito rígidas. Dirigentes de empresa sendo muito mais autoritárias e duras do que os homens, porque a gente tinha de provar...
Provar que poderia ocupar espaços masculinos?
Exato, quando as mulheres vão ao mercado de trabalho, surge o casaco de ombreira, como um corpo masculino, né? Então, o que eu vejo é um colapso enorme da questão de gênero, e acho que precisamos falar mais de algo sagrado que é a maternidade.
Como?
Todas nós tratamos os filhos (os meninos) como incompetentes, pessoas completamente disfuncionais. E olha que eu estou dentro disso (Fátima é mãe de dois homens). Eu achava que cuidar dos meus filhos era fazer o que eles queriam. Era dar tudo na mão, fazer tudo para o meu filho homem. Tem uma questão psicanalítica aí.
A forma como as mulheres estão criando seus filhos influencia no cenário que temos hoje?
Eu acho que sim, mas a culpa não é das mulheres. As mulheres atendem a uma cultura que diz que mãe tem de ser assim.
As mulheres são julgadas o tempo inteiro?
Julgadas e vigiadas. E a gente está o tempo inteiro se julgando e se sentindo insuficiente. Para sair desse modelo, é preciso quase que nascer de novo e se reinventar numa cultura tão opressiva em cima das expectativas que se tem sobre as mulheres.
E ainda tem a coisa de romantizar a vida, né?
As mulheres ainda estão romantizando um príncipe, um homem perfeito.
Mas os homens também são cobrados desde pequenos, de forma terrível: não pode chorar, tem de ser o “machão”...
E eles não têm uma válvula de escape, né? Então, acho que estamos todos juntos nessa crise.


