
Ficamos sem estatueta. O Oscar não veio desta vez, mas nada diminui a grandeza de O Agente Secreto.
O filme cumpriu o papel ao escancarar os horrores da ditadura civil-militar brasileira (sem mencioná-la em momento algum) para mais de 2 milhões de espectadores.
A produção dirigida por Kleber Mendonça Filho é uma aula de história sem dizer que é.
Inteligente, cheio de nuances e carregado de ironia fina, o roteiro percorre muitos caminhos para falar de dois temas fundamentais da trajetória recente do país, como já destacou meu colega Ticiano Osório, crítico de cinema de GZH: memória e esquecimento.
O Agente Secreto é sobre o apagamento e a reparação de biografias, sobre as histórias até hoje mal contadas, as perguntas sem respostas, os desaparecidos. É um thriller político sobre opressão e resistência com muitas camadas, que abordam o papel da polícia e do Estado, do empresariado, da imprensa e das elites nos Anos de Chumbo.
"O Brasil", como já disse o diretor, "não gosta de encarar assuntos desagradáveis". Com a anistia "geral e irrestrita" no fim da década de 1970, o país varreu para debaixo do tapete a violência e os crimes cometidos no período e decidiu que não se falaria mais nisso. Fingir que nada aconteceu não muda os fatos. O Agente Secreto trouxe tudo isso à tona outra vez.




