
A partir desta quarta-feira (25), a Sala Álvaro Moreyra, na Capital, recebe uma série de eventos de ballroom, movimento movimento político e cultural de pessoas negras e LGBT+ centrado na competição de desfiles e danças. De acordo com a organização, é a primeira vez que uma temporada de balls ocorre em um teatro da Capital.
Organizado pelo Casa de Audácia, o projeto Noites de Audácia, uma viagem no tempo promove um resgate histórico dessa cultura, tanto para quem já conhece a cena quanto para quem nunca ouviu falar. Os quatro encontros serão às quartas-feiras, sempre às 18h30min.
Não é um bem espetáculo de dança, nem uma competição normal. Segundo organizadores, é uma vogue jam, ou uma roda de dança no estilo voguing, dedicada a recontar a história do movimento. Os representantes das diferentes casas competem entre si, mas em um arco de estilos que reconstrói a história das balls.
Cada noite homenageia uma figura precursora da cultura ballroom. A primeira, no dia 25, será um tributo à norte-americana Crystal LaBeija. As competições serão nas categorias pose, face e lip sync.
A segunda semana (1º de abril) será dedicada a Paris Dupree, e à centralidade do estilo voguing. Os participantes disputam em vogue performance, baby vogue e commentator.
Diva Davanna é a estrela da terceira noite (8), em que as competições se concentram em: runway, baby runway, body e urban streetwaer.
Por fim, no dia 15 de abril, a homenagem será para Gleyde Lopes Zion, com mexe a raba vs. passinho, samba no pé e cata o beat.
O que é a cultura "ballroom"?
O ballroom surgiu como uma mescla de performance, competições e apoio entre pessoas negras, latinas e LGBT+ em meados dos anos 1970 nos Estados Unidos. Seu berço é o bairro do Harlem, em Nova York – daí porque a maioria dos termos tem origem no inglês.
Os participantes se uniam em espécies de times, as chamadas houses (ou casas), lideradas por um father (pai) ou uma mother (mãe). Com o tempo a cultura se espalhou pelo mundo. Ainda hoje envolve a competição de dança, desfiles e poses, mas incorporando novas categorias dos locais em que se estabelece.
Ao longo de todo esse tempo, manteve-se com o caráter de acolhimento e veneração de corpos e sexualidades dissidentes ou marginalizados.
Em Porto Alegre, a história do movimento remonta a 2016. Porém, a consolidação ocorreu apenas em 2018 e 2019, com a fundação da House of Harpya, a mais antiga da cidade. A House of Audácia, que organiza o evento, foi fundada em 2023 por Zaire Rodrigues, artista transmasculine não binárie, e Sophie Ferreira.
Embora não fosse um critério inicial, ela é formada principalmente por pessoas trans, não bináries (que não se entendem como homens ou mulheres) e dissidentes de gênero, majoritariamente transmasculines.

A mother Sophie Ferreira chama a atenção para a importância que os bailes têm para o acolhimento de seus integrantes. Ali, o corpo trans é que é celebrado e venerado.
— Fora daqui, a sociedade nos apaga, nos invisibiliza. Mas a cena nos coloca como importantes, talentosas. Aqui eu me vejo como mãe — defende ela, que nasceu em Arapiraca, em Alagoas, e se identifica como uma travesti.
— Nossa ligação (na casa) vai muito além das balls. Esse lugar me salvou. Se um dia acabar, eu sei que eu tenho meus filhos no fim do dia.
Os eventos serão realizados com financiamento do projeto especial Novas Caras, um edital de fomento da prefeitura da Capital. Sophie comemora essa conquista, afinal é uma cultura condenada à marginalidade ocupando um espaço central de Porto Alegre.
— Geralmente precisamos fazer em espaços pagos, cobrar ingressos, vender bebidas. Ter uma ball dentro do teatro é importante e seria bom que a gente pudesse ter mais — afirma.
Serviço
- Evento: Noites de Audácia, uma viagem no tempo
- Local: Sala Álvaro Moreyra – Centro Municipal de Cultura, Arte e Lazer Lupicínio Rodrigues
- Endereço: Av. Érico Veríssimo, 307, Azenha
- Datas: 25/03, 01/04, 08/04, 15/04, às 18h30min
- Ingresso: gratuito
*Sob supervisão da jornalista Juliana Bublitz.






