
A Salva Craft Beer já vinha de um 2025 barulhento, com 111 medalhas e troféus conquistados mundo afora. Agora, a cervejaria de Bom Retiro do Sul (RS) abriu 2026 mostrando que o fôlego segue o mesmo – ou até maior.
Em dois dos principais concursos cervejeiros do país, a marca gaúcha conquistou 32 medalhas, foi eleita a terceira melhor cervejaria no CBC Brasil 2026 e ainda teve o responsável pela produção, Thiago Wild, escolhido o melhor mestre cervejeiro do país.
Apontado como a maior disputa de cervejas independentes do mundo, o CBC reúne avaliadores de mais de 15 países para julgar rótulos de diferentes estilos, produzidos em todas as regiões.
A seguir, leia uma entrevista com Thiago, que começou a fazer cerveja em casa há cerca de 12 anos.
O que faz, na prática, um mestre cervejeiro?
Aqui na Salva sou responsável por todas as áreas. A gente avalia receita, cereal, material, qualidade e valida análises no processo de fabricação da cerveja. Fora isso, atuo para entender como vai a venda do produto, o posicionamento e a parte de entrega. Também acabo atuando na compra de insumos e converso com todos os fornecedores, isso é muito importante. Basicamente, atuo de forma gerencial em todos os níveis.
Quando um concurso elege o melhor mestre cervejeiro, o que esse prêmio reconhece?
Eu vejo por dois cenários. O primeiro é que é um prêmio coletivo. Se o pessoal não está fazendo o processo correto, que é o processo que a gente alinhou e que tem método, o produto não sai com qualidade. Tenho coordenadores que ajudam a garantir isso, na parte de armazenamento e de entrega.
Por outro lado, o prêmio também coroa a minha trajetória. São mais de 10 anos de trabalho, e a história é longa: a gente estuda, vai atrás, aprende cada vez mais. Estamos há oito anos participando de campeonatos, e o resultado de melhor cervejeiro veio com uma média de 40,34. Nas cervejas, geralmente a avaliação vai de 0 a 50. Ter uma média acima de 40 pontos é um trabalho muito bem conduzido. É muito difícil conseguir essa pontuação.
O que faz uma cerveja ser especial e sair de “muito boa” para premiada?
Hoje existem mais de 150 estilos catalogados. Uma cerveja pode estar muito boa, mas ser inscrita na categoria errada. Por isso, saber colocá-la no estilo certo faz diferença.
Além disso, eu e mais dois colaboradores somos juízes em concursos, então a gente tem uma expertise adquirida com o passar do tempo e entende que, primeiro, a cerveja tem que estar top em todos os aspectos: cor, aroma, aparência e sabor. Ela não pode ter nada fora do aceitável.
Então, são esses pilares: a receita correta, saber inscrever e saber fazer o processo adequado.
Tem alguma cerveja, algum rótulo, que tenha sido especialmente difícil de acertar?
Existem projetos que são mais difíceis de fazer, como cervejas de fermentação espontânea. Isso é quase uma arte. Mas hoje a gente não está muito nessa seara. É uma coisa que a gente tem desejo de fazer.
Também existem produtos que trazem mais desafios, como a cerveja sem álcool, que hoje é uma tendência.
A gente conseguiu fazer uma sour sem álcool, que é uma cerveja mais ácida, com caju, maracujá e goiaba, e ela foi super bem. Temos mais orgulhos do que frustrações, por assim dizer.
E a linha de vocês que é toda sem glúten? Isso nasce de uma visão de mercado ou de uma convicção filosófica?
O que a gente entendeu é que havia uma demanda latente por mercado sem glúten. E, geralmente, quem faz cerveja sem glúten faz a pilsen, porque é o que a maioria da galera toma. A gente pensou: por que não fazer outros estilos?
Aí foi quando falamos: cara, em termos de processo, vai ser mais fácil fazer tudo sem glúten mesmo, porque tu não tem risco de contaminação cruzada. E assim foi.
Como essas premiações impactam no dia a dia de vocês?
Isso abre muitas portas comerciais. Poder divulgar isso gera curiosidade, faz o pessoal querer experimentar. A gente está iniciando o e-commerce agora também, e a validação que essas medalhas traz para o produto é uma porta de entrada para o consumidor.
A abertura de mercado, comercialmente falando, é enorme. E dentro do setor também, porque o pessoal enxerga a Salva com outros olhos. Isso dá uma visibilidade muito boa e faz com que surjam parcerias em collab.
Como tu avalias o crescimento do mercado de cervejas artesanais no Brasil, especialmente no RS?
O mercado, de forma geral, está se tornando mais aberto para outros produtos, não só o de cerveja. O pessoal quer tomar algo diferente, quer provar algo diferente. E, fora do Brasil, a parte de cerveja artesanal é muito forte. O mercado craft nos Estados Unidos é gigante.
As pessoas querem fugir do óbvio, querem provar coisas boas. E eu vejo hoje que o público demanda sabores diferentes, demanda cada vez mais qualidade, porque o pessoal sai do Brasil, prova em outro lugar e fala: esse aqui ainda não tem no Brasil. E isso foi fazendo com que esse movimento crescesse. Existe também um bairrismo, do tipo: essa cerveja é produzida aqui, estou apoiando um produtor local. Acho que existe todo esse fomento ao redor.
Quais critérios definem uma cervejaria artesanal, mesmo quando ela amplia sua estrutura e distribuição?
Existem dois conceitos. Um é o volume produzido. Existe legislação hoje no Brasil que fala em até 10 milhões de litros. No Rio Grande do Sul, são 6 milhões no ano. E existe também aquele conceito do consumidor, que leva em conta as cervejas diferentes da pilsen, por exemplo. O cara não está fazendo só pilsen, ele faz uma red, ele faz IPA, ele faz APA, ele faz uma sour, isso é craft (termo usado para definir as cervejas artesanais).
A Salva está completando 10 anos. O que vocês fazem hoje que seria impensável no início da cervejaria?
O volume é algo que cresceu muito e muito rápido. Quando eu iniciei aqui, eu vinha de uma cervejaria muito menor, e aquilo já era grande para mim. Rapidamente, em oito anos, a gente expandiu muito, a ponto de hoje ser uma das maiores crafts do Estado, se não a maior, em termos de volume. A gente não tem esse dado preciso, mas é algo que dá bastante orgulho. Quando tu olhava lá atrás, talvez ficasse meio espantado com tantas coisas que a gente fez.
Cerveja em PET, quando comecei aqui, também não era algo pensado. Eu nunca tinha ouvido falar de cerveja na garrafa PET. Isso veio um pouco antes da pandemia, quando a gente começou a ver que, no Exterior, estavam fazendo.
Hoje a gente tem uma linha craft e está interessado em expandir o portfólio para outros tipos de produtos. A Salva tem o desejo de se tornar uma indústria de bebidas, não só uma indústria de cerveja.
Quais são as três cervejas da Salva que tu mais recomendas?
Essa é uma pergunta difícil. Eu gosto de todas, mas a APA é muito boa, para tomar no churrasquinho, naquele dia quente. Eu gosto muito de Dry Stout, mas isso é algo meu, sou louco por Dry Stout. E a Premium Lager é aquela pilsen muito redondinha, com amargor certo, que limpa o paladar.
Atualmente, eu também destacaria a nossa sour sem álcool de caju, maracujá e goiaba, porque está incrível. De forma geral, eu adoro sour, porque é muito boa de tomar, e essa está extremamente redonda.
A Salva no CBC Brasil 2026
Na edição do Concurso Brasileiro de Cervejas de 2026, realizada em Uberlândia (MG), a Salva somou 21 medalhas – sete de ouro, sete de prata e sete de bronze. A marca foi uma das três cervejarias gaúchas no top 5 da competição, ao lado da Brewine Leopoldina, em 2º lugar, e da Cervejaria Imigração, em 5º.
As medalhas de ouro vieram com os rótulos Cow Me Baby (Sweet Stout), Scotch Ale, Cajuzada Sem Álcool, Cajuzada de Morango (sem glúten), O Dragão Acordou (Coffee Beer), Dryer Machine (Dry Stout) e Torta de Limão (American-Style Sour Ale).
No mesmo evento, Thiago recebeu o prêmio concedido ao profissional com a melhor média de notas entre os rótulos inscritos. A marca alcançou 40,34 pontos em uma escala de zero a 50, um patamar elevado dentro da avaliação sensorial da competição. Já no 14º Concurso Brasileiro de Cerveja, em Blumenau (SC), vieram outras 11 medalhas.
*Sob supervisão da jornalista Juliana Bublitz.






