O entrevistado da semana no Paralelas é um homem da ciência: o neurologista Jaderson Costa da Costa.
Médico e diretor do Instituto do Cérebro da PUCRS, o médico pesquisa o uso de células-tronco em doenças neurológicas, acumula distinções nacionais e internacionais, 50 anos de docência e 46 livros publicados.
A entrevista ocorreu no South Summit Brazil e já está disponível na íntegra. O Paralelas tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.
Leia a seguir trechos da entrevista.

Temos terceirizado a memória cada vez mais para o telefone celular. Nem o número de familiares sabemos de cabeça. Estamos empobrecendo nossos cérebros?
Penso o contrário. Fazemos muito bem (em terceirizar a memória). Temos de terceirizar o que pode ser terceirizado. Não podemos terceirizar nossa humanidade, empatia, criatividade, isso não. Agora, terceirizar a agenda... Olha, eu tive de decorar a tabuada. Eu não usava calculadora, porque não tinha. Hoje, seria insano fazer cálculos matemáticos sem utilizar a computação. Não precisamos ocupar a mente com tarefas que podemos terceirizar.
E a tal ginástica cerebral? É importante? Isso existe mesmo?
A ginástica cerebral é um termo que faz uma síntese, que torna compreensível o processo. Sabemos que precisamos nos exercitar, porque é bom para a saúde, para o corpo, para os músculos. Todo mundo entende isso, porque a atividade física é conhecida da humanidade. Com o cérebro, é assim também. Você tem de ativá-lo, colocá-lo à prova, buscando novas atividades. O erro que se comete é pensar que a gente ativa o cérebro fazendo sempre a mesma coisa.
Tipo palavras cruzadas?
Eu acho que essa é uma coisa menor. A função que mais estimula o cérebro é imaginar. Vamos pegar como exemplo a leitura e os filmes. A gente costuma dizer, quando vê um filme depois de ler o livro, que o filme é inferior ao romance. Por quê? Porque no romance eu idealizei as pessoas, os personagens, no filme, não. A imaginação é a coisa mais fantástica que existe.
É importante exercitá-la?
É importantíssimo. Por isso que eu digo: não é fazer mais do mesmo, entende? Se eu resolver tocar violino, que eu não sei tocar, vai ser um desafio enorme para o meu cérebro e vai ser extremamente estimulante.
Então a dica é fazer coisas diferentes, desafiar o cérebro?
Exato. Tenha novas experiências, se desafie. Não tenha receio, medo de críticas. “Ah, mas eu não pinto bem, eu nunca vou tocar bem...” Mas se desafie, isso é bom, entende? É a mesma coisa que o exercício para o corpo. Se estou aposentado e ficar apenas parado na frente da TV sem me desafiar, estarei pedindo para me complicar.
O que mais podemos fazer para ter um cérebro saudável?
Atividade social. Isso é fundamental. A outra coisa é: mexa-se. Não precisa ser um super atleta, não é isso que eu estou falando. Não fique sentado, suba a escada, caminhe, mantenha-se ativo. O resto são os cuidados de vida, como eu digo. Pressão arterial, diabetes, obesidade... Você tem de gostar de si mesmo.
A inteligência artificial vai substituir o cérebro humano?
Essa pergunta é fundamental, mas não se preocupem. Não vai substituir. Ao longo de 50 e tantos anos, já vi tantas ameaças... o computador, a internet, o celular, a biologia molecular, o genoma, mas nós passamos por todas essas coisas e conseguimos discipliná-las. O que nós temos de nos preocupar é com a nossa humanidade, com aquilo que nos torna humanos. Isso não podemos perder.
Em que pé está a ciência hoje em relação à doença de Alzheimer, que tanto tememos?
O Alzheimer acompanha o envelhecimento. Antes, a doença praticamente não existia, porque as pessoas morriam mais cedo. Mas o que é o Alzheimer? É quando as células vão envelhecendo e acumulando dentro delas uma proteína tóxica. Até então, os únicos medicamentos que se tinha eram para evitar que a deterioração fosse mais acentuada. Nos últimos cinco anos, estamos assistindo a uma revolução, com tentativas de cura. Fazendo o quê? Removendo essas substâncias. Hoje, na fase precoce, a doença já pode ter sua evolução bloqueada.





