
Philipe França Philippsen, o Lipsen, é praticamente um ponto turístico de Porto Alegre.
Há quase 15 anos, todo domingo, ele encanta o público com a gaita, tocando música pop (de Lady Gaga a Fred Mercury) como gaiteiro do Brique da Redenção.
Lipsen é o convidado do Paralelas desta semana. Falamos sobre como ele começou na arte de rua e muito mais: afinal, que é o gaiteiro quando não está tocando gaita?
O Paralelas tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia no YouTube de GZH e no Spotify.
Veja a íntegra
Porto Alegre quer ser turística. O gaiteiro do brique tem tudo a ver com isso, né?
Muita gente pensa que meu show no brique atinge apenas pessoas das redondezas, mas, desde que comecei, tem um público enorme de fora da cidade e do Estado e inclusive de fora do país. Faço parte de um cartão postal. Quando alguém vem para cá, qual é o primeiro programa? O brique. Ando pela cidade e não tem um dia na minha vida que alguém não diga: “Tu é o cara que toca Lady Gaga na gaita!”
Como começou?
Me formei em teatro, juntei uma grana e fui para Nova York, levando a gaita comigo. Na primeira vez que toquei na rua, não engrenou. Voltei, e lembro de estar tocando de olhos fechados, com a cabeça encostada na gaita, para dentro, quando uma menina disse: “Posso dar um conselho? Não fecha os olhos. Abre o olhar, sorri para as pessoas, tu vai ganhar mais dinheiro.” Foi uma virada de chave. Despertou o ator que já existia em mim. De repente, me vi jogando com as pessoas, olhando no olho delas, improvisando.
E no Brasil?
Quando voltei ao Brasil, percebi uma diferença. Sempre que toquei nos EUA, na Alemanha, na França, era assim: a pessoa passava, filmava um pouquinho, botava dinheiro no chapéu e ia embora. No brique, não. As pessoas ficam e querem ser entretidas durante uma hora e meia. Daí tive de começar a ter piadas e texto. As pessoas são receptivas de um jeito que não vi fora daqui.
O que explica isso?
Acho que tem a ver com a nossa língua mãe, o português, com o sotaque porto-alegrense, e eu tenho cá para mim uma outra suspeita. Sempre me inspirei em Tangos & Tragédias, e as pessoas inclusive falam que eu me pareço com o Nico Nikolaevsky, o que é uma honra. Então, acho que tudo isso faz sentido em Porto Alegre.
E a gaita, como surgiu na tua vida? A maioria associa o instrumento ao universo tradicionalista, e não à música pop, como é no teu caso.
Eu já tocava piano. Aí, participei de um espetáculo teatral e precisávamos de algo diferente. Lembrei que na casa dos meus avós tinha uma mala que eu não podia mexer quando era criança, um instrumento cheio de botões. Fui atrás e encontrei a gaita. Aprendi a tocar sozinho. Às vezes, alguém pede: “Toca uma bem gaudéria!”.
E aí?
Aí eu tenho de dizer: “Olha, gaiteiros que tocam música gaudéria têm vários, e eu respeito todos. Mas Lady Gaga só eu que toco.” Eu não vou lá no Acampamento Farroupilha pedir “toca Beyoncé”. As pessoas riem. Sou um homem gay tocando músicas pop no acordeom, como Lady Gaga, Fred Mercury e Cazuza. Entendo que estou trazendo um universo que não é típico, mas, como ator de teatro de rua, acredito que o acordeom é um instrumento mambembe. Tem um meio termo onde eu me encaixo.
Já sofreu homofobia?
Nunca. Acho muito importante que as pessoas vejam a bandeira LGBT no meu figurino, no meu cartaz, tocando músicas da cultura pop, de artistas LGBT. Acho incrível que as pessoas estejam ali, famílias inteiras me aplaudindo, me amando, durante uma hora e meia, que é o tempo que dura o meu show. E eu penso assim: um dia, talvez, essa família vai ter um filho que vai dizer “pai, eu sou gay” ou uma filha que vai dizer “mãe, eu sou trans”, e eu quero que eles lembrem que já amaram um artista gay, sabe? Quero que tenham uma referência positiva.
O que te faz voltar ao brique todos os domingos?
Enxergo muita beleza no que faço e saio muito feliz. Acho que nunca disse isso numa entrevista, mas tenho a sensação de que saio do brique com uma fina camada de algo muito mágico. Tem algo de muito potente nesse encontro. Faço porque gosto.





