
Um recorte de jornal quase escondido no fundo do salão dá uma ideia do lugar: preservado pela moldura, o texto apresenta o que chama de "um pedaço da Andaluzia" em Porto Alegre. As fotografias e os cartazes que o ladeiam na parede formam o mosaico de uma história de amor e pioneirismo da escola, companhia de dança flamenca e bar Tablado Andaluz, que em maio completa 35 anos.
— Daqui saíram os grandes bailarinos do Brasil. A gente criou o mercado até como uma metodologia de ensino — conta Andrea Franco, fundadora do Tablado e diretora da escola.
Aos 60 anos, ela organiza uma série de eventos para celebrar o aniversário da casa. A ideia inicial era festejar as três décadas, mas a pandemia adiou os planos. O destaque é a publicação de um livro com episódios marcantes dessa trajetória, e um novo espetáculo de dança com alunos.
— Quero fazer um livro de memórias e junto contar a história do flamenco no Brasil. Como ele é conhecido hoje tem muito a cara do Tablado — garante.
Trajetória
Descendente de espanhóis, Andrea dançava balé clássico desde pequena, mas seu sonho era o sapateado. Conheceu o flamenco nas aulas do bailarino Robinson Gambarra, que depois virou seu marido e sócio na fundação da escola. Do casamento, que já se encerrou, nasceu o filho Pedro Souza, também bailarino e com quem hoje ela divide a sociedade do espaço.
— Quando fui registrar a casa na junta comercial, descobri que era a primeira escola de dança flamenca registrada no Brasil — afirma a bailaora (como são chamadas as bailarinas de flamenco).
Foi no momento certo. Quase cinco anos depois, a TV Globo exibiu a novela Explode Coração, de Glória Perez. Com a personagem Dara, interpretada por Tereza Seiblitz, a produção acendeu o interesse nacional pela cultura cigana e promoveu um "boom" do Tablado.
A primeira sede ficava na Avenida Osvaldo Aranha. A transferência para o ponto atual, na Venâncio Aires, 556, no bairro Farroupilha, ocorreu em 2011.
Manifestação cultural
Nascido na Andaluzia, extremo sul da Espanha, o estilo tem a paternidade compartilhada entre as cultura cigana, judaica e árabe. Une música vocal, acompanhamento e dança, chamados de cante, baile e toque. Por muitos anos, era ensinado no Brasil apenas em centros de cultura espanhola – até a fundação do Tablado, conta Andrea.
Assim como o flamenco, o Tablado é uma mistura: reúne escola, companhia de dança, bar e até um serviço de entrega de paellas, prato típico espanhol, preparadas pela própria Andrea. Porém, acima de tudo, diz a diretora, é uma família:
— É muito familiar, as relações são muito importantes. A gente não tem um perfil que se encaixe muito numa coisa ou na outra.
Ao longo dessas três décadas e meia, a escola chegou a ter duas filiais, em Caxias do Sul e Novo Hamburgo. Ex-alunos já construíram carreiras internacionais, ganharam bolsas do balé nacional espanhol e dirigem escolas dança no país ibérico.
Hoje, Andrea dá aula para cerca de 50 alunos em duas salas de aula anexas. Uma delas, inclusive, fica na parte de trás do terreno, onde Andrea reside. Toda sexta-feira, o Tablado tem a apresentação Noches Flamencas. Nos demais dias, a casa realiza outros eventos, com reservas especiais e shows.
Há quem diga que o flamenco é a dança da paixão. Andrea concorda, mas esclarece:
— Não é só amor, não. É dor também. Bastante dor. O flamenco fala muito das dores da humanidade.
*Sob supervisão da jornalista Juliana Bublitz.




