
Passados pouco mais de 40 dias desde que aceitou o convite do governador Eduardo Leite para liderar a Fundação Theatro São Pedro, Luciano Alabarse recebeu a coluna em sua sala no Multipalco, em Porto Alegre.
Foi uma conversa franca, na última terça-feira (6), atualizada na quinta-feira (9) por telefone (devido a reforços no número de servidores), sobre a atual situação do complexo cultural, a crise que culminou na exoneração do ex-presidente, Antonio Hohlfeldt, e o futuro do espaço, incluindo a reabertura do Theatro São Pedro.
Qual é a situação do Multipalco hoje?
Tem ajustes a ser feitos, mas a equipe está muito atenta, muito ligada e muito disposta.
Ajustes de pessoal?
Ajustes de funcionamento. A obra de um teatro nunca acaba quando é inaugurada. Tive uma reunião agora com os 12 técnicos, que atuam nos bastidores do Multipalco, para falar justamente da necessidade de manutenção. Eu trouxe de volta o André (André Hanauer de Freitas), que chamo de capitão. É um alicerce. Ele era o técnico de referência do São Pedro nos tempos da Dona Eva. O André foi dispensado lá atrás, e não me cabe julgar a saída dele, mas cada grupo teatral passou a ser responsável por trazer seu próprio técnico. Isso não é bom, porque desorganiza, detona, esculhamba. Minha ideia de teatro é: temos de ter a equipe de cada sala com excelência de atendimento.
E tem pessoal suficiente para isso?
Sim. Estou com 12 técnicos e agora com o André para os dois teatros (Olga Reverbel e Simões Lopes Neto). É suficiente para o Multipalco. Não tem essa urgência toda que a imprensa faz parecer (o São Pedro será reaberto apenas em novembro).
Mas, com a reabertura do São Pedro, vais precisar de mais gente, certo? Essa foi a questão levantada pelo Hohlfeldt que acabou gerando a crise em novembro.
O Antonio é meu amigo há 40 anos. Eu conheço bem as virtudes e os defeitos dele. Ele fez um belo trabalho aqui, tem muitos méritos. Seguimos nos falando quase todos os dias. Não estou aqui para corrigir o Antonio nem para brigar. Vou fazer o melhor que posso. Nesta semana, tive uma ótima notícia. Recebi quatro novos servidores para o quadro e mais dois virão na semana que vem, de outros órgãos do governo.
Já recebi novos servidores e outros virão. É uma resposta objetiva. Estou muito feliz com isso.
E há outras contratações no horizonte?
Sim, de mais oito ao longo do ano. O governo está cumprindo a promessa que me fez. É uma resposta objetiva. Aos poucos, vamos resolvendo as coisas. O que posso dizer é que não sinto isso de “ah, não me dão bola”. Não é assim. “Estão surdos”. Tudo depende de costura. Acredito que conversando a gente constrói. Não estou me fazendo de ingênuo, mas não sinto um clima desfavorável.
Como é que eu vou ser contra ou falar mal de um governador que foi quem deu o recurso para finalizar as obras do Multipalco? Esse é o governador que vai me negar pessoas e deixar as três salas desamparadas? Não acredito nisso. E não tem nada de ingênuo aí. São fatos. Este momento só está acontecendo porque a gente teve a obra concluída.
Foste bem recebido pela equipe?
Conheço todo mundo aqui há anos. Não teve essa coisa de ter medo ou de "será que vai dar certo?". Tem de dar certo. Acompanho o Multipalco desde quando era uma miragem, um projeto visionário, na cabeça da Dona Eva. Estou tranquilo e preparado. Sou da área e sei que uma mesa tem dois lados. Não dá para dizer que estou em estágio probatório (risos). Se vão gostar de mim ou não? Bom, tenho meu jeito de pensar a coisa artística, né? Tenho minha ideia de como deve ser um centro cultural. Sou sempre a favor dos grupos teatrais. A gente está aqui porque eles existem. Não é pelas lindas paredes.
Existe a possibilidade de terceirizar a operação do Multipalco ou parte dela?
Ninguém do governo me chamou para tratar desse assunto. Então, para mim, a resposta é não, porque eu não fui chamado para nada. Acho que tem tantas outras outras coisas nesse momento para pensar. Pode ser que um dia eu receba um telefonema e me chamem. Mas, até agora, ninguém do governo tocou no assunto comigo. E, se me chamarem, vou dizer isso: não é o momento. O momento agora é de abrir, de fortalecer e de deixar tudo azeitado. É para isso que eu vim, para tirar essa ideia de que a gente não consegue administrar um complexo cultural como esse. Eu acho que a gente consegue e não me sinto nem um pouco pressionado em contrário.
Algumas pessoas da classe artística mais à esquerda criticaram a tua escolha, porque acreditam que foste escolhido para abrir caminho para a "privatização", pois trabalhaste com o ex-prefeito Nelson Marchezan Jr (associado ao liberalismo e ao Estado mínimo). Como tu lidas com essas críticas?
Com tranquilidade. Se nem Jesus teve unanimidade, como eu vou ter? Acho que as pessoas têm de ter espaço de crítica, mas separo bem. Quando é uma crítica construtiva, sou parceiro. Agora, quando vêm mentiras, não contem comigo. Já estou um pouco anestesiado. Não perco mais meu tempo com isso.
Com a questão política?
Com a política partidária. Eu não suporto mais a direita. E a esquerda, a raiz, está ficando difícil.
Dona Eva ensinou a ter persistência e a não se deixar contaminar por ranços ideológicos.
Quais são os planos para a reabertura do Theatro São Pedro? Já pode falar da programação? Qual será a cereja do bolo?
O Brasil vai ter estreias extraordinárias este ano. Então, espetáculos de excelência não vão faltar para fazer parte da programação. Estamos trabalhando nisso, mas ainda não está fechado. Tem o Torto Arado (musical inspirado no aclamado livro de Itamar Vieira Junior, com sessões esgotadas por onde passou), por exemplo, que, por incrível que pareça, ainda não veio a Porto Alegre, e o Medea (de Sêneca), do Gabriel Villela (com as atrizes Walderez de Barros, Rosana Stavis e Mariana Muniz, que estreia dia 29 de janeiro em São Paulo). Teremos uma programação de excelência, acessível e plural.
Que marca queres deixar na Fundação Theatro São Pedro?
Quero conversar com a classe artística local e abrir canais. Tem tanta sala aqui, é inacreditável. O Multipalco é quase uma fortaleza de arte e cultura. Algumas vezes, ouvi que era inacessível para a classe local, porque é muito caro um aluguel, enfim, por uma série de coisas. Então, esse é um um caminho a ser construído junto. De algum jeito, a gente tem que estar junto com eles. Temos grandes mulheres, por exemplo, à frente de espaços alternativos. Vou chamá-las.
Quem? Pode citar nomes?
Claro. A Adriane Mottola, do Estúdio Estravaganza. A Patrícia Fagundes, da Zona Cultural. A Simone Rasslan, do Galpão Floresta Cultural. Tem muita gente boa. A Camila Bauer, que há pouco dirigiu uma ópera lindíssima.
O Multipalco tem salas ociosas?
Não, tem os residentes (Companhia de Ópera do RS, Orquestra Theatro São Pedro e ONG Sol Maior, além de projetos do Instituto Estadual de Artes Cênicas), mas passei o último ano indo muito a esses teatros alternativos, vendo a batalha dessas mulheres. Quero estar junto nisso. Essa é uma das metas: conversar com a classe teatral e abrir mais as portas do Multipalco para todos. Acho que isso é o que se espera de um centro cultural desse porte, é o sonho da Dona Eva, com tantas salas de ensaio e de apresentação. E pode ser feito imediatamente, sem burocracia, sem protocolo, só não quero fazer sozinho.
É a coroação dos teus 50 anos de carreira?
É uma satisfação, porque foi para isso que vim ao mundo.
Qual é a importância do legado da Dona Eva nessa missão?
O legado da Dona Eva é importantíssimo. Não podemos esquecer do legado dela. O legado da Dona Eva não está ultrapassado, não tem prazo de validade. É eterno. Ela ensinou a seguir em frente sempre, a ter persistência e não se deixar contaminar por ranços ideológicos.




