
Fazia tempo que eu tentava levar o ator Tarcísio Filho e a diretora Mocita Fagundes ao Paralelas. Finalmente, aconteceu - e foi demais.
Falamos sobre carreira, casamento, filhos, Tarcisão e Glória Menezes (que é pelotense) e novos projetos, incluindo o “áudiolivro” Um Certo Capitão Rodrigo (de Erico Verissimo) gravado por Tarcisinho.
O Paralelas tem novos episódios toda sexta-feira ao meio-dia. É só acessar no YouTube de GZH ou no Spotify.
Veja o episódio na íntegra
Como é esse amor à distância?
Tarcísio: Pois é, agora ela deixou de morar em Porto Alegre e eu de morar no Rio ou em São Paulo, porque agora ela também mora no Rio e em São Paulo e eu também moro em Porto Alegre.
Mocita: o Tarcisinho gosta de Porto Alegre, né? Eu gosto muito.
Tu te consideras gaúcho?
Tarcísio: Fiz muitos personagens gaúchos e fiquei muito amigo de muita gente aqui. Acabei fazendo filmes aqui. A cidade me adotou, eu adotei a cidade. Como diz o Werner Schünemann, “o Tarcísio não é gaúcho, mas não é culpa dele” (risos) Ele fala que sou um gaulista. Então, me considero gaulista, gaúcho paulista.
Mocita: Quando estamos aqui, a gente circula e ele recebe um carinho absurdo. O pessoal curte muito a presença dele. É o nosso general Neto (personagem que ele interpretou em A Casa das Sete Mulheres, da TV Globo).

E agora tu gravas com tua voz uma obra clássica do Erico Verissimo. Como foi isso?
Tarcísio: Me deu muito prazer, era um projeto antigo, e com a aval da família Verissimo, né? Eu sempre quis fazer. Um dia, acordei e falei assim “cara, eu tô deixando uma bola quicando aí, quero fazer O Tempo e o Vento inteiro”. Me deu esse clique. Entrei em contato com a família e, graças a Deus, todo mundo curtiu a ideia, se não eu não faria. O Luis Fernando ainda estava entre nós, estava vivo. E eu fiquei feliz, porque gravei o primeiro capítulo como teste, mandei para eles e recebi o aval definitivo. Aí eu segui fazendo. Prestei muita atenção e não adulterei em absolutamente nada, nenhuma vírgula, o texto do Erico.
Nada? Nem um caco?
Tarcísio: Nada.
Mocita: É uma coisa que me emocionou. Eu não tinha o costume de ouvir livros, e a gente, claro, tem intimidade com a obra. Eu coloquei para tocar no carro e fui me envolvendo, porque o Tarcisinho fez um tipo de locução muito diferenciada. Ele é muito respeitoso com a obra e bota um molho em cada personagem.
Tarcísio: E é muito difícil, porque o primeiro impulso do ator é fazer a cena. Eu não quero fazer a cena. Aí é que está o negócio, eu quero ler a cena. Não é uma leitura dramática, é uma leitura literária.

E o Capitão Rodrigo, tema da obra, foi o grande personagem do teu pai, né?
Tarcísio: Sim, eu acho que foi um dos grandes personagens do pai.
Tu te orgulhas?
Tarcísio: Eu já gostei na época. Como eu era muito jovem, tinha 19 para 20 anos, fiquei muito feliz que o pai ia fazer esse personagem, não apenas porque meu pai ia fazer, mas porque eu ia ter a oportunidade de andar em Santa Fé e de conhecer todos os outros personagens, entendeu? Eu já era fã de carteirinha.
E tu foi junto, participou de tudo?
Tarcísio: Mas claro, tem um documentário que eu fiz, em VHS. Tenho horas de gravação de O Tempo e o Vento. Inclusive conheci o Nico Fagundes, tio desta daqui (apontando para Mocita). O tio Nico foi consultor histórico da série. Foi consultor histórico e de gauchismo de Capitão Rodrigo, de um paulistano, meu pai. Ele ficou na minha casa uma semana.
Como é a vida, né? Hoje, vocês estão juntos...
Tarcísio: Aí fui conhecer a Mocita 40 anos depois.
Como vocês se conheceram?
Mocita: Por amigos em comum, pela internet. Tinha um negócio primitivo chamado ICQ (tipo Whats de antigamente). Foi 18 anos atrás. A gente passou um ano conversando até rolar o match.
Tem gente que acha que, depois dos 40, 50, não dá mais para recomeçar, para achar um grande amor.
Tarcísio: É, quando a gente se conheceu, eu já tinha o quê? 43, 44? Vindo ambos de separações.
Mocita: É um amor mais tranquilo, né? Muito mais confiante. Eu adoro quando as pessoas dizem assim: "Ai, mas tu não tem ciúmes dele, esse homem lindo?" Eu digo: "Ciúmes do Tarcisinho? Mas esse homem é louco por mim, como é que eu vou ter ciúmes dele?" Então, é um amor muito legal, é um amor pra sempre, né? Eu nunca vou esquecer quando o Tarcisão me conheceu.
Como foi?
Mocita: Tarcisão foi a primeira pessoa da família Meira que eu conheci, né? Depois eu fui conhecendo a irmã, a última foi a Glória, que estava em turnê nacional com a peça Ensina-me a Viver. Um dia, quando o Tarcisinho foi me buscar no aeroporto, ele ligou para o Tarcisão e falou assim: "Pai, bota uma roupa bonita que eu estou levando a gata para você conhecer." Fiquei num nervosismo, não estava acreditando que ia conhecer o Tarcísio Meira (falecido anos depois, em 2022). Quando o Tarcisinho abriu a porta do apartamento, o Tarcisão estava sentado bem na frente, lá no fundo do corredor e abriu um sorrisão. Acho que ele ficou me analisando um pouco, eu fiquei muito desconcertada, mas feliz, emocionada. Aí, no final, ele olhou para o Tarcisinho, tranquilo, e disse assim: "Meu filho, achaste a tua Glória." Quando ele falou isso, eu desmontei. Ele e a Glória foram um presente na minha vida.
Que ensinamentos vocês levam do Tarcísio e da Glória?
Mocita: O Tarcisão e a Glória sempre me passaram uma imagem familiar importante. Acho que o grande ensinamento da família, do casal, é a relação de amor, é a relação de família, e é uma coisa de simplicidade.
Tarcísio: Teve um momento que eles foram os Beatles do Brasil. Tinha uma época, nos anos 1970, que era uma loucura, eles literalmente não conseguiam andar na rua. Mas nunca se deixaram levar por esse lado fascinante da profissão. Eles sempre tiveram o pé muito no chão humanamente. Eles gostavam muito de gente. Acho que isso acabou transparecendo muito. A relação que eles tinham com o público era muito especial, por isso, quando o pai faleceu, eu senti o público um pouco órfão de meu pai junto comigo. Por isso eu quis dar uma entrevista no Fantástico na época (em 2022), porque a gente estava em meio a uma grande polarização...
E o teu pai faleceu de Covid.
Apesar de ter tomado a vacina. Ele tinha comorbidades, estava com a saúde muito frágil. Era uma pessoa que fumou muito, tinha problemas pulmonares, já era um homem de 85 anos. Eu resolvi falar, porque eu fui acarinhado por todos os espectros. Eu vi que a humanidade e o amor que as pessoas tinham por aquela pessoa independiam de que lado da cerca eles estavam. Achei isso muito comovente.
Como é que tá a Glória hoje?
Tarcísio: Nossa, Glória, meu Deus, está tudo certo. A mãe tá com 91 anos. Está "no bico dos 92", como ela diz. Ela sempre foi uma mulher muito energética, muito forte, e deu uma acalmada. Virou uma senhora mais tranquilinha, sabe?
E, segundo a Mocita, cada vez mais gaúcha?
Mocita: Totalmente gaúcha. Inclusive no sotaque.
Tarcísio: É engraçado, porque ela está virando a minha avó, a mãe dela. Ela está falando como a mãe dela falava.
E, aos 91 anos, ela aceitou muito bem teu filho trans, né, Mocita?
Mocita: Uma senhora de 91 anos. A Glória sempre foi uma mulher muito moderna. Mas na época... ter um filho transgênero, por mais liberal e afetiva que eu seja e eu sou, é passar por um luto. Eu precisei me desfazer daquela figura feminina que eu sempre tive em casa até os 18 anos de idade, para acolher o meu filho um novo, e a gente foi falar com a Glória sobre isso. Eu fui cheia de dedos: "Glória, sabe aquela pessoa que tu sempre conheceu como uma menina? Pois agora o nome dele é Théo", aí ela olhou assim e disse: "Legal!" Demorou cinco segundos para ela processar. Ela nunca mais errou o nome do Théo, o Théo vai pra lá com a namorada!
Tarcísio, como foi interpretar o General Neto?
Tarcísio: Foi muito bacana. Foi um momento bonito para todos os atores. Ali, fiz amizades para a vida inteira. O Jayme Monjardim (diretor de A Casa das Sete Mulheres) criou uma vivência daquele período e das coisas gaudérias 24 horas por dia, ao longo de um mês e meio, dois meses, antes de começar a gravação (...) Eu me divertia muito. Era uma brincadeira infantil desde o tempo dos Irmãos Coragem (novela ícone, com Tarcísio e Glória). Eu ia com meus pais naquela cidade cenográfica, eu gostava da brincadeira, do jogo cênico. Estava sempre me divertindo, lutando com os caras, ensaiando, aí o Jayme começou a reparar que em todas as cenas de batalha eu estava sempre muito sorridente e disse para manter isso, esse prazer...
Quem não era gaúcho virou?
Tarcísio: Sim, e, ao longo do processo, como eu estava absolutamente disponível, e, cara, se não fossem atores amigos, isso poderia ter dado até uma estranheza. Muito amigo, eu já tinha trabalhado muito com o Dalton. O Dalton estava viajando com peças de teatro na época, ele não podia estar ali o tempo todo.
Como é que vocês lidam com envelhecer?
Tarcísio: Qual é a opção? A opção é péssima (risos).
Mocita: Eu estou lidando com muito mais tranquilidade do que eu achei que eu ia lidar. Sempre fui muito ativa, muito intensa, muito ansiosa. Estou tentando, na vida profissional (Mocita é uma das mentes por trás da Mythago, produtora que tem feito filmes publicitários para grandes marcas no Brasil), eleger projetos diferenciados que possam me desafiar a fazer algo diferente, para não cair na mesmice. Estou há 40 anos dirigindo, adoro dirigir, como tu viu (Mocita filmou a última campanha "Vida", da RBS). Mas é bom abrir outras portas, né? Estou super aberta a novos projetos e não tenho medo de ficar velha, não. Acho que eu estou ficando uma velha bacana.
E tu ainda és maratonista!
Mocita: Vou correr em Paris este ano. Já corri em Nova York e fiz ultramaratona em Berlim (são 100km!).
Como vocês avaliam a vitória do Wagner Moura e do filme O Agente Secreto no Globo de Ouro?
Tarcísio: Toda vez que a cultura brasileira passa por um buraco na estrada, ela se revitaliza e ela volta mais bonita, mais forte, com gente capaz. Vem com um novo viço, sabe? Está aí o resultado. Quando você dá condições para as pessoas, elas vêm, cara. Elas vêm, porque a cultura nacional está sempre em ponto de fervura. É um baita do momento.
Mocita: E ele muito autêntico, né? Isso é muito importante.
Tarcísio: É um cara que está no momento certo também, com a carga certa na hora certa.
E quais são os projetos de vocês para 2026?
Tarcísio: Já está em pré-produção o próximo audiobook e Deus sabe o que mais virá. Sou um ator no mercado e estou para jogo, para qualquer negócio.
Mocita: Bom, 2026, para mim, vai começar com a Maratona de Paris. Vai ter a Maratona de Porto Alegre. E vai ter uma meia-maratona no Rio. Estou um pouco com preguiça de treinar, mas... eu me garanto, está tudo certo. E 2026 é um ano que eu, como diretora, estou com um desafio maravilhoso, um desafio aqui da casa (no Grupo RBS). Ainda não posso ficar dando muito spoiler, mas foi um convite carinhoso, um convite que envolve um projeto muito feminino, e isso também é muito bacana, a ideia me comoveu. A Mythago vai continuar bombando. Com certeza, vou fazer a direção geral de uma campanha política, porque eu gosto. Ah, e a gente vai casar em 2026! Tem mais essa.
De aliança e tudo?
Mocita: Sim, ganhei aliança semana passada.







