O jornalista Carlos Redel colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.
— Quando a gente estava construindo, um senhor, velho conhecido do Bom Fim, passou e perguntou: "O que que vocês vão fazer?". Aí, eu disse: "Vamos abrir um bar". Ele comentou que, no térreo, nos anos 1950, tinha um bar e que se chamava Extremo Oriente. E a gente tinha um monte de nome para dar para o nosso bar, mas quando ele disse aquilo, ficou óbvio. Decidimos fazer o Ocidente — diz Fiapo Barth, proprietário do famoso ponto entre a Rua João Telles e a Avenida Osvaldo Aranha.
A relação entre o Ocidente e Porto Alegre lembra aquelas amizades de longa data, em que as velhas e boas histórias sempre voltam para as rodas de conversa, mas, ao mesmo tempo, novas vão sendo criadas e entrando para o repertório. Afinal, são 45 anos juntos.
O bar, inaugurado em 3 de dezembro de 1980, era "uma brincadeira" de um grupo de seis sócios — a maioria, jovens recém-formados. A ideia era de que o lugar ficasse aberto por uns três anos e, depois, cada um seguisse com as suas carreiras. Só que o estabelecimento foi abraçado pelos porto-alegrenses e, até hoje, segue sendo uma referência cultural na Capital.
Mão na massa
— Ninguém esperava que o bar fosse perdurar. Com a grana curta, tivemos uma série de desafios para que o Ocidente continuasse aberto, desde as exigências dos bombeiros até a questão do isolamento acústico. Só que eu sou formado em Arquitetura, tinha que resolver esses problemas — recorda Fiapo.
E resolveu, colocando, muitas vezes, ele mesmo a mão na massa. Então, com o tempo, o Ocidente foi se adequando, aumentando, agregando. Ao mesmo passo, os sócios originais foram saindo, outros entraram no lugar. Mas, desde a última década, apenas Fiapo restou, após comprar as partes dos demais e decidir que era melhor seguir sozinho.
— O Ocidente, hoje, tem em torno de 30 funcionários, por causa do almoço de dia e das festas de noite. Além disso, tem mais toda uma equipe de segurança e de faxina, que é diarista. Então, no total, são umas 45 pessoas envolvidas. É bastante gente. Essa é a coisa que sempre me assustou em crescer. Muitas vezes, tenho saudade do Ocidente que era só uma escada, uma sala. Muitas pessoas dependem do bar e, nos últimos tempos, tivemos alguns percalços, como epidemia, enchente, entre outras coisas. Mas reclamo de barriga cheia, estamos indo bem — conta Fiapo.
Hoje, enxerga que o Ocidente é uma lacuna que Porto Alegre não consegue preencher. E, realmente, é difícil de imaginar um centro cultural como este, que agrega gerações que frequentam as mais variadas festas — a mais antiga é a Balonê, que ocorre na casa desde 2001, com destaque para as músicas dos anos 1980 e 1990, sempre no primeiro final de semana de cada mês. Agora, além de abrir as portas da casa para os eventos, Fiapo também está bolando baladas próprias.
— As casas, de modo geral, estão produzindo suas próprias festas de novo. Inclusive, estou começando a produzir algumas, mas ainda estou tateando, porque não sou um produtor, sou um arquiteto. Organizo o espaço para que as coisas aconteçam — diz Fiapo, ainda inseguro se essa nova empreitada vai dar certo. — E tem outra coisa: estou velho, não tenho esse círculo de amizades que frequenta festas.

Entre bar e filmes
Aos 72 anos, porém, Fiapo não demonstra cansaço pela idade. Firme à frente do Ocidente, volta e meia, ainda abraça outros projetos. E eles são bem famosos. O arquiteto de formação atua, desde os anos 1980, também, como diretor de arte de filmes gaúchos. É um grande parceiro do diretor Jorge Furtado, tendo assinado a maioria das produções do cineasta para a Casa de Cinema de Porto Alegre. Inclusive, em seu currículo, estão longas como O Homem que Copiava (2003) e Saneamento Básico - O Filme (2007), além de Muito Prazer, previsto para o ano que vem.
— Tenho um grupo de trabalho aqui no Ocidente que é excelente. Somos muito mais do que colegas. Temos uma ligação de amizade. E, a partir de um determinado momento, meus filhos já tinham idade para cuidar do bar enquanto eu ficava fora. Normalmente, para os filmes que a gente de roda em Porto Alegre, tenho que faltar no bar por umas três, quatro semanas. E ainda sobra algum horário do dia para passar no bar para ver alguma coisa — explica.
Além de lidar com o bar que tem uma agenda sempre cheia e com os filmes, Fiapo quis expandir mais os negócios. Recentemente, no térreo do prédio que abriga o Ocidente, o empreendedor comprou um ponto e montou uma lancheria, a Sub Ocidente. Com cardápio de sanduíches e drinks que homenageiam bares históricos do Bom Fim, o novo espaço está ali para a clientela fiel da casa ter onde comer depois das festas, mas, também agregar novos públicos, fazendo valer a licença do negócio, que permite o seu funcionamento por 24 horas.

Paredes com história
Fiapo não cogita, no momento, uma possível aposentadoria ou uma passagem de bastão para a filha Júlia Barth, por exemplo. A sua cabeça está pensando, é claro, nas festas: seja a de 50 anos do Ocidente, em 2030, como, também, na de 150 anos do prédio em que está instalado o bar:
— O prédio original do Ocidente, a casca da casa, faz 150 anos em 2027. Então, estou muito focado nisso. Essa casa estava aqui antes do Bom Fim. A única construção de alvenaria mais velha que é a capela do Bom Fim. A Redenção era um campo onde deixavam os bois que vinham para ser carneados na cidade. Quero que as pessoas percebam o valor histórico dessas paredes.
Esse resgate histórico também está ligado às comemorações de 45 anos do Ocidente. Uma promoção vai escolher as 45 fotos melhores dos clientes no local para celebrar o aniversário do bar e ajudar a remontar a linha do tempo do espaço, visto que, décadas atrás, não era tão fácil fazer os registros como hoje.
Por isso, se você tem algum registro de uma das noitadas no Ocidente, mande para ocidenteprodutora@gmail.com. As selecionadas ganharão cortesia para um evento em 2026 e, assim, serão criadas novas memórias, fortalecendo essa amizade.



