
O Paralelas podcast desta semana entrevista a jornalista, escritora (e corajosa) Fernanda Pandolfi. Ex-colunista Zero Hora, ela se aventurou em uma viagem pelo mundo depois de passar por um burnout no trabalho. Foram 270 dias de viagem, 37 países, cinco continentes e mais de uma centena de cidades.
Completamente transformada, Fernanda reuniu essa história toda em seu primeiro livro Quem é a estrada? (Vienense, 256 páginas). O gosto pelo universo da literatura veio para ficar e virou sua carreira de ponta-cabeça. Hoje, ela dá aulas de storytelling na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e é referência em clubes de leitura no Estado.
Conduzido pela colunista Juliana Bublitz, o programa vai ao ar toda sexta-feira no YouTube de GZH e no Spotify (segue lá!).
A seguir, leia trechos da entrevista.
Veja a íntegra do episódio
De onde saiu a coragem pra largar tudo e dar a volta ao mundo?
Acho que teve alguns fatores combinados nessa decisão. Eu me tornei colunista de Zero Hora muito cedo, com 25 anos. Pra mim foi muito legal, acho que é o que me coloca aqui hoje, inclusive. Mas teve um momento de esgotamento (...). Eu estava no auge da produção, mas eu comecei a ficar muito esgotada, muito cansada, e a minha vida pessoal estava totalmente abandonada.
Tu teve burnout?
Tive. Eu nem sei se a gente chamava, se a gente sabia o que era. Acordei no meio da madrugada e achei que minha língua estava inchada, que eu ia me sufocar com minha própria língua (...) tive uma crise de ansiedade e comecei a achar que ia morrer.
Foi quando eu pensei: "E se eu sumisse mesmo?". E aí um amigo meu, que tinha feito essa viagem ao redor do mundo, sugeriu que eu fizesse.
Como é pra uma mulher viajar sozinha? Passou por algum tipo de preconceito, correu algum risco por ser mulher?
Sim, teve. Eu passei por algumas situações e me coloquei em algumas situações em que hoje eu repenso (...). Eu era muito atenta à vestimenta do local, então se a mulher não podia mostrar o ombro, eu não ia mostrar o ombro. Isso é até um respeito à mulher. Cuidava com a vestimenta e com quem eu falava (...).
Tive uma situação na Turquia que foi o país em que eu me senti mais observada. Fiquei muito apavorada. Fui em um restaurante, um cara me pagou uma bebida e eu percebi depois que me passei na cota. Pensei em tudo que poderia ter acontecido depois disso, mas ainda bem que não aconteceu nada.
Ao longo de toda essa viagem tu escreveu muito. Como foi a transformação da jornalista em escritora?
Eu fui muito disciplinada. Me propus a escrever um texto por semana, como um diário, na época dos blogs. Escrevia sobre o que os lugares despertavam em mim e anotava dicas sobre os lugares.
E com base nessas escritas nasceu o livro Quem é a estrada?. Por que esse título?
Porque eu me dei conta de que o que fazia os lugares eram as pessoas. O que tornava um destino mais legal e mais interessante era quem tava lá, a maneira com que eu ia ser recebida, as experiências que eu ia ter lá, o que as pessoas iam me mostrando e como eu ia ser transformada pela vida dessas pessoas.
Depois do teu livro, tu fez essa transição e redescoberta do mundo literário, mas de um outro jeito. Como foi que tu te tornou referência em clube de livros?
Junto com a WAS, que é uma marca de alfaiataria feminina. Eles já tinham tentado fazer antes, mas não tinha rolado. Fizemos e foi um sucesso desde o início (em 2023). Aí eu comecei a pensar em maneiras que isso realmente pudesse ser meu trabalho. Sou muito feliz fazendo o que faço.
Hoje são nove clubes de leitura com quantas pessoas participando?
Sim, somos aproximadamente 300 pessoas, sendo 95% mulheres.
E por que os homens não estão em clubes de leitura?
Acho que os homens não leem tanta ficção, que é o que eu leio, e acho que eles não têm tanta necessidade de compartilhar (...). As mulheres usam o clube como espaço para encontro e troca de ideias, não somente para discutir sobre a literatura ou o autor que leram. E ter esse grupo, com outras pessoas, de outras realidades, abre tua mente, e isso é um fator também.
E qual é tua mensagem pra quem tem vontade de fazer uma mudança na vida mas tem medo?
Acho que o mais difícil é tomar a decisão do que de fato mudar. Às vezes, a gente fica remoendo por anos uma coisa que tá incomodando e no momento que tu toma a decisão parece que se abre um portal, e aí tu só cria os passos pra essa decisão criar forma. Mas pra trabalhar na tomada de decisão precisa de autoconhecimento, terapia e ver quais são os entraves que estão te colocando nessa barreira.
Produção: Guilherme Freling




