O jornalista Carlos Redel colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.

A cena é curta, mas, para os gaúchos que foram ao cinema assistir O Agente Secreto, não passou despercebida. Em um determinado momento do longa-metragem, durante uma tensa reunião — não daremos spoilers aqui —, uma personagem larga um "mas que barbaridade", com sotaque porto-alegrense carregado. E, depois, segue falando.
Pronto, uma filha do Rio Grande do Sul foi detectada em um filme que traz uma miscelânia de culturas. Mas, apesar do jeito de falar ser facilmente reconhecível, o rosto da artista ainda não é famoso. Ou não era. Afinal, ela está em uma produção que está rodando o mundo e deve figurar no Oscar 2026.
Vivendo Luanda, personagem que é colega de departamento de Armando (Wagner Moura), em O Agente Secreto, Rafaela Pavin nasceu em Passo Fundo há 49 anos, passou boa parte da vida em Porto Alegre e, hoje, mora em Olinda, em Pernambuco. Formada em Relações Públicas, atua há 28 anos na área de gestão cultural, mas nunca havia atuado — o que surpreendeu os seus colegas de cena.
— Wagner (Moura), a cada tempo, me cochichava: "Você tem certeza que você nunca atuou?" — conta Rafaela, que pontua o costume de Kleber Mendonça Filho de utilizar alguns não atores em suas obras.
O convite
A oportunidade de ingressar no elenco de O Agente Secreto surgiu a partir de um contato do diretor associado Leonardo Lacca, que lhe convidou para fazer um teste no filme. Dias depois, Rafaela enviou um vídeo e, 10 minutos depois, recebeu uma resposta: foi aprovada.
— Foi muito inusitado e muito rápido — ressalta. — Entre a aprovação e a filmagem, passaram-se, acredito, uns 20 dias. A filmagem de minha cena aconteceu em uma diária, e a locação foi a Universidade Federal de Pernambuco.
Rafaela pontua que, nas obras de Kleber Mendonça Filho, os sotaques aparecem como forma de reforçar a identidade dos personagens, mas, também, surgem como uma forma de ilustração das dinâmicas de poder. Mas, principalmente, que esses sotaques são reais.
— Acredito que essa pluralidade representa muito bem o que é o Brasil e o brasileiro. E a ênfase aos sotaques do nordeste colocam essa região no centro. Acho lindo. Representar a gaúcha foi, em primeiro lugar, muito realista, porque é o meu sotaque mesmo e, também, justo na minha cena, o Ghirotti (Luciano Chirolli) interrompe minha fala, demonstrando algum interesse pela minha origem. Como se ser do Sul tivesse mais crédito dentro das distorções de personalidade do personagem, tem essa demonstração dessas dinâmicas de poder — relata.
E Rafaela ainda enfatiza sobre a questão de, mesmo com uma cena curta, Luanda ter importância narrativa para que a história avance:
— Me encanta em O Agente Secreto que, apesar de ter inúmeros personagens, todos têm uma força única nos acontecimentos. Ninguém está ali à toa. É pura maestria de Kleber.
Repercussão
Se vendo em cena em um filme que está cotado para brigar por algumas estatuetas do Oscar do próximo ano, Rafaela acredita que O Agente Secreto é "mais intelectualizado" e "menos universal" que Ainda Estou Aqui, que faturou a primeira estatueta para o Brasil no ano passado. Mesmo assim, reforça que a campanha do longa de Kleber Mendonça Filho tem uma estratégia mais competitiva, o que o levou a Cannes, onde faturou três prêmios. Ou seja, uma visibilidade gigante.
— Ainda não tenho a dimensão do que é participar de O Agente Secreto. Foi tudo foi muito inusitado. O mundo inteiro conhecendo minha cara, muitas pessoas comentando o sotaque. Passo por alguns lugares e me chamam para comentar sobre o filme. Uma alegria, uma honra e algo totalmente novo. Eu não sou atriz, e faço logo minha primeira participação em um filme de Kleber, contracenando com Wagner, estreando em Cannes. Agora, estou aqui na expectativa do Oscar. É um baita portfólio, né? — finaliza Rafaela.
Com quase um milhão de espectadores, O Agente Secreto segue em cartaz nos cinemas nacionais. E é imperdível!




