
Foi especial. A família Verissimo me recebeu em casa para um bate-papo no escritório de Erico Verissimo (preservado e cheio de vida), na última quarta-feira, data em que ele completaria 120 anos.
Fernanda e Pedro, netos do autor e filhos de Luis Fernando Verissimo, deram entrevista ao Paralelas, meu podcast no YouTube de GZH e no Spotify.
Foram 50 minutos de uma baita conversa, sobre a relação com o pai e o avô, a perda de LFV, as histórias da família, o Inter e muito mais.
Veja a íntegra do episódio
A seguir, leia um trechinho da conversa.
2025 termina com a celebração dos 120 anos de Erico e com a perda de Luis Fernando. Como vocês estão nessa gangorra emocional?
Fernanda: Acho que essa gangorra, de certa forma, ajudou, porque, quando o pai morreu, em 30 de agosto, a gente estava começando esse semestre de comemorações, com viagens, celebrações pelo interior do Estado. Isso nos manteve ocupados.
Pedro: Ocupados e também amparados. As pessoas nos abraçaram. Virou um abraço coletivo.
Juntou tudo, né?
Pedro: Sim, mas eu me convenci de que que não fazia sentido lembrar do pai com tristeza. Era um cara leve. Então, fazer o quê? Como minha mãe falou, foram 61 anos deles de casados, de uma vida muito boa, de alegria, de amigos, de coisas muito bacanas.

Como foram os últimos meses do Luis Fernando?
Fernanda: Foi uma queda mais visível, mas o pai costumava dizer que era um milagre da ciência, porque, nos últimos anos, ele quase morreu várias vezes e voltou. Chegou a ver a reação das pessoas uma vez que saiu da UTI.
E como é, para vocês, ser filhos e netos desses dois ícones?
Fernanda: É tranquilo, leve, porque os dois eram personalidades que não se levavam muito a sério. Isso é uma lição.
Pedro: A gente já nasceu num ambiente onde nosso pai era filho de alguém. Já tinha um legado para levar. Nunca senti muito essa coisa de estar à sombra de um nome. Meu pai também não estava à sombra do meu avô.
Vinha muita gente famosa aqui nesta sala onde estamos?
Fernanda: Muitos escritores, atores. Tônia Carrero e Paulo Autran estavam sempre aqui. Era um tempo em que os atores faziam turnês longas. Vinham a Porto Alegre e ficavam um mês em cartaz. Então, acabava virando rotina: antes do teatro, davam uma passadinha para tomar um uísque com a minha avó (risos). Também lembro da Clara Nunes, do Paulo Gracindo... do Vinícius e do Toquinho fazendo show aqui.
Pedro: Tinha sempre um copo de uísque do Hotel Everest circulando na sala, até que um dia alguém se deu conta de que foi quando o Vinícius veio e trouxe o copo junto.


Como era o vô Erico? Ele contava histórias para vocês?
Pedro: Ele gostava de fazer mágicas. Lembro até hoje de um truque com um guardanapo e um copo que era impressionante.
Fernanda: Eram avós muito afetuosos (Erico e Mafalda) mas diferentes também, porque tinham a própria vida, eram muito independentes, viajavam, recebiam muito em casa.
Como foi voltar a Cruz Alta para as celebrações de Erico?
Fernanda: Foi incrível. Eles fizeram um trabalho bárbaro para celebrar o vô o ano inteiro. A Casa Museu (onde Erico viveu) está sendo reformada. É uma graça. Isso é importantíssimo.
E como foi viajar pelo Estado?
Fernanda: Andei por pelo menos 10 feiras do livro. Foi um carinho imenso, de leitores antigos e jovens também (...) Fiquei impressionada positivamente, porque a gente acha que ninguém mais lê, mas há um interesse real pela leitura. Muitos não tinham nem nascido quando o meu avô morreu e estão descobrindo o Erico. Voltei mais otimista.
Pedro: Erico é um autor que está muito vivo.
Luis Fernando tinha fama de tímido, calado. Ele era assim em casa também?
Pedro: Muito. Quieto, calado. As pessoas na volta diziam: “Ah, deve ser muito divertido viver com o Verissimo. O almoço deve ser uma farra!” Aí ele virava para a gente (Pedro imita LFV) e dizia: “Passa o sal” (risos).

E para o próximo ano, quais são os planos?
Pedro: Vamos seguir falando (no legado). Vêm de novidades por aí. Luis Fernando faria 90 anos em setembro de 2026. Pretendemos catalogar e digitalizar todo o acervo dele.
Fernanda: E vêm livros novos também. A Objetiva, que é a editora do pai, está com belos planos. As cobras (personagens de HQs de LFV), por exemplo, que muita gente pede antologia... E também tem coisas inéditas.

