O jornalista Carlos Redel colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.

Ser uma celebração às múltiplas dimensões da bailarina, cantora, figura queer e negra, carnavalesca e ícone da vida noturna underground de Porto Alegre. Este é o objetivo do espetáculo Brilhante: Nega Lu em Musical, que estreia nesta quinta-feira (27), às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre. Uma segunda sessão ocorre na sexta (28).
Com direção geral de Daniel Colin e direção musical de Juliano Barreto, a montagem é apresentada no ano em que se completa duas décadas da morte de Nega Lu. O espetáculo, então, busca enaltecer sua trajetória ao propor um diálogo entre o período em que ela viveu — passando pela ditadura militar e epidemia de AIDS — e a realidade atual enfrentada pela comunidade negra e LGBTQIAPN+ no Brasil.
— O maior desafio para nós sempre foi fazer uma homenagem para a Lu que fosse à sua altura: um espetáculo musical que atravessasse gerações e que fosse capaz de dialogar inclusive com quem, infelizmente, não a conheceu. Exaltar existências negras e LGBTQIAPN+ no Brasil tem sido uma forma de resistência e de afirmação para relembrarmos a todos que seguiremos vivos. E seguiremos unidos. E seguiremos felizes e festejando nossas vidas. Axé, bixa preta! Salve, Nega Lu! — diz Daniel Colin.
Vanguardista, Nega Lu teve presença constante nos espaços de cultura e resistência, nas primeiras edições da Parada Livre de Porto Alegre, na histórica boate Flower's — o primeiro point GLS da cidade — e no Doce Vício, onde também trabalhou como garçonete para garantir seu sustento.
Ela ainda fez história no Bar Copa 70, com suas interpretações viscerais de Summertime, bem como no Bar Alaska, na Esquina Maldita, reduto histórico da boemia e agitação política. Nega Lu nunca passava despercebida, desfilando de meia arrastão e salto alto, sempre usando um batom vermelho.
Coube à artista Ândy a missão de interpretar esta figura tão emblemática. E, logo que recebeu o convite, o primeiro sentimento foi o de medo, tamanha a responsabilidade. E o maior desafio, conta a protagonista do espetáculo, foi o de representar de forma humana um ícone, criando um contraponto com a imagem que a cidade construiu de Nega Lu, como uma figura marginal e boêmia que vivia metida em confusões.
— A maior característica dessa encenação é a apresentação da pessoa Nega Lu, o que é importantíssimo para a pessoas negras afeminadas, trans e não binárias. O resultado desse trabalho, que me alegra, nasceu do desafio de, acima de tudo, dar para a própria Nega Lu o presente de ser representada como um ser humano que, assim como nós, tinha família, perrengues, carências, paixões, sonhos e batalhas, além da gigante competência artística que Porto Alegre não soube reverenciar como deveria — comenta Ândy.

Aliás, no bairro Menino Deus, onde Nega Lu nasceu e morou, foi a primeira e única madrinha da Banda da Saldanha. Também foi solista no Coral da Ufrgs, cantora remunerada da Ospa, bailarina clássica e vocalista de rock e blues na banda Rabo de Galo. O musical também presta reverência às raízes ancestrais de Nega Lu como filha de Xangô, a herança do batuque e a força dos orixás que foram fios condutores de sua trajetória.
— A Lu transitou em vida por diversos ambientes musicais, do canto coral ao blues, do samba de carnaval à música de religião afro, até o canto erudito do coro sinfônico. Este foi o desafio da música, da dramaturgia, das coreografias: tentar fluir entre os estilos e os espaços como a Nega fluiu na sua trajetória, sem deixá-la no passado, misturando com o presente — diz Juliano Barreto, diretor musical e preparador vocal de Brilhante.
Serviço
- O quê: Brilhante: Nega Lu em Musical
- Quando: quinta (27) e sexta-feira (28), às 20h
- Onde: Teatro Simões Lopes Neto, no Complexo Multipalco Eva Sopher do Theatro São Pedro (Rua Riachuelo, 1089), em Porto Alegre
- Duração: 2h (com intervalo de 15min)
- Classificação indicativa: 16 anos
- Ingressos: à venda na bilheteria online do Theatro São Pedro



