O jornalista Carlos Redel colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.

É difícil encontrar algum jornalista que nunca tenha ouvido um "vai pra Cuba", seja raivoso ou, realmente, como uma sugestão de viagem. E, de tanto ouvir, o interesse acabou surgindo. E o que era um "quem sabe", no começo deste mês, virou realidade. Parti para a ilha caribenha ao lado da minha companheira, também jornalista, Kyane Sutelo, para entender, afinal, por que Cuba desperta tantos amores e rancores por aí.
De cara, é fácil entender o que encanta tanto alguns na ilha caribenha. O clima é agradável e, mesmo sendo quente, não é um calor opressor como o que nos aflige no verão gaúcho. Cuba te convida para sair à rua e conhecer a sua história.
Não faltam lugares que oferecem bons drinks em Havana, sendo mais barato beber do que comer — mesmo assim, um casal faz uma refeição com duas taças de bebida, em um restaurante como o famoso Doña Eutimia, por pouco mais de R$ 100. Com preços acessíveis, a capital de Cuba consegue atrair mais pessoas e tem o turismo como uma de suas principais fontes de renda.
O bar La Bodeguita del Medio, por exemplo, é parada obrigatória para qualquer turista. É neste local em que o escritor Ernest Hemingway gostava de tomar os seus mojitos. E um copo da bebida sai por pouco mais de R$ 10.
Em Havana, das praças de la Revolución, Vieja, e de la Catedral ao tradicional passeio de carro conversível — o nosso foi um Buick 1960 vermelho bem sofrido, visto que não é fácil levar automóveis novos para o país — foi uma viagem ao passado. Inclusive, canhões das épocas de guerra estão encravados nas ruas como postes de amarração.
Impressiona pelo esforço de manter a memória de outros tempos — dos tão celebrados por lá Fidel Castro e Che Guevara, que têm suas fotos e frases espalhadas por todos os cantos —, mas também faz questionar: e o futuro?
Outros tempos
Enquanto voltávamos de um passeio por Havana, uma criança chega na janela do táxi e pede algum trocado. O motorista diz que não tem nada e, assim que o semáforo abre, lamenta:
— Isso jamais aconteceria na época do Fidel (Castro, ex-presidente e líder revolucionário). Criança, para ele, só tinha que estudar.
A educação ainda é um dos pilares em Cuba. As crianças precisam estudar e ganham uniformes e alimentação, garantem moradores.
Porém, também dá para entender por que o lugar desperta indignação. O cenário político da ilha vem piorando com o passar dos anos — inclusive, com alegação de que o presidente comunista Miguel Díaz-Canel, sucessor de Raúl Castro (irmão de Fidel), é "distante" de seu povo.
A idolatria aos feitos de Fidel e Che Guevara, heróis da pátria, para outras gerações, já começa a ficar limitada ao passado longínquo. Ouvimos, mais de uma vez, algum prestador de serviço dizer que as escolas martelam bastante na revolução, em como o país barrou a invasão dos Estados Unidos, mas não se aprofundam no que houve depois. Os jovens, hoje, mesmo com acesso restrito à internet, pesquisam, informam-se por outros meios e, claro, questionam.
Fechada
O embargo comercial, econômico e financeiro ao qual a ilha está sujeita por parte dos Estados Unidos desde a década de 1950 — com períodos de mais ou menos restrições — e, também, a presença na lista de patrocinadores estatais do terrorismo nos últimos anos influenciam, de acordo com os locais, diretamente para que o país não consiga se desenvolver.
Na Cuba de 2025, então, faltam fertilizantes e maquinário para plantar alimentos. Quase não existe gasolina nos postos — deixando, por exemplo, os caminhões de coleta de lixo parados e pilhas de resíduos pelas esquinas. Outro problema é a dificuldade para se conseguir insumos para produção de remédios. O assédio de cubanos a turistas em busca de um simples Paracetamol dá um nó no estômago.
A pandemia de covid-19 foi outro baque para Cuba, uma vez que fez com que a ilha, muito dependente do turismo, ficasse fechada por quase dois anos, intensificando a crise. Além da população, quem ajudou a entender melhor o cenário local foi a jornalista carioca Cristiana Mesquita, diretora da filial cubana da Associated Press, que está no país há quatro anos, mas já visitava a nação desde 1994 a trabalho, e viu as mudanças ocorrendo:
— Com o salário mínimo, os cubanos não conseguem viver. A comida subsidiada, da libreta (uma espécie de cesta básica fornecida pelo governo), já não cobre uma família pelo mês inteiro. Então, hoje em dia, você vê muitos idosos na rua pedindo. Alguns dependem de ajuda de parentes fora, que mandam dinheiro.
A remuneração mínima no país gira em torno de US$ 20 — pouco mais de R$ 100 —, o que leva a outra realidade em Havana, a informalidade. Com a escassez de gasolina, um dos caminhos é oferecer o trabalho de "bicitáxi", um triciclo para carregar turistas. Fizemos diversas viagens dessas pela capital cubana, já que é o meio de transporte mais comum por lá. Um dos ciclistas contou que deixou o seu trabalho como salva-vidas para pedalar, pois o salário não era suficiente para o sustento.
Nos museus da cidade, que são mantidos pelo governo, muitos setores permanecem fechados por não haver funcionários para cuidar, pois não é mais um trabalho que atrai os cubanos. Alguns começaram a colocar barraquinhas pelas ruas para vender frutas e verduras que plantam de maneira independente.
Mas, se a necessidade está presente para a massa da população na ilha caribenha, será que não existe a chance de tudo descambar para a violência? Questionei a colega da Associated Press. Ela me contextualizou a realidade de repressão e rigidez do país:
— Quando eles tiveram a manifestação contra o governo, em julho de 2021, foram presas 800 pessoas. A média das sentenças, apenas por se manifestar, foi de 20 anos. Você acha, mesmo, que a população iria partir para a violência?
Sobre o futuro da ilha, a inquietação do meu olhar de turista é compartilhada pela colega — infelizmente, sem uma saída à vista:
— Não é possível que eles (os governantes) não estejam vendo o que está acontecendo. Fica na tecla do bloqueio, bloqueio, bloqueio, bloqueio. Mas, quando vou às coletivas de imprensa, sempre pergunto: "Qual é o plano B?". Afinal, esse bloqueio não vai ir embora. Obviamente, eles não têm um plano alternativo.
Paraíso
Se Havana acaba refletindo para o visitante a realidade difícil do país, ao chegar na praia de Varadero, Cuba se mostra um pedaço do paraíso. A areia branca, com a água cristalina e morna, com passeios aquáticos e cerveja Cristal — a mais famosa pelas bandas de lá — sempre gelada oferecida pelo resort onde nos hospedamos fizeram com que os últimos quatro dias de viagem fossem espetaculares. A sugestão "vai pra Cuba" valeu a pena.
E para os "gateiros", ainda tem um plus: o país é recheado de gatos.

