
Cantor e compositor nativista, Pirisca Grecco está prestes a enfrentar o maior de desafio de sua carreira de três décadas: interpretar o payador Jayme Caetano Braun na ópera.
Assinada por Vagner Cunha, com libreto (texto cantado) de Renato Mendonça, direção cênica de Carlota Albuquerque e direção musical de André dos Santos, Em busca das paisagens perdidas vai celebrar o centenário do poeta gaúcho falecido em 1999, unindo o popular e o erudito de forma inédita no RS.
A estreia será neste sábado (25), no Teatro Simões Lopes Neto, com nova sessão no domingo (26) (os ingressos já estão à venda aqui) e no dia 1º de novembro no Palco Bell´Anima Recanto Maestro, em São João do Polêsine. Os ensaios entraram na reta final, com encontros de manhã, à tarde e à noite.
Será a primeira ópera de Pirisca, cuja história como artista nasceu e brotou nas Califórnias da Canção Nativa, em Uruguaiana, que ele venceu por três vezes. Intérprete experiente, Pirisca já lançou oito álbuns e arrematou oito Prêmios Açorianos. Agora, vive uma nova experiência, carregada de orgulho e emoção.
Encomendada pela Companhia de Ópera do RS (Cors), a obra integra o projeto Ópera e Formação e tem a parceria da Secretaria de Estado da Cultura.
Conversei com ele no último fim de semana, em uma brecha dos ensaios e shows. A seguir, leia a entrevista.
Quando tu recebeste o convite para ser Jayme Caetano, como foi?
Foi uma baita surpresa, porque o Jayme, além de ídolo, é uma inspiração, né? A obra dele é irretocável. Eu gosto de escrever décimas também, mas demoro uma semana para fazer uma décima. Tenho de pensar muito, e ele era um cara que fazia de repente, até de improviso. Isso é incrível.
Tu tens ligação com o Jayme?
Ele é contemporâneo dos meus tios, tenho fotos dele jogando truco com o meu avô Júlio Machado, lá em Uruguaiana. Me sinto próximo. Então, quando o Vagner (Cunha, autor da ópera) me telefonou, foi uma surpresa incrível. Essa ópera me pegou em cheio, é um grande prêmio, um grande troféu, uma oportunidade de desvendar novos palcos, novas artes.
E a responsabilidade? Tu és do meio nativista e imagino que muita gente tem uma grande expectativa. Tu sentes essa carga?
Estou tratando com muita leveza, porque eu convivo muito com os missioneiros, né? Meu principal núcleo de parceria é a gurizada das Missões, o Ângelo Franco, o Érlon Péricles, que são hoje meus sócios, meus parceiros. Eu me abasteço muito desse convívio com a gurizada. Por isso, estou tranquilo. Sei que a ópera vai trazer elementos novos, de figurino, de postura, de comportamento, um pouco diferentes do tradicional, mas estou preparado para encarar isso. No mês que vem, faço 54 anos. Me sinto preparado para fazer essa ópera.
É muita estrada...
Sim. Um tempo atrás, não sei se teria essa coragem, sabe? Mas agora eu me vejo em condições, de cabeça boa, fisicamente saudável e a fim de aprender, interessado em evoluir.

Como estão sendo os ensaios?
A rotina é intensa e afetuosa. É um grupo que tem muita capacidade técnica, profissional e muito afeto. É uma bolha afetiva, que dá gosto de acordar e ir correndo cantar.
São ensaios diários?
Sim, estamos indo para a terceira semana. Na primeira, ensaiávamos um turno. Depois, dois. E, agora, são três turnos de ensaio, de manhã, de tarde e à noite.
O que está sendo mais desafiador?
É um processo, né? Foi difícil, para mim, ler as partituras, porque não é algo com o qual tenho familiaridade. Recebi a minha parte cantada toda em partituras. Isso me exigiu correr um pouco para entender. Tem também a questão cênica, de ser regido por um maestro (André dos Santos). Isso requer muita disciplina e atenção. E agora nós vamos passar para o palco. O canto e o movimento cênico vão encontrar o cenário. É incrível. Como eu te disse, é uma rotina exaustiva, mas é muito atraente. Dá gosto acordar cedo e ir para o teatro trabalhar, com o crachá da Companhia de Ópera. Isso vai dando uma dignidade artística maravilhosa. Estou super empolgado e confiante de que vamos fazer bonito.
Como é a tua parte? Tu vais declamar como fazia o Jayme? Tem canto lírico na tua participação também?
Não, é uma mistura do popular com o erudito. Não vou me transformar em cantor lírico em três semanas, mas vou contar a história como o Jayme. Chego como Pirisca, peço licença, incorporo, entre aspas, a personalidade do Jayme e começo a contar a história. Tem a província, a terra, a natureza, todas as musas do Jayme, da imaginação dele. E tem a China também, que será a Emily Borghetti.

E essa mistura do popular com o erudito, como é?
É incrível. Eles trouxeram a Emily e eu para somar. Não é para que a gente se transforme em erudito, sabe? Mas para somar, com o nativismo, o regionalismo, o lugar de onde a gente vem. Eu recito Jayme e canto bastante com os cantores líricos. A gente somou as vozes e deu liga. O coração está batendo forte.
Vai ser um espetáculo histórico...
Sim, vai entrar na história. E o Jayme tem muita coisa conhecida e desconhecida. Ele era um cara da inclusão, um cara que cantava as injustiças sociais, a questão do negro, inclusive. A gente está se emocionando a cada dia de trabalho, porque sempre surge um elemento novo. A gente começa a mergulhar na ópera do Jaime e a entender melhor a poesia. E tem muito do dialeto gaúcho também, que eu sirvo de porta-voz para o pessoal do erudito.
Chegaste a conversar com a família do Jayme?
Não tive essa oportunidade. Conversei só na minha bolha de amigos que são das Missões.
E o que os amigos missioneiros acharam?
Acho que está todo mundo gostando muito dessa primeira homenagem ao Jayme. Fica uma ponta de curiosidade, porque a gente não tem esse hábito de assistir a ópera, né? Então, a gente fala em ópera, mas o que é ópera? Aí mistura dança, mistura cenário, marcação cênica, interpretação. É um pouco mais dramática, mais exagerada do que a interpretação nos festivais nativistas. Então a gurizada está bem curiosa. Eu vou tentar levar todos os amigos para assistir, porque eu sei que vai ser uma coisa que a gente vai lembrar para sempre.




