Thiago Lacerda não é gaúcho por detalhe. Nasceu no Rio, filho de pais mineiros, mas, há tempos, adotou o Rio Grande como sua segunda casa, em uma espécie de "dupla cidadania".
De volta ao Estado para as gravações do filme Porongos (leia mais no fim do texto), no qual interpreta Bento Gonçalves, Thiago concedeu uma entrevista de 45 minutos ao Paralelas. O bate-papo ocorreu no Memorial do Legislativo, em um local sugestivo: o antigo plenário da Assembleia, que leva o nome do novo personagem vivido pelo ator.
Falamos sobre o trabalho, a importância de trazer à tona a história dos Lanceiros Negros e muito mais — dos motivos por trás da paixão pelo RS ao cachorro que ele adotou no set de filmagens de O Tempo e O Vento, em Bagé, 12 anos atrás.
A seguir, leia trechos da entrevista.
Assista à íntegra aqui
Como começou tua ligação com o Rio Grande?
Venho há muitos anos para cá, criei uma maneira de estar aqui que passa pelos meus amigos, mas principalmente pelo trabalho. O meu trabalho me trouxe para cá. E, a partir dos meus personagens, esses vínculos foram se estreitando e eu fui ficando. Hoje, me sinto acolhido pela gente do Rio Grande, pela cultura do Estado. E sinto que é, de certa maneira, um movimento pessoal também, né? Eu me sinto acolhendo tudo isso. É um prazer poder voltar. É um prazer trazer os personagens, falar deles e através deles mapear um pouco a história do Estado, seja pelo cinema, pelo teatro, pela TV. Mas a verdade é que a minha relação com tudo que o Rio Grande do Sul tem é muito natural, é muito bonita.
Eu sou carioca, mas muito rapidamente me reconheci de alguma forma aqui e eu me sinto quase gaúcho, vamos dizer assim.
THIAGO LACERDA
Ator
O que mais te encanta no Estado?
Eu me vinculei essencialmente pela gente do Rio Grande do Sul, pelas pessoas, pela cultura e pela mitologia. Eu acho que essa história dos personagens e tudo que cerca, tudo que envolve essa mitologia de fronteira, toda a constituição do Estado, eu acho que esse foi o tripé que me costurou aqui.
E o chimarrão?
O mate entra quase como de uma forma inevitável. Rapidamente eu reconheci no hábito do chimarrão, um hábito extremamente saudável, um hábito que me dizia muito.
E o chimarrão tem essa coisa de compartilhar, né?
É, o chimarrão tem várias simbologias que me interessam muito. A coisa do compartilhar, a coisa do ritual. A coisa do momento e do silêncio que se faz em torno do mate. Eu gosto muito do mate solitário também. Tem uma sabedoria no mate.
Tu estás fazendo um filme que narra um dos episódios mais vergonhosos da história do RS, envolvendo os Lanceiros Negros. O que significa fazer esse filme para ti?
É um filme, para mim, extremamente importante e urgente. É uma página indigna da história do Rio Grande do Sul e eu diria que é uma página indigna da história do Brasil. O Massacre de Porongos é um episódio que a gente precisa ter coragem de revisitar.
Havia uma promessa de alforria aos Lanceiros durante a Guerra dos Farrapos, e isso não aconteceu. Mais de uma centena de homens escravizados foram mortos na batalha...
Foram emboscados, foram atraiçoados e chacinados.
E o filme vai falar dessa história?
O filme trata desse episódio com a coragem que às vezes falta a quem nos conta. Eu fico pensando que é tão importante que a gente tenha essa reflexão. Uma guerra não é feita só de atos heroicos. Uma guerra também é feita de atos indignos. E eu não consigo entender muito porque as pessoas têm tanto receio, as pessoas têm tanto medo de mexer nisso, a ponto de se recusar a tocar no tema ou a voltar a esse episódio.
O filme presta esse serviço para todos nós. Uma parte da nossa história não nos contam.
THIAGO LACERDA
Ator
Isso leva necessariamente a uma dificuldade muito grande de entender o presente e tampouco de imaginar o futuro. Então, a contribuição que o cinema tem para dar, que um filme como esse, como Porongos tem para dar, é imensa. A gente precisa romper com esse receio. A gente precisa ter coragem de botar o dedo nas nossas feridas, de olhar para essas chagas e trabalhar. Trabalhar para, de alguma forma, ressignificar isso. De alguma forma, caminhar na direção de uma reparação histórica.
Estamos vivendo o centenário de Erico Verissimo. Como foi para ti interpretar o Capitão Rodrigo?
Responsabilidade, acho que essa é a palavra. Num primeiro momento... Bom, a história é um pouco longa, mas a verdade é que a alegria vem primeiro e ato contínuo um senso de responsabilidade. E, para além de um personagem muito importante para todo o imaginário e para a literatura brasileira, as pessoas já tinham uma referência muito potente do Capitão em função da minissérie, em função... Do Tarcísio (Meira), do trabalho do Tarcísio. Então é sempre muito delicado, né? Mas é um personagem tão mágico, tão impressionante, que no final das contas, assim, eu fico me perguntando se não é só atrapalhar, sabe? O maior desafio é não atrapalhar o personagem. E além de tudo, um forasteiro, né? Um cara vindo de fora se arvorar a contar essa história. Um pouco de cara de pau, um pouco de coragem. Mas o Capitão é um personagem lindo.
E o Tarcísio foi a primeira pessoa com quem tu conversaste depois de receber a notícia de que interpretaria o Capitão Rodrigo, né?
O Tarcísio foi a primeira pessoa humana respirando, de pé, que eu vi quando eu saí da sala do Jayme (Monjardim, o diretor do filme).
Era pra ser, né?
É, eu acho que esse tipo de coisa acaba dando sinal para a gente, sabe? Quando acontece uma coisa dessas, você fala assim, nossa, olha só como a coisa se deu. Eu fico achando que isso é sinal positivo de uma caminhada generosa.
E o Tarcísio te deu a bênção?
Tarcísio foi muito generoso. Ele gostava muito de mim. A gente fazia um trabalho como pai e filho na TV Globo. E ele foi maravilhoso. Foi incrível. Foi bonito esse momento também entre dois atores, né? De gerações diferentes. Essa coisa da troca do personagem, né? É muito delicado.
Ainda sobre O Tempo e O Vento, tu adotaste um cachorrinho no set de filmagens, chamado Capitão Rodrigo. Como ele está?
O Capitão morreu. Ficou muitos anos com a gente. Viu os meus filhos crescerem. Era a grande companhia da casa. Era o xodó da casa. E há alguns anos ele teve uma pneumonia em um inverno pesado. Já estava mais velhinho e foi.

Te doeu ver a cidade cenográfica em Bagé ir abaixo?
Muito, muito. Uma perda imensa. E eu dizia para as pessoas, como é que Bagé vai permitir que a cidade, que tem tanto potencial futuro, potencial de turismo, potencial econômico... uma memória, né? Eu tenho certeza que se Santa Fé estivesse de pé, bem cuidadinha, seria um belo passeio turístico na região da fronteira. A cidade hoje praticamente não existe, tem lá talvez um ou outro alicerce, mas já soube que as pessoas envolvidas com turismo estão interessadas em recuperar o lugar. Já me disponibilizei para ajudar no que for preciso para que essa ideia aconteça.
Tu já interpretaste Capitão Rodrigo. Giuseppe Garibaldi e agora Bento Gonçalves. Que que falta?
Eu não sei, quem sabe um dia o Neto, mas calma, calma, que se eu faço o Neto eu fecho a cartela de bingo, né, não é bem assim. Mas certamente tem muitos bons personagens, brincadeiras à parte.
Tem a história do século 20 também, não é? Getúlio...
Tem, tem. Oswaldo Aranha... Eu tenho três personagens lindos, sou muito feliz com eles, não sei qual é o próximo, não sei se vai existir, mas se existir será muito bem-vindo.
Sobre o filme Porongos

Como mostrou o repórter Carlos Redel, a saga dos Lanceiros Negros na Revolta dos Farrapos (1835-1845) está em produção, com parte das cenas já gravadas em localidades como Bagé, Aceguá e Minas do Camaquã. A maioria das captações ocorreu entre agosto e setembro. Faltam recursos para a conclusão.
Com direção e roteiro de Diego Müller e produção de seu irmão, Pablo Müller, o filme Porongos revisita o episódio conhecido como Massacre de Porongos, resultado de uma traição que vitimou mais de cem soldados negros, aos quais havia sido prometida a alforria após a guerra.
O projeto foi contemplado no edital da Lei Paulo Gustavo, mas os custos da produção superaram o valor previsto e, para poder contar a história com a grandiosidade que o diretor considera necessária, as filmagens foram interrompidas. Agora, a direção segue em captação de recursos por meio da Lei do Audiovisual e também busca investimentos privados.
— A gente não podia fazer um filme menor que Netto Perde Sua Alma, por exemplo. Não podíamos fazer um filme menor que outros filmes porque a gente não ia estar colocando esse assunto, esse tema, dentro do lugar que ele precisa estar. Então, não abrimos mão de estar em lugares, como Minas do Camaquã, que trouxessem uma grandiosidade para o filme — disse o diretor ao repórter Carlos Redel.
Se tudo der certo, Diego Müller espera que Porongos esteja nas salas de cinema no final de 2026. Há algum(a) empresário(a) aí disposto(a) a ajudar? Entre em contato com a coluna, pelo e-mail juliana.bublitz@zerohora.com.br, que a gente faz a ponte.





