
Quem imaginaria um dia ver a chula, tradicional dança masculina do RS, numa ópera? E ainda protagonizada por uma mulher?
A distopia vai se materializar com Emily Borghetti no palco, no próximo sábado (25) e no domingo (26), no Teatro Simões Lopes, em Porto Alegre, com a estreia mundial de Em busca das paisagens perdidas. Haverá apresentação, também, no dia 1º de novembro no Palco Bell´Anima Recanto Maestro, em São João do Polêsine.
Assinada por Vagner Cunha, com libreto (texto cantado) de Renato Mendonça, direção cênica de Carlota Albuquerque e direção musical de André dos Santos, a obra celebra o centenário do payador Jayme Caetano Braun, unindo o popular e o erudito de forma inédita no RS.
Será a primeira ópera de Emily, que tinha o sonho de, um dia, dançar com uma orquestra. Nessa história, ela interpretará China, mulher livre e uma das personagens do universo jaymiano.
Conversei com Emily entre um ensaio e outro. A seguir, leia a entrevista.
Como tu recebeste o convite? Vai ser a primeira chula em ópera...
Sabe aquela história de que as palavras têm poder? Eu falava assim: “Um dia, quero dançar com uma orquestra”. Era algo que eu tinha na cabeça há muito tempo. Agora, estou realizando um sonho. O convite veio pela Carlota Albuquerque (diretora cênica do espetáculo), que foi minha primeira professora de balé quando eu era criança. Ela deu aula na escola da minha mãe (Cadica Costa). Fiquei muito feliz, mais ainda porque minha família admira o Jayme Caetano Braun e por saber que o Pirisca Grecco estará junto.
Vais interpretar a China. Que mulher é essa?
A China é o amor desse poeta e é, também, um lugar de memória. Ela está na imaginação dele, no pensamento dele. Essa personagem representa a fertilidade e ao mesmo tempo é uma mulher que não tem regras, nem rédeas. Ela corre muito, ri muito. É uma mulher livre. Aí entram as minhas referências da chula, da milonga, do tango, da chacarera.
A forma de expressão dela é pelo corpo?
Exato. Ela não fala, mas faz muito barulho e rompe o silêncio o tempo todo. Bate o pé, sapateia, faz percussão corporal, faz barulho de uma forma que não é pelo canto, é pelo corpo, um corpo livre.

Como está sendo a experiência?
Está sendo incrível. Tem muito ensaio, de manhã, à tarde e à noite. No começo, a gente até se surpreendeu. O pessoal da ópera, as cantoras líricas, estão sempre entregando tudo, são muito focados. Isso faz com que a gente vá evoluindo. Eles vão nos inspirando e dizem que nós estamos lá para inspirá-los também. É uma troca o tempo todo, generosa e amorosa. Está sendo uma experiência muito bonita e enriquecedora.
E essa junção do popular com o erudito?
É maravilhosa, porque, ao mesmo tempo que é muito erudito, é muito regional e muito contemporâneo. Não é um poema único do Jayme, é uma paisagem do Jayme. Isso vai fazer com que o público construa a própria leitura dele e da obra dele, e não necessariamente saia da ópera com uma historinha pronta na cabeça. Tem o Jayme, mas tem também o eco do Jayme, feito pelos cantores. Tem as bailarinas, tem as desconstruções sonoras e de ritmo, é realmente incrível. Vai ser lindo.



