A potência da ópera foi elevada a um novo patamar neste final de semana em Porto Alegre. Em meio a um encontro nacional de diretores, produtores e cantores líricos de todo o Brasil, o público testemunhou a estreia de uma superprodução com DNA gaúcho, que juntou o que há de mais belo na arte: o popular e o erudito, num só palco, sem preconceitos, sem amarras, sem fronteiras.
A exibição de Em busca das paisagens perdidas, espetáculo criado especialmente para o centenário do payador Jayme Caetano Braun, fez jus às expectativas. Foi a encenação do ano no Multipalco Eva Sopher, pelo ineditismo e capacidade de unir o improvável — a ópera e o nativismo, em torno de uma figura conhecida da cultura regional.
Jayme foi declamador de "pajadas" (daí o termo pajador ou payador), uma forma de poesia popular no território platino, com estrofes de 10 versos, em geral acompanhadas de violão e feitas de improviso. Ele cantou as Missões, o Rio Grande e suas gentes e jamais se calou diante das injustiças sociais.
Tudo isso, de um jeito novo (meio ópera, meio teatro, meio dança, meio tradicional, meio moderno, meio desconstruído) foi parar no tablado, na composição de Vagner Cunha e no texto de Renato Mendonça, sob a direção cênica de Carlota Albuquerque (acompanhada de Diego Mac) e a batuta do maestro convidado André dos Santos.
Na pele de Jayme, o também missioneiro Pirisca Grecco fez chover talento (e erva, literalmente!), provando ser mais do que um cantor: atuou como nunca, abrindo novas possibilidades na sua carreira vitoriosa em festivais e shows.
Interpretando a China, figura presente nos versos do declamador, Emily Borghetti transpirou energia e liberdade. Foi a força da natureza no palco, correndo, sapateando, dançando chula e gargalhando.
Com ela, as bailarinas Carini Pereira e Danielle da Rosa Costa, a Preta Mina (representando a mulher indígena e a mulher preta, respectivamente), brilharam em cena, com direito a taquaras, leivas de grama, rodopios e movimentos de dança contemporânea.
As sopranos Carla Maffioletti, Eiko Senda e Elisa Lopes deram vida às personagens Natureza, Terra Bugra e Província, trio inseparável (de inexplicável beleza) pintado de lama e feito de vozes de longo alcance. Quando elas projetavam o canto, a plateia tremia.
Raquel Fortes, Luciane Bottona, Maicon Cassânego e Guilherme Roman completaram o time lírico da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul (Cors) como um quarteto afinado, ecoando seu "Jayme Grecco" e levando os versos ainda mais longe.
Do fosso, a Filarmônica Ontoarte Recanto Maestro executou a música com excelência — uma melodia de contornos épicos, feita de pausas e explosões, de flauta e bombo, de metais e de cordas, misturada ao sopro gelado do vento minuano que adentrou o Teatro Simões Lopes Neto em plena primavera, num espetáculo de rara beleza.
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Haverá nova apresentação no dia 1º de novembro no Palco Bell´Anima Recanto Maestro, em São João do Polêsine.
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Promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, parceira da Cors no projeto Ópera Estúdio (que chamo de "fábrica de cantores"), o espetáculo tem tudo para ir adiante. Mais precisamente, 500 quilômetros rumo ao noroeste do Estado.
Em busca das paisagens perdidas está pronto para o maior dos palcos: as Ruínas de São Miguel, nos 400 anos das Missões, em 2026. Falta só marcar a data.
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E a erva? Sim, de fato, houve chuva verde no palco (não foi força de expressão), recurso cênico dos mais criativos e inesperados.
Foram 100 quilos do produto, fornecido pela Milonga Erva-Mate. Rafael Becker, dono da empresa e sommelier formado na Argentina, viu tudo de perto, na plateia, e se emocionou.
— Nunca imaginei algo assim. Foi lindo e poético — disse o empresário.






