Ela foi a primeira mulher negra a se tornar Miss Brasil, quebrando preconceitos e abrindo caminhos. Em 2026, a gaúcha Deise Nunes completará quatro décadas de reinado.
Para conversar sobre essa história, com todos os seus desafios, o racismo sorrateiro e escancarado e os fatos curiosos, recebi Deise no Paralelas, meu novo podcast no YouTube de GZH e no Spotfy, nesta semana.
A gravação foi no Café Iberê, na Fundação Iberê, à beira do Guaíba (fica a dica!).
O Paralelas já recebeu, também, o primeiro-cavalheiro do Estado, Thalis Bolzan (clique aqui para ver).
Leia a seguir trechos do bate-papo com Deise Nunes.
Veja aqui o episódio na íntegra
Superaste todo tipo de barreira para chegar lá, mas, desde pequena, sua mãe dizia que tinha uma miss em casa. Como foi esse início?
Logo que eu nasci, minha madrinha foi me visitar no hospital. Ali a minha mãe já disse: pega tua afilhada, a futura Miss Brasil. Fui crescendo, e lembro que ela cuidava muito de mim para que eu não caísse e não tivesse cicatrizes, porque ela sabia que tinha uma miss em casa. Ela profetizou isso. Foram alguns obstáculos, mas não existe vida sem obstáculo.
Tu tinhas 18 aninhos, quando tudo aconteceu, né?
Eu era uma menina. Quando comecei como modelo, aos 14 anos, a mãe ia comigo nos ensaios, ia nos desfiles, ajudava nos camarins. Quando eu me vi pela primeira vez sem a minha mãe, foi no Miss Sudamérica (na Venezuela), depois de ter ganho o Miss Brasil. Eu cheguei a pensar em pedir pra voltar para casa.
Sofreste preconceito até chegar ao Miss Brasil?
Sim. No Rainha das Piscinas, em 1984.
Tu eras candidata pelo Inter?
Sim. Em 83, como já tinha o Parque Gigante, o Inter resolveu colocar uma candidata, a Kátia Marques Farias, que venceu o concurso. E aí, em 84, chego eu. Como já tinha a história de que um clube não ganhava dois anos consecutivos, cheguei de sangue doce.
Achava que ia perder?
Eu disse: "Ah, vou participar", porque, querendo ou não, era um concurso muito grandioso, muito forte na época. E eu disse: "Vou participar, vamos lá". Foi muito demorado o resultado e, quando veio, foi uma grande surpresa e um start forte na minha vida ter vencido o Rainha das Piscinas. Depois desse concurso, inclusive, fui participar do programa do Clodovil na TV Manchete. Só anos depois descobri por que demorou tanto o resultado.
O que houve?
Depois de muitos anos, eu soube que tinham jurados que não queriam me dar o título por eu ser negra. Preconceito aberto. "Não, imagina como é que vamos dar um título para ela? Vamos ser linchados aqui. As pessoas não vão aceitar. Não podemos." Até que um dos jurados, ou alguns jurados, disseram, "olha, gente, só um pouquinho, nós já fizemos três votações aqui. Nas três, ela venceu. Ou se dá o título a ela, ou eu saio daqui e vou contar que é uma farsa". Aí, resolveram anunciar o resultado, que já tinha se definido desde a primeira votação.
Houve outros episódios?
A gente escuta ele coisas pelas ruas. Eu era estudante ainda e tinha ido na Biblioteca Pública fazer um trabalho. Voltando para casa, na Rua da Praia (em Porto Alegre), escutei um casal conversando. Ela perguntou se ele tinha assistido ao concurso. Ele disse que não e perguntou quem ganhou. Ela disse: "Ah, tu vê, no meio de tanta loira, foi ganhar justo uma negra". Eu estava exatamente atrás deles.
Depois disso, teve um episódio dentro da moda, uma coisa que, na minha cabeça, era algo que jamais aconteceria. Jamais. Porque a moda... Eu sempre achei a moda muito plural, muito aberta. Fui parar numa seleção para um desfile, e o produtor chegou, conversou conosco, explicou como seria o trabalho e pediu que todo mundo fosse para uma outra sala, que ele gostaria de ver os modelos gaúchos, porque ele não era daqui, era de Santa Catarina.
E aí?
Eu me levantei, e ele disse: "Ah, tu não." Aí eu olhei para ele e perguntei por que não, pois foi só para mim. E aí ele disse: "Porque o pessoal não quer negros no desfile." Dois colegas saltaram para me defender.
Nesses episódios de racismo, o que passa na cabeça?
No primeiro, eu fiquei tão perplexa que não tive nenhum tipo de reação. Eu escutei. E fiquei ali parada, assim, ouvi aquele casal falando. Eu não reagia. Poderia ter chegado e dito "olha, eu sou a rainha das piscinas". Não, não tive reação, porque eu nunca tinha sofrido preconceito até então. Já no segundo episódio, tive a oportunidade de falar. Não fui grosseira, não fui mal educada. Só expliquei como é que as coisas deveriam ter sido conduzidas.
Quando tu foste para o Miss Brasil, como tu te preparou para isso?
Quando eu cheguei ao Miss Brasil, eu não sabia com quem eu estaria lidando, sabia que ia ficar 15 dias com aquelas moças, cada uma de um Estado, cada uma com uma cultura diferente, né? E aí eu pensei "bom, ninguém mais vai falar qualquer coisa sem eu dar uma resposta". Botei isso na cabeça.
Como foi o concurso?
Todas nós chegamos juntas, no mesmo dia. O Silvio Santos, na época, anunciava na TV que as Misses iam chegar e o hotel onde a gente ia ficar hospedada. Então tinha muita gente na frente do hotel. Naquela época, era assim. Nós éramos estrelas. Descemos da Kombi, cada uma com a faixa de cada Estado. Um rapaz parou na minha frente, olhou para a minha faixa, para mim e disse: "Como assim, do Rio Grande do Sul?" E eu respondi: "Sim, Rio Grande do Sul." Ele disse "ah, mas você deve ter nascido no Rio de Janeiro, na Bahia, em qualquer outro lugar, menos no Sul".
E o que tu respondeste?
Aí falei: "Olha, deixa eu te dizer uma coisa. Talvez tu não saibas, mas no meu Estado nós temos todas as etnias, e os negros se fazem presentes. Tanto é verdade que estou aqui. Não nasci em outro Estado, nasci em Porto Alegre, na capital dos gaúchos." Ele ficou me olhando com um sorriso amarelo. Eu pedi licença e entrei no hotel. Ele com certeza deve ter imaginado que aqui só tinham europeus, pessoas brancas, de olhos claros.
Como foi tua relação com Silvio Santos, que apresentou o concurso?
Silvio era muito metódico. Lembro muito de uma coisa que ficou muito marcada: o ensaio na sexta-feira (um dia antes do concurso). Foi um ensaio tão comprido, tão longo... de um dia inteiro praticamente. A gente podia estar ali com uma sapatilha, um chinelinho, algo que não cansasse tanto. Não. Tinha que ser de salto alto. E tinha que ficar parada onde ele mandava e o tempo que ele quisesse. Foi muito cansativo.
Quando tu soubes que era a escolhida, que era a nova Miss Brasil, como foi a sensação?
Quando o Silvio... ele abria as notas, né? Por último, ele abriu (as notas da competidora de) São Paulo. Tenho certeza de que, na cabeça dele, São Paulo ganharia o concurso. E aí começou a tirar oito, oito e, no quarto oito, me dei por conta. Ali eu me dei conta que realmente tinha vencido o concurso. Ele anunciou e, na minha cabeça, naquele momento, passaram mil coisas.
Qual foi o primeiro pensamento?
Em nenhum momento ele falou em negritude. Em nenhum momento. Ele disse assim: "A Miss Brasil é a Miss Rio Grande do Sul, Deise Nunes de Souza. O Anhembi aplaude a vitória da gaúcha." Eu só pensei "meu Deus, eu ganhei, que bom, vou poder dormir" (risos).
Levou alguns dias até cair a ficha?
No terceiro dia caiu a ficha, quando eu tive a oportunidade de parar e ler o que estava escrito, o que a imprensa falava, o que saiu nos jornais, o que saiu nas revistas. Eu disse, meu Deus, o que aconteceu de verdade? Aconteceu uma revolução. Foi um feito.
E a capa da revista Manchete?
A Miss sempre fazia a capa. Geralmente, ela fazia a capa sozinha. Era ela, com seu manto, sua faixa, a coroa e tal. E, na minha capa, eu saí com a Márcia Gabrielli, que é minha madrinha, uma querida. Foi ela quem me passou o título. Saímos eu e ela na capa. Depois, passado um tempo, conversando com um jornalista negro que era da Manchete, disse que achava absurdo a gente não ver negros nas capas de revistas nesse país. E ele disse que isso acontecia pelo simples fato de que negro não vende revista.

Nossa, que loucura, Deise.
É, e eu fiquei olhando para ele. Como assim, não vende revista? Ele disse, não, negro não vende revista. Aí eu entendi por que eu saí na capa da Manchete com a minha antecessora. Não iam botar uma negra sozinha numa capa de revista.
É vergonhoso.
Lá em 86, nos anos idos de 1980, ainda era muito comum isso.
Para quem tem o sonho de seguir os teus passos, qual é o conselho?
Eu sempre digo que a gente não pode desistir das coisas. Tem muita gente que diz "ah, mas é difícil". Corre atrás do sonho, amor. Não vai cair do céu. Tem que correr atrás do sonho. Tem que passar os obstáculos.
E o preconceito?
Supera-se. Tudo depende de como tu recebe isso. Eu sempre digo: a negritude foi o meu grande diferencial. Talvez, se eu fosse uma branca, não sei nem se teria vencido. Tudo que aconteceu é chato, é horrível, é doído, mas eu acho que aquilo foi uma virada de chave, uma alavanca para eu dizer a mim mesma: vai, vai que tu vai chegar lá.





