
Tem gaita (sim, senhor!) no samba pelotense que representará o RS na disputa do samba-enredo da Portela, no Rio de Janeiro. O dedilhado é do músico Gabriel Augustin, que já está acostumado ao gingado: ele estreou no Carnaval de Porto Alegre neste ano, botando a turma para dançar e causando rebuliço.
Agora, será a primeira vez na história que a negritude gaúcha terá visibilidade na Sapucaí. E, se tudo der certo, a composição criada pelo grupo Samba dos Lanceiros (formado por Daiane Molet, Anderson Xilico, Chico Professor, Fagner Presidente, Fred Feijó, Marcéle Salles e Maninho Veiga) vai brilhar na avenida - com acordeon e tudo.
O desafio é grande: será preciso vencer concorrentes cariocas (são 15 canções na disputa), em três etapas, nos dias 14, 21 e 26 de setembro.
Morador de Viamão, o gaiteiro canoense de 28 anos gravou sua participação. Ele está feliz e confiante.
— Fiquei muito honrado com o convite, porque o pessoal é muito talentoso e a música está linda demais. Tem grande chance de vencer. E tem mais: nós sempre fizemos samba no Rio Grande do Sul. O samba é nosso também — diz o músico, que também toca músicas tradicionalistas e forró.
Nosso e do acordeon. Por que não?
Veja bem: Gabriel tocou sanfona no desfile da Acadêmicos de Gravataí, no Grupo Ouro do carnaval porto-alegrense de 2025. A escola fez bonito na avenida, mas, lamentavelmente, foi penalizada pelo regulamento (que veta o uso da gaita). A nova oportunidade é encarada por Gabriel como uma forma de valorização, e tem tudo a ver com o propósito dos compositores, ligados à Império da Baixada, campeã do Grupo Especial de Pelotas.
Além do som do fole, a música incorpora expressões regionais (como “pago”, “querência”, “rincão”, “peleia” e “entrevero”), sons do batuque e sotaques ligados ao universo campeiro. O arranjo foi construído em conjunto com o produtor musical Anderson Xilico, unindo a cadência regional à batida do repique e do pandeiro.
Daiane Molet, que é letrista e historiadora e estuda a temática negra e quilombola há 20 anos, conta que a gaita não foi escolhida por acaso.
— Quando pensamos nesse samba, queríamos que tivesse a cara do RS, e a gaita é um dos símbolos da nossa identidade. Reunir essas forças é um grande diferencial — explica a compositora.
Príncipe Custódio
No desfile de 2026 do Carnaval carioca, a Portela levará para a Marquês de Sapucaí o enredo O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande, que homenageia Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio, celebrando a ancestralidade negra e o batuque no Rio Grande do Sul.
Príncipe Custódio foi um líder de origem africana. Chegou à Capital no início do século 20 e se tornou figura de grande influência religiosa e política.
Babalorixá e líder espiritual, o homem conquistou o respeito de gente como Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, que buscavam seus conselhos.
Custódio também ajudou a consolidar as religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul — religiões, estas, que têm no RS o maior percentual de praticantes do país.



