
Cantora, compositora, atriz, performer, DJ e escritora, Valéria Barbellos é o que se pode chamar de “multiartista”. E é mais do que isso: mulher negra e trans, ela mostra, com seu trabalho, que é possível quebrar preconceitos.
Foi assim na novela Terra e Paixão, da TV Globo, quando interpretou Luana e virou "o xodó das senhorinhas", e é assim nos palcos por onde passa.
Val estará no Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco Eva Sopher, na próxima sexta-feira (5), às 20h, com o show Missioneira - Clássicos do Cancioneiro Gaúcho (de Prenda Minha a Desgarrados, passando por Semeadura e Negrinho do Pastoreio).
O espetáculo celebra os 20 anos de carreira da artista na Capital e sua paixão por Santo Ângelo, terra onde nasceu, e pela cultura do Rio Grande do Sul, unindo tradição e diversidade.
— Quero aproximar minha realidade do gauchismo, do nativismo, do amor pela terra. Honrar o amor pelo Rio Grande que me é atribuído Brasil afora. Missioneira é, acima de tudo, um agradecimento — diz Val.
Conversamos sobre isso e muito mais no Perimetral Podcast da última semana. A seguir, trechos da entrevista, que você vê na íntegra no YouTube de GZH.
Veja a íntegra aqui
Como vai ser esse show, com clássicos gaúchos?
Tenho dito que esse show tem três marcas: falar sobre os Lanceiros Negros e a negritude, agradecer ao povo gaúcho que me acolhe tão bem e celebrar meus 20 anos de Porto Alegre.
Às vezes parece que diversidade e tradição não andam juntas, mas elas podem se complementar, né?
Sim. Sou gaúcha e, por acaso, sou uma mulher trans e uma mulher negra, entende? Mas o meu gauchismo está aqui, a minha vontade de cantar o meu Rio Grande e as Missões, de onde venho, está sempre comigo.
Tu tens receio de como algumas pessoas podem reagir?
Confesso que tenho muito receio, mas o show está tão bonito e tão respeitoso... É amoroso também, porque resgata minhas raízes, mas, ainda assim, eu tenho medo, porque pode ter gente que não entenda.
Sofreste muito preconceito?
Muito. Tive câncer em 2019, 2020, e digo que foi o menor dos meus problemas. O senti primeiro na vida foi o preconceito racial. Lembro de sofrer racismo quando criança.
Como é ser trans no RS?
É uma... Eu ia falar um palavrão. É uma m... Muito difícil, ainda mais sendo uma pessoa trans preta. Aí dificulta ainda mais. Fui abrindo picada a mão, como a gente fala lá em Santo Ângelo. Quando cheguei aqui, em 2005, não existia nenhuma cantora assumidamente trans.
Como foi virada de chave na novela Terra e Paixão?
Digo que virei a paixão das senhorinhas. Foi tão legal. Um dia fui ao teatro, e veio uma senhora perguntar se podia tirar foto comigo. Eu falei: “claro!”, aí ela olhou para trás e avisou as amigas. Veio uma caravana inteira! Naquele momento, entendi que estava indo muito além do que imaginava.
Fazes questão de se apresentar como uma multiartista trans. Por quê?
Porque tem força. Muita gente diz “Nossa, mas não precisa isso”. Precisa, sim, porque é demarcação de território, de existência. Se eu não disser que estou aqui, as pessoas podem pensar que não estou ou fazer ouvidos moucos. Não estou fazendo um personagem. Não é isso. É sobre ser.
Disseste, em uma entrevista, que a beleza está no respeito. É isso, né?
Eu adoro ser chamada de senhora. Amo quando as crianças me chamam de tia. São coisas que parecem muito pequenas, mas são imensas para nós.
Sobre o show "Missioneira"

Com direção geral de Jöão Monteiro e direção musical de Clarissa Ferreira, o espetáculo Missioneira - Clássicos do Cancioneiro Gaúcho será uma noite comemorativa, com Val cantando músicas de Berenice Azambuja, Mary Terezinha e César Passarinho, entre outros. No palco, ela receberá convidadas especiais e terá consigo uma bela banda, formada por Clarissa Ferreira (violão, violino e vocais), Ana Matielo (violão e vocais), Tamiris Duarte (contrabaixo e vocais), Maryane Francescon (acordeon) e Alexandra Amaral (percussão).
Serviço
- O quê: show Missioneira - Clássicos do Cancioneiro Gaúcho
- Quando: 5 de setembro, sexta, às 21h
- Onde: Teatro Simões Lopes Neto – Multipalco Eva Sopher – Av Riachuelo, 1089, Porto Alegre
- Ingressos: a preços populares (R$ 20) clicando aqui



