
Ele é baterista de uma das mais amadas bandas do RS, a Nenhum de Nós, e tem suas digitais em canções como Camila, Camila e Astronauta de Mármore. Mas Sady Homrich não é apenas um músico de sucesso.
Ele também é um dos maiores especialistas em cerveja artesanal do Brasil. Sommelier e engenheiro químico de formação, começou a fazer a própria cerveja em casa, em Porto Alegre, na década de 1980, antes de virar moda.
Sady foi o convidado do Perimetral Podcast da última semana. A seguir, leia trechos da entrevista.
Como conseguiste juntar tudo isso? Música, engenharia química, cerveja...
Olha, na verdade, essas coisas é que me escolheram, porque foi tudo ao mesmo tempo agora. Foi impressionante.
Como começou?
Thedy (Corrêa, vocalista), Carlão (Carlos Stein, guitarrista) e eu somos amigos desde a infância. Na faculdade, a gente começou a entender que o rock brasileiro estava virando uma coisa séria. Aí veio o Rock in Rio, mostrando as bandas brasileiras num palco de verdade, com som de verdade. Ali a gente se deu conta: "pô, somos nerds que gostam de música. Vamos fazer uma banda!"
E a cerveja?
Nesse meio tempo, eu fazia Engenharia Química na PUCRS. Fiz uma visita técnica ao Polo Petroquímico, mas sempre fui muito sensível a odores, e lá a atmosfera é rica em solventes. Para mim, era agressivo. Pensei: "Ah, não vou ser feliz aqui. Não vai dar." Aí, a próxima visita foi à Cervejaria Continental, que era a unidade da Brahma onde hoje é o Shopping Total. Era lindíssima. Ali encontrei meu habitat natural.
E passou a pesquisar cervejas?
Sim. Em cada lugar que a banda ia tocar, eu dava um jeito de conhecer novas cervejas locais, de saber mais sobre elas. Assim decidi terminar a faculdade e me formar.
A banda já não tinha estourado? Como foi conciliar isso?
Virou um mutirão para o Sady se formar, com todo mundo ajudando. Em nenhum momento me arrependo disso, porque eu gosto da engenharia. Só que eu não pude exercer, óbvio, porque a banda tinha muita demanda, aí me dediquei à cerveja.
O pessoal na PUCRS não te parava para pedir autógrafos?
Olha, eu era uma figura carimbada já.
Todo mundo já te conhecia...
Mais ou menos. Teve um dia em que fui para a PUCRS de ônibus. Estava no Ipiranga-PUC (tradicional linha de estudantes), no fundo, com a minha pastinha. Aí o cobrador estava ouvindo um radinho e tocou Astronauta de Mármore.
Te emocionou?
Claro, eu ria sozinho no fundo do ônibus.
Como foi começar a fazer cerveja em casa, nos anos 80? Foi por tentativa e erro?
Total. Era difícil, ao contrário de hoje, em que todos os insumos estão à distância de um clique. Na época, não tinha nada disso.
Virou um hobby, mas também algo profissional, porque tu és jurado em concursos no Brasil e no Exterior, né?
Como diz aquela frase do Borges, "el diablo no es diablo por malo, si por viejo". Eu comecei muito cedo a vivenciar o universo cervejeiro, que depois acabou virando moda. Já me chamavam para entrevista, então eu tinha que estudar para poder responder. Depois, vieram os cursos de sommelier, e eu me formei no mesmo curso em que fui professor.
Hoje tu segues fazendo cerveja?
Sim, lá no Laranjal, em Pelotas. Lá também está a minha primeira bateria.
O que tu achas das cervejas que tem gosto de tudo, menos de cerveja?
Bom, eu sou a favor da liberdade cervejeira. Aliás, a favor da liberdade, inclusive cervejeira. Mas vou fazer um paralelo com a Europa. A Alemanha, desde 1516, tem a lei da pureza. Para o alemão, se não for assim, não pode botar o nome de cerveja.
Não é muito radical?
Claro! Agora, é claro, também, que têm alguns exageros. Às vezes eu me pergunto qual o sentido (de determinados tipos de cerveja). Isso faz parte de um processo que alimenta o hipster cervejeiro.
Quem é o hipster cervejeiro?
É aquele que quer tomar uma cerveja diferente. Ele vai na cervejaria e pergunta se tem. Se não tem, sai de cara, porque a cervejaria "estagnou". Só que, quando toma uma dessas diferentes, ele toma uma. "Ah, já tomei". Posta no Instagram, em aplicativos cervejeiros... "Ah, já provei mais de mil cervejas". Então fica... É uma ostentação que não tem sentido.
Qual é a melhor cerveja?
Eu respondo a essa pergunta de duas formas. A melhor cerveja que eu tomei foi nas catacumbas da fábrica da Pilsner Urquell, em Pilsen, na República Tcheca, que foi onde inventaram esse estilo em 1842. Nessas catacumbas, que ficam nos túneis subterrâneos, é sempre a mesma temperatura, então eles fazem tanques de madeira abertos ainda, para mostrar aos visitantes. É uma cerveja que não é filtrada e é cristalina. Não tem, obviamente, nenhum aditivo ou estabilizante. Essa cerveja, realmente, para mim, foi a melhor que tomei. Mas é uma sacanagem, porque pouca gente vai poder pegar um avião e ir provar.
E qual é a segunda resposta?
Uma vez, em Pelotas, meu tio Hugo pediu pra eu assar um galeto para os parentes. Eu gosto da função. E, claro, fui cedo. Ele fez o fogo com oito quilos de carvão. Era uma fornalha. Daqui a pouco, veio com uma Faixa Azul e dois copos. "Ó, meu sobrinho, guardei para tomar aqui contigo". Naquele calor, naquele momento, foi inesquecível. Foi a melhor cerveja do mundo.



